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terça-feira, 1 de novembro de 2005

AS “LINHAS DE TORRES” EM BTT


Hercules vencendo o Leão de Nemeia (Monumento às Linhas na Serra de Alhandra) Foto PR

TEXTO PUBLICADO NA REVISTA ONBIKE DE OUTUBRO DE 2005

Qual é o seu tipo de BTT?

Há vários modos de encarar o BTT, todos diferentes, todos iguais. Desde aquele que se efectiva numa rotineira manhã de domingo, sempre no mesmo local e, invariavelmente, às mesmas horas repetindo, porventura, os mesmos gestos, até ao que, seja por sofisticação, disponibilidade ou gosto, aposta em variar os locais e entende este desporto como uma forma de evasão que permita não só conhecer locais diferentes, como de igual modo, diversos graus de dificuldade e desafios variados.

Pessoalmente, situamo-nos mais perto do segundo tipo aqui referido. Temos pena de não possuirmos a disponibilidade para pedalar em todos os locais e/ou com a frequência que gostaríamos, mas vamos fazendo pela vida pois, se pedalássemos sempre de forma rotineira, ou já tínhamos desistido, ou ficávamos pelos sensaborões rolos domésticos.

Faz falta a variedade. Esta é uma verdade incontornável! Temos pois que usar da imaginação e nem sequer é necessário ir muito longe. Portugal tem locais de sobra e de eleição para a prática.

A nós, aquilo que mais nos agrada, é juntarmos ao desporto uma boa temática histórico-cultural. Os Caminhos de Santiago podem ser apontados como o exemplo acabado disso. É, se quiserem, uma forma de se esquecerem as dificuldades geradas pela altitude e quilometragem acumuladas. Nem só do pedal vive o Homem!


O Reconhecimento das Lendárias “Linhas de Torres Vedras”

Foi com este intuito que começámos a esboçar o projecto do reconhecimento das lendárias “Linhas de Torres Vedras". É certo que existem por aí alguns passeios organizados intitulados de “Linhas de Torres”. No entanto são apenas pequenas abordagens às “Linhas” visitando este ou aquele reduto mais bem conservado e com uma quilometragem limitada.

Por outro lado, importa atentar no seguinte: não obstante as “Linhas” se chamarem de “Torres Vedras” elas correm paralelas, em vastas zonas do Norte de Lisboa e apenas numa pequena parte são efectivamente de Torres Vedras, embora seja na área desse município que iremos encontrar a maior densidade de vestígios.

Aquilo que nos propusemos fazer foi efectuar o levantamento do maior número de redutos e baterias e, na medida do possível, conseguir percorrê-los a todos em BTT, do Tejo até ao mar, com elevadas quilometragem e altitude positiva acumulada.

Paralelamente percorrer-se-ão algumas das estradas militares construídas nessa época para ligação entre os redutos, os quartéis-generais na zona de Pêro Negro, o monumento evocativo da construção, simbolizado numa estátua de Hércules na Serra de Alhandra e, ainda, os locais dos postos de sinais.


Enquadramento Histórico das “Linhas de Torres”

Trata-se de um conjunto vasto de fortificações militares defensivas do início do século XIX que permitiram suster as tropas napoleónicas impedindo a invasão de Lisboa e proporcionando as condições para o contra-ataque vitorioso.

Após o final da segunda invasão francesa, o duque de Wellington (comandante do exército anglo-português) decide defender Lisboa, para permitir uma eventual retirada marítima do exército britânico no caso de uma nova invasão. Assim, manda edificar em 1809 aquele que é considerado o mais eficiente sistema de fortificações de campo da História militar. Este sistema defensivo consistia numa dupla linha de redutos em cantaria, alvenaria ou simples terra, que reforçavam os inúmeros obstáculos naturais do terreno, formando uma barreira defensiva inexpugnável entre o Tejo e o Atlântico.

A primeira linha tinha uma extensão de 46 kms. ligando Alhandra, concelho de Vila Franca de Xira, à foz do Sizandro em Torres Vedras.

A segunda linha, mais recuada, construída a cerca de 13 kms. a sul da primeira, tinha uma extensão de 39 kms. e ligava o Forte da Casa (atente-se neste nome), em Alverca, concelho de Vila Franca de Xira a Ribamar, concelho de Mafra.

A eficiência deste incrível sistema defensivo baseou-se em cinco pressupostos essenciais:

  • Nas duas linhas de redutos munidos de peças de artilharia, que dominavam, a fogo de flanco, todas as estradas e desfiladeiros de passagem, isto é, todos os passos naturais de entrada em Lisboa, de Norte para Sul, estavam ao alcance do tiro cruzado das baterias.

  • Na construção de estradas militares que ligavam as fortificações entre si, possibilitando uma rápida deslocação das tropas no interior das Linhas, conferindo uma enorme flexibilidade ao sistema.

  • Pela introdução de um sistema de comunicações telegráficas, adaptado do existente na Marinha, que permitia transmitir rapidamente mensagens entre as duas “Linhas” e entre os extremos de cada uma delas.

  • Na construção das fortificações em segredo absoluto, um dos aspectos mais impressionantes do projecto e que permitiu que os franceses fossem apanhados de surpresa, complementado com uma política de “terra queimada” que impediu qualquer ousadia de cerco devido à míngua de mantimentos.

A construção das Linhas empregou cerca de 150.000 pessoas, recrutadas nas zonas rurais em torno das “Linhas”. Os trabalhos, sob o comando do Tenente-Coronel Fletcher (homenageado no monumento de Alhandra) foram dirigidos por oficiais e sargentos britânicos. O custo total da obra rondou as 100.000 libras, constituindo, paradoxalmente, um dos investimentos mais baratos de toda a História Militar, sobretudo se tivermos em consideração a eficácia demonstrada.

Assim, as “Linhas de Torres” estendiam-se por mais de 80 kms. e eram constituídas por 152 fortificações, guarnecidas com 600 peças de artilharia. As fortificações foram iniciadas no Outono de 1809, tendo a sua construção demorado apenas um ano. O tamanho dos redutos era variável: uns só podiam receber 50 homens e 2 peças, enquanto outros podiam conter 500 homens e 6 peças.

Os primeiros redutos foram construídos em forma de estrela, segundo a boa prática militar da época, de forma a cobrir diversos ângulos defensivos. Os abundantes moinhos de vento, de planta circular, instalados em cabeços propícios ao estabelecimento de postos militares, foram igualmente transformados em fortificações, tendo, posteriormente, alguns redutos sido construídos com a mesma planta circular. Todas as fortificações eram complementadas com trincheiras, minas, paliçadas, fossos e barricadas.

Na Primavera de 1810, Massena, o melhor dos generais de Bonaparte, inicia a terceira invasão francesa e entra com as suas tropas pela fronteira da Beira e, no Buçaco, enfrenta o exército anglo-português. Apesar de derrotado consegue flanquear e progredir para Sul.

O exército anglo-português recua então para a Estremadura, refugiando-se atrás das “Linhas de Torres”. Massena chega pouco depois e consegue ainda tomar a vila do Sobral de Monte Agraço. Para além das fortificações, o Inverno particularmente chuvoso transbordara as margens do Sizandro, transformando-o num obstáculo intransponível. Sem conseguir avançar e enfrentando a rebelião dos seus homens, a fome e as intempéries, Massena opta pela retirada, um mês depois, coberto pelo nevoeiro e deixando bonecos de palha no lugar dos soldados, enganando o inimigo e atrasando a sua reacção.

A derrota de Massena nas “Linhas de Torres Vedras” salvou Lisboa de nova invasão e, acima de tudo, marca o início da viragem da carreira vitoriosa de Napoleão Bonaparte na Europa.


O que resta das “Linhas de Torres Vedras”

No terreno existem ainda, actualmente, muitos vestígios com diferentes tamanhos e estados de conservação, do bom ao muito mau, mas com uma particularidade em comum: todos se encontram em sítios ermos e altos pelo que ao interesse cultural se junta exercício físico garantido.

Naturalmente que nem todos os redutos serão visitáveis, embora a maioria o seja. Tal deve-se ao facto de alguns terem sido impossíveis de reconhecer por terem pura e simplesmente desaparecido e outros se encontrarem em propriedade particular. No entanto a maioria conheceu a nossa visita.

Refira-se que, ao contrário daquilo que é a crença generalizada, esta zona a Norte de Lisboa é extremamente montanhosa, se bem que as altimetrias possam indiciar o contrário.

Do ponto de vista estratégico é ideal para uma postura defensiva como era o intuito das Linhas de Torres Vedras. Do ponto de vista do BTT é dificuldade garantida já que, invariavelmente, a distâncias de cerca de 60 kms. corresponderão cerca de 1750 m. de altitude positiva acumulada em média, a exigirem espírito de aventura, boa forma física e, acima de tudo, capacidade de sacrifício.

Dividimos assim em cinco etapas circulares esta nossa incursão, sempre de nascente para poente:

1. (2.ª. linha, 1.ª parte) - de Forte da Casa, em Alverca, concelho de Xira (Vila Franca de), até à Venda do Pinheiro, junto à A8, no concelho de Mafra e o respectivo regresso, abrangendo os concelhos de Xira, Loures e Mafra;

2. (2.ª linha, 2.ª parte) - de Venda do Pinheiro a Ribamar e o respectivo regresso, sempre no concelho de Mafra;

3. (1.ª linha, 1.ª parte) - de Alhandra, concelho de Xira e o Reduto do Céu, no concelho de Arruda dos Vinhos e o respectivo regresso, abrangendo os concelhos de Xira e Arruda;

4. (1.ª linha, 2.ª parte) - de Sobral de Monte Agraço a Torres Vedras, abrangendo os concelhos de Sobral, Torres Vedras e Mafra e o respectivo regresso;

5. (1.ª linha, 3.ª parte) - na zona de Torres Vedras, ligando à Foz do Sizandro, onde os vestígios são em maior número.

Assim, nas próximas edições serão publicadas cada uma destas etapas para que cada um dos leitores, se se sentir em boas condições físicas e estiver motivado para isso possa na sua bicicleta e in loco, sentir a história do maior conflito armado que decorreu em território nacional.



terça-feira, 14 de fevereiro de 2006

LINHA 1 TROÇO III (Torres Vedras) - Afinação de Percurso Final

"Never was so much owed by so many to so few" (Sir Winston Churchill)

No Domingo passado, com o Jorge Cláudio, procedemos à afinação do percurso final do troço III da 1ª Linha de Torres Vedras.

É a parte final entre a simpática cidade que dá o nome às Linhas e o Atlântico na foz do rio Sizandro.

Este é um percurso algo diferente do que estamos habituados nos restantes troços. Se estes eram essencialmente montanhosos este atravessa, em boa parte da sua extensão, terrenos de paul, baixos e alagadiços no vale do Sizandro.

O começo dá-se junto ao tribunal de Torres Vedras para, de seguida se rumar ao Castelo onde estava instalada um dos redutos não sem antes passarmos pelo largo da actual praça 25 de Abril onde se encontra, no meio de um pequeno jardim, um monumento às "Linhas de Torres Vedras".

Trata-se de um obelisco em mármore com uma homenagem ao Exército Luso-Britânico que se bateu nas guerras penínsulares e fez frente de modo invicto ao invasor napoleónico. Na base e, em cada uma dos seus quatro lados ostenta uma inscrição das três batalhas gloriosas em território nacional: Roliça, Vimeiro e Buçaco para além da inscrição "Linhas de Torres".

De destacar também um outro tipo de monumento, este menos perene mas que simboliza aquilo em que Torres Vedras também é conhecida: o Carnaval. Trata-se de uma estátua gigante colorida e alegórica do Entrudo e recheado de sinais políticos. Magnífico.


Foi tempo de rumar aos fortes que ficam a caminho de Mata Cães e que defendiam a margem direita do Sizandro antes de Torres. Depois foi descobrir a passagem deste rio por debaixo do viaduto ferroviário metálico que facilita a transposição urbana reduzindo ao mínimo a exposição rodoviária.

A subida aos Fortes de São Vicente (os único recuperados) é penosa na sua primeira parte mas merece bem a pena já que aqui se respira História.


É tempo de se descer para o Paúl via forte 123 e de se traspor a En 9 e o Sizandro para a sua margem esquerda de onde não mais sairemos (excepto espisodicamente mais adiante).

Toda esta zona até ao mar é plana e alagadiça pelo que esta incursão é fortemente desaconselhada em períodos de pluviosidade. De resto, para quem estava habituado às montanhas esta planura é algo monótona e a paisagem também não ajuda muito.

Há uma zona, quase a chegar à praia, onde se tem de cruzar a vala hidráulica (não há alternativa) pelo que também aqui convirá que ela esteja com pouca água.

O troço de regresso segue mais ou menos paralelo, porém mais a sul e à planura sucede-se um agradável sobe e desce que alteram por completo o prazer da incursão até porque a passagem pelas vinhas proporciona alguns momentos paisagísticos de rara beleza.

O final entre a Ventosa, Varatojo e Torres Vedras é memorável com a transposição, a vau, de uma ribeira e a subida demolidora ao Castro do Zambujal e a descida vertiginosa até Torres Vedras.

No final, uma distância semelhante às restantes (superior a 60 kms.) mas uma altimetria pela metade a converterem este no troço menos duro das Linhas de Torres.

Pedro Roque

quarta-feira, 6 de julho de 2005

Reconhecimento da Primeira Linha Avança


Indicação do Monumento a Hércules em Alverca

No sábado passado, em conjunto com o Jorge Cláudio (inseparável companheiro destas andanças) efectuei o reconhecimento do primeiro dos 3 troços da 1.ª linha das lendárias "Linhas de Torres".

Tratou-se do troço que vai de Alhandra até Arruda dos Vinhos e regresso.

A quilometragem final foi relativamente modesta, se comparada com os dois troços da segunda linha efectuados anteriormente mas altitude acumulada foi, todavia, de respeito, ou seja: 1900 metros positivos para um percurso de cerca de 60 quilómetros!

O reconhecimento final será efectuado no próximo domingo mas deverá quedar-se pelos cinquenta quilómetros. Mas, afinal a que se deve este diferencial de dez quilómetros?

Deve-se, essencialmente, à implementação recente da A10 (CRIL - Arruda dos Vinhos, por enquanto) no terreno, o
que implicou que as travessias se efectuem a poente da povoação do Calhandriz por um único ponto.

Ora, em sucessivas "tentativas e erros", gastámos nada mais nada menos que 10 kms. !

O início deu-se no Sobralinho, junto a Alhandra (a taurina no dizer de Garrett), para se começar, desde logo, a ascender e muito até ao famoso monumento às "Linhas de Torres" que fica sobranceiro à A1 muitos de vós já o devem de ter avistado, no sentido N-S do logo após V.F. Xira à direita.

Trata-se de uma estátua de Hércules com a pele do Leão de Nemeia na mão. Recorda o primeiro dos doze trabalhos de Hércules e simboliza o trabalho verdadeiramente "hercúleo" que foi o erguer das linhas mas que teve, como compensação, a vitória total sobre o inimigo francês em 1810.

Em baixo
uma inscrição à memória de Fletcher o T. Cor de engenharia do exército britânico que comandou esta incrível empreitada militar que é, ainda considerada como a maior obra de engenharia militar defensiva inglesa.

A vista é prodigiosa com o Tejo, a Lezíria, e a zona da A1

avistando-se Xira, Alhandra e Alverca. Veja-se, a propósito
http://members.fortunecity.com/jabrodgues/hercules.html .

Daí seguimos sempre a subir, pela estrada militar, até um conjunto de fortes e baterias, alguns em muito bom estado que, pelo cume da Serra de Alhandra constituíam a defesa de Lisboa.

Aqui, diferentemente da segunda linha, "sente-se" bem a História. É que para além do razoável estado de conservação dos vestígios, algumas destas posições chegaram a mesmo a disparar contra o inimigo e esta era, sem dúvida a frente de combate.

Recordemos, a este propósito o que está escrito em
http://alhandra.no.sapo.pt/foralhistoriapatrim.htm

" No alto da elevação que domina a Vila de Alhandra, no extremo sudeste da Serra de Alhandra ou dos Anjos ou ainda de S. Lourenço, encontra-se o Monumento Comemorativo das Linhas de Torres Vedras, erigido em 1883, no local do "Reduto da Bela Vista" (Nº 3), no Distrito de Alhandra ou 1º Distrito da 1º Linha. Esta primeira linha de fortificações começava no Rio Tejo, com a chamada "Bateria do Tejo", que não era mais nem menos, que uma Bateria Flutuante de 14 barcas - canhoneiras inglesas, que subiam e desciam o Tejo, vigiando-o, com o apoio directo às "Baterias da Estrada (Nº 1) e do Conde (Nº 2)". Estas fortificações militares que começavam na Vila de Alhandra, faziam parte das chamadas "Linhas de Torres Vedras", construídas com grande sigilo entre 1809 e 1812 pelas tropas Luso - Britânicas e pelo povo, contra os exércitos de Napoleão. Além da visita ao Monumento, o local apresenta uma boa situação sobranceira ao Tejo, que permite uma
boa apreciação deste e do seu estuário, assim, como, também uma boa apreciação sobre a Vila de Alhandra e do Vale de S. António, constituindo por isso, um "autêntico miradouro". Bem perto, próximo do local fica o Reduto nº 114 - 1º de Subserra, que os alhandrenses conhecem como "Forte Velho", que se encontra em razoável estado de conservação, graças a uma recente intervenção de limpeza, assim como toda a zona envolvente, incluindo a antiga Estrada Militar, e que também merece uma visita."

Ultrapassada a zona que fica acima da Subserra entrámos nos limites da pedreira da Cimpor em Alhandra para chegarmos ao famoso "forte dos
sinais" (318 metros de altitude precisamente o ponto mais alto desta
primeira parte da incursão) em que, através dos códigos da marinha
(bandeiras coloridas) as ordens podiam ser transmitidas, quase em
tempo real, através de um conjunto de postos nos pontos mais altos
(Serves, Montachique na segunda linha ou Alqueidão e Socorro na
primeira) até ao outro extremo das linhas. Engenhoso e eficaz!

Após avistarmos as baterias que defendiam a passagem do magnífico vale
de Calhandriz foi tempo de descer até A-dos-Melros (85 m.), cruzar o
vale e subir fortemente até à povoação que dá o nome ao vale. Aí havia
que encontrar a passagem ascende que cruzasse a A10 e nos levasse até
aos 4 fortes do Calhandriz. Tarefa essa que, como já acima referi, não
foi nada fácil não só pelas inúmeras e erradas variáveis possíveis
quer, sobretudo, pela dificuldade que constituiu a ascensão final que,
pese embora o facto de estar asfaltada foi muito difícil de vencer até
dominarmos os 343 metros de altitude).

Dos fortes do Calhandriz avançámos por A-de Mourão até subirmos aos
356 metros correspondentes ao delta onde se situa o Forte do "Chão da
Vinha"e o seu gémeo nos moinhos da serra um pouco mais a nascente.
Excelente as vistas a partir deste miradouro sobre o vale do Rio da
Silveira.

Foi tempo de se avançar ao "Forte Cego" que fica mesmo por cima de
Arruda dos Vinhos. O pior foi mesmo lá chegar: tivemos que cruzar uma
pedreira em plena laboração. Passámos mesmo junto aos explosivos
colocados (embora ainda não rastilhados). Já está prevista uma
alternativa pois o BTT, só por si, já é uma actividade perigosa q.b. ;-)

Depois fomos, sempre pelo topo, até ao ponto mais alto da incursão que
é o Forte da Carvalha e daí até ao último dos fortes visitados neste
primeiro troço: o Forte do Céu que defendia a confluência da Ribeira
da Louriceira com o vale do Rio da Pipa perto de Arruda dos Vinhos.

Daqui já se avista o forte grande do Alqueidão, ao longe onde
prosseguirá o reconhecimento do segundo troço da primeira linha e que
nos irá levar quase até Torres Vedras (com passagem garantida pelo
cimo da Serra do Socorro, pois então).

A partir daqui foi descer fortemente até Arruda, transpor a A10 e
efectuar um regresso muito rápido cruzando uma zona paisagisticamente
muito interessante que cruza o vale da ribeira de Santo António até à
histórica povoação da Subserra no sopé da Serra de Alhandra.

Tempo de subir até ao chamado "forte grande da Subserra" onde já
havíamos passado de inicio e iniciar a descida até ao local de partida.

O melhor pedaço estava guardado para a pós-incursão. De facto
deslocámo-nos de carro até Alhandra onde estivemos a ver o azulejo
monumental evocativo do "primeiro distrito" das linhas que era,
precisamente, o de Alhandra.

Pedro Roque

quinta-feira, 12 de janeiro de 2006

AS “LINHAS DE TORRES” EM BTT I - De Alverca a Montachique (2.ª linha, 1.º troço)

Em Santa Eulália restabelecendo as energias...


AS “LINHAS DE TORRES” EM BTT

I - De Alverca a Montachique (2.ª linha, 1.º troço)


TEXTO PUBLICADO NA REVISTA ONBIKE DE JANEIRO / FEVEREIRO 2006

Esta é, provavelmente, a mais extenuante das cinco todas as incursões das “Linhas”. São 70 kms. e um acumulado ascendente de 2,4 kms. a exigirem uma forma física e mental a toda a prova.

O início dá-se num local simbólico: o Forte da Casa, junto a Alverca. O nome da terra tem origem num dos primeiros redutos da 2.ª linha junto ao Tejo.

A nossa sugestão é que a viatura seja estacionada no miolo da povoação junto a uma ruína bem conservada. Trata-se da “Obra n.º 38” [1], que dá o nome à terra. É um bom começo já que, com a sua muralha em cantaria, este é um dos redutos mais vistosos desta primeira incursão.

Esta área está pejada de redutos o que não é de admirar já que é a zona natural de passagem de N. para S. em direcção a Lisboa, encaixada entre o Tejo e a montanha, como o provam a circunstância de, actualmente, ali passarem três vias de penetração: a EN10, a A1 e a ferrovia. Era pois estratégica a defesa desta passagem.

As primeiras pedaladas são assim para visitar os redutos da zona:

  • a obra 34, junto à EN10;
  • a obra 35, recentemente vedada para protecção;
  • a obra 36 visível ao longe mas inacessível, nos terrenos da Central de Cervejas;
  • a obra 126, ou “Forte da Rua Nova” também recém vedada, já a caminho de poente;
  • e a obra 39, ou “Forte da Arroteia”, com uma magnífica vista sobre o vale de Alfarrobeira e a A1.

A descida até ao vale faz-se por um vertiginoso single-track onde é de toda a conveniência que a nossa atenção não se disperse com a paisagem.

A partir daqui e, não existindo alternativa todo o terreno, pedalamos por estrada para NE para ultrapassarmos a zona dos nós rodoviários. Alcançamos então o primeiro grande desafio: a incrível subida da ribeira de A-dos-Potes pelo caminho paralelo à CREL. A inclinação das sucessivas rampas é incrível a exigir empenhamento total e com o recurso à cremalheira de 22 dentes a tornar-se inevitável, pese embora o piso estar pavimentado.

Cem metros em altitude são vencidos em cerca de 1 km. à custa da capacidade de sofrimento. Chegamos à zona do entroncamento com a A10. Transposta a mesma, entramos em zona plana até ao “Forte da Vinha” (obra 125). Este vestígio está muito maltratado e, à semelhança de muitos outros, coberto de vegetação. Descemos então para o vale, já em terra batida, pelo meio de uma vinha. Tempo de subir de novo para atravessarmos uma zona rural de grande beleza, primeiro para N. e depois para poente.

A próxima dificuldade é a travessia do vale da Ribeira do Boição com uma curta mas penosa subida até ao “Monte do Forte” (mais um nome sugestivo) na Serra de Alrota. Num pequeno planalto, na cota dos 311 m., encontramos um par de redutos (obras 18 e 19) dominando, com uma vista incrível, todo o vale.


Agora é descer rapidamente para o vale do Rio Pequeno onde seguimos por um asfalto praticamente deserto, cruzamos o rio, subimos e saímos da estrada para um caminho rural. De novo passamos por uma zona muito interessante pelo meio de quintas, culturas e pequenos bosques, sempre para poente. Apesar de não existirem dificuldades de maior há que vencer uma subida violenta com 200 metros logo após a Ribeira da Tesoureira.

Descemos para Sobreira, subimos, viramos para sul e começamos a aproximarmo-nos da zona de São Gião e de um conjunto significativo de redutos. Os primeiros são os Fortes da Azinheira e Capitão (obras 53 e 52) que ficam no topo de uma urbanização de moradias. Não estão em grande estado: a vegetação impera e um deles tem implantada uma estação celular.

É tempo de descer até à EN374, que é percorrida durante uma centena de metros para N., viramos à esquerda, e por uma rampa brutal, subimos até ao Forte dos Outeirinhos (obra 58). Por um caminho rural chegamos à Charneca, junto à A8, o ponto mais a poente desta nossa incursão.


Aí chegados rumamos agora para S. para ascendermos, continuamente, até ao Outeiro do Além e ao seu Forte (obra 59). Descemos e começamos, de novo, a subir fortemente (de tal modo que se torna impossível seguir montado) até aos dois fortes da Achada (obras 60 e 61) esta última, apesar de ser em terra, mantém o seu fosso intacto dando-nos uma ideia aproximada de como era constituído um reduto típico das Linhas de Torres.

Tempo de descer até Montachique passando ao largo da obra 54 (inacessível em propriedade privada) e daí até ao Vale de São Gião onde subimos pela estrada pelo lado nascente do Parque de Montachique, descartando de novo um reduto (obra 56) [2], saindo por um caminho florestal até ao Forte do Permouro (obra 55) e descendo, depois por meio de um single-track, de novo até à estrada.

Tempo de abordarmos aquele que é, literalmente, o ponto alto da incursão: o topo de Montachique aos 409 metros. Não se trata de nenhum reduto mas antes de um dos míticos postos de sinais. A ascensão é muito complexa por uma rampa íngreme de asfalto e onde o empenhamento terá de ser forte sob pena de sermos vencidos pelo desnível. No entanto a vista do alto é magnífica e justifica o esforço.

Sem muito tempo para contemplações descemos e seguimos, agora, para nascente chegando ao reduto correspondente à obra 57, onde se pode avistar o seu fosso e as paredes em terra batida. Continuamos então sempre pelo topo das Ribas com o vale lá bem em baixo e pela também sugestiva “Estrada do Forte” que é a calçada militar construída na época.

Esta é uma zona de topo exposta aos elementos numa paisagem despojada de arvores, onde o vento predomina. Chegamos assim ao Forte das Ribas (obra 51) em cantaria, em bom estado e onde se sente a História. O mesmo é válido para o Forte do Picoto (obra 50) ali perto após se transpor a zona da Ribeira do Cocho, junto a Fanhões. Esta zona é estupenda com o seu parque eólico e porque, após se subir até à Estação Eléctrica do Mosqueiro, a descida até à CREL é estonteante com a sua parte final ao bom estilo “estômago no selim” actuando como um teste à têmpera de travões e nervos.

Tomamos a EN115 para sul, cruzamos o Trancão e seguimos a estrada que sobe para o Zambujal, transpomo-lo e continuamos a subir rolando a meia encosta por cima do MARL até Santa Eulália. A partir daí, sobe-se sempre até ao Alto de Serves (outro posto de sinais a 351 metros), já com muitos kms. e muita ascensão nas pernas. Continuamos, pelo topo, até ao Alto da Aguieira onde se situam os três redutos mais interessantes desta incursão (obras 40, 41 e 42) dominando, altaneiros e em cantaria, a zona de Alverca. O alívio aqui apodera-se de nós: já está à vista o final!

Agora é sempre a descer não sem antes visitarmos o Forte da Boca da Lapa (obra 127) que fica sobre Vialonga num moinho adaptado. Alcançada a Ribeira de Alfarrobeira subimos até ao Forte da Casa e ao final desta nossa incursão.


[1] O modo mais correcto de enunciar os diferentes redutos independentemente do seu nome, que é subjectivo é, precisamente, pelo seu número de obra. Iremos manter esse critério.

[2] Este reduto encontra-se dentro do Parque Municipal de Montachique onde está impedida a circulação de velocípedes, mais uma pérola administrativa autárquica.

terça-feira, 21 de dezembro de 2004

LINHAS DE TORRES - TRAÇADO CONCLUÍDO DA VENDA DO PINHEIRO AO FORTE DA CASA

No domingo prosseguiu o reconhecimento.No fim de samana anterior eu eo o JC já haviamos efectuado da Vendado Pinheiro a Bucelas. No entanto falhámos alguns fortes.Assim sendo procurámos repetir o percurso, alcançando todos osfortes existentes pelo caminho sem que nada fique por reconhecer.Para além disso procurámos ligar, no sentido poente, até ao final dasegunda linha (na realidade o início uma vez que os fortes eramnumerados de nascente para poente) ou seja o Forte que deu o nome àpovoação de "Forte da Casa" em Alverca.Concluímos esse reconhecimento com sucesso e podemos afirmar que hájá um traçado seguro entre Venda do Pinheiro (Malveira, Mafra) eForte da Casa (Alverca, Xira).Mas não foi nada fácil este reconhecimento.A zona é muito complicada do ponto de vista orográfico. Assim acerca de 65 quilómetros correspondeu uma altitude acumulada positivade cerca de 1900 m. e quase 3500 Kcal. despendidas.Tal situação é agravada pela circunstância de os 25 quilómetrosiniciais terem sido percorridos integralmente em asfalto pela EN116, ou seja, desde o Forte da Casa até à A8 já próximo da Venda doPinheiro.Tal significa que aos 40 quilómetros de TT correspondem a 1200metros de altitude acumulada positiva.Imaginem como será percorrer integralmente as duas linhas...Estacionámos a viatura junto ao Forte (da Casa) que fica no centroda povoação e está em belo estado de conservação. Começamos porabordar, desde logo os fortes das imediações (Casa 2 e 3, Rua Nova eArroteia) para, no final, facilitar o reconhecimento e consequenteestabelecimento de um traçado definitivo.Seguimos por estrada, descendo para a zona da fábrica da Centralcer(Cerveja Sagres, já devem de ter ouvido falar ;-), Alverca, e começauma subida demolidora até à portela de acesso ao vale de Bucelas, aíchegados descemos até à povoação e subimos sempre até à A8 e, juntoao Forte do Além, buscamos um traçado alternativo ào reconhecido nasemana transacta uma vez que este era de difícil transposiçãociclável.Depois foi repetir os fortes de Azinheira e do Capitão, reconhecemoso do Outeirnho que fica na colina oposta e que havia falhado nasemana passada. Este caracteriza-se por uma ascensão curta masbrutal e como a maioria é composto de um fosso e está coberto devegetação.Descemos e continuamos para encontrármos uma ligação entre os doisda Achada e o de Permouro e Tomada Velha (que haviam falhado nasemana anterior) todos na zona de São Gião / Montachique.De referir que, finalmente, conseguimos uma certa linearidade depercurso no meio da confusão de caminhos que é Montachique, com aagravante de muitos não corresponderem aos traçados na carta militar.O forte de Permouro fica, como não podia deixar de ser, num alto dedificil acesso e está ainda em bom estado de conservação bem no meiode um eucaliptal que domina a estrada de acesso ao Vale de São Gião.Quanto ao da Tomada Velha há uma dificuldade prática: fica no meiodo Parque de Montachique onde é interdita a circulação a bicicletaspelo que fica aqui apenas a sua referência.Seguimos então pelos três últimos fortes da semana passada (S. Gião,Ribas e Picotinho) numa zona espectacular onde se percorre o topo damontanha com o vale do Freixial lá embaixo.A diferença foi que não descemos para Bucelas antes seguimos pelotopo do Picotinho até à Estação Eléctrica de Fanhões (e que estaçãoeléctrica!) e aí descemos por uns trilhos fantásticos no meio de umafloresta de carvalhos até à EN 115 terminando mesmo por sob oviaduto da A9 CREL junto ao restaurante com o nome fantástico de "OsPneus".Esta divertida e interminável descida foi paga muito cara já que foitempo de ascender, via Zambujal, até ao alto de Serves naquela quese haveria de tornar a mais dura ascensão do dia, sobretudo porque,antes de Santa Eulália, se perderam, de novo, quase 100 metros dealtitude que depois se tiveram de retomar a custo.Atingido o topo, seguimos pela estrada miltar (mais uma calçada dotempo da construção das linhas) sempre junto à cota máxima numasucessão algo demolidora de sobe e desce até aqueles que sãoconsiderados dos mais interessantes fortes das linhas: o conjuntotriplo da Aguieira (fortes 40, 41 e 42) que têm uma vista fantásticasobre o Vale do Tejo na zona de Alverca.Tempo, finalmente, de descer até Vialonga embora, pelo caminhotenhamos visitado o forte de Boca da Lapa que fica junto a uma pistade motocross bem visível da A1 e que domina, juntamente com o járeferido da Arroteia o Vale de Alfarrobeira onde passa actualmente aA1 mesmo antes das portagens de Alverca (a sul das mesmas).Após Vialonga transpõe-se a A1 e sobe-se até aos referidos fortes doForte da Casa sendo que, todos, à excepcão do Forte da Casa 3 sãovisitáveis (este está em terrenos vedados da Centralcer).Começa assim a tomar forma o reconhecimento.Em breve alcançaremos o mar em Ribamar e teremos a primeira linhadefenida de poente para nascente.Começa também a definir-se a enorme dificuldade que será percorreras linhas de Torres: seja em termos quilométricos, seja sobretudo emtermos altimétricos.APRO

terça-feira, 24 de janeiro de 2006

LINHAS DE TORRES (Linha 2 Troço 2 - Mafra) Reconhecimento Integral

Os Vestígios são Inúmeros e Estão em Toda a Parte

Este sábado (21JAN06), com um tempo magnífico, voltámos às grande incursões e ao reconhecimento das Linhas de Torres na zona de Mafra após, no sábado anterior, por lá termos andado a verificar o traçado previamente escolhido. Participaram na incursão de 14JAN06: Pedro Roque; Mário Silva, Luís Gomes, Jorge Cláudio Neves e nesta (21JAN06) os dois primeiros juntamente com o Vítor Amador Louçã.


Desta vez foram quase 90 quilómetros, 2200 metros de altitude acumulada positiva, 4400 KCal e um recenseamento canino para cima de 230 exemplares! :-) Reconhecemos assim um track definitivo a apresentar na próxima edição da Onbike (2.ª linha, 2.º troço). As obras de construção do lanço de Auto-Estrada entre Mafra e Ericeira obrigaram a uma alteração substantiva no trajecto previamente existente. Após o termos constatado na semana transacta (à custa de muita "pasta de lama") e procedeu-se a uma reconfiguração do traçado. Costuma afirmar-se que Deus escreve direito por linhas tortas. Assim o foi relativamente a este segundo troço das linhas.


De facto a
alteração veio introduzir mais dureza, atitude e quilometragem evitando a zona urbana de Mafra mas, em contrapartida acrescentou alguns dos melhores momentos da incursão: o vale da Ribeira do Boco; a Riba Fria e a descida para o Rio Pequeno; o Santuário da Senhora do Socorro (ou do Arquitecto); a subida (violenta diga-se) até Casas Novas; a descida à Ribeira do Coxo e a subida até ao Zambujal a proporcionarem momentos inesquecíveis. Já na semana anterior havia sido introduzida uma alteração qualitativa na passagem do Vale da Guarda para o Jeromelo subtraindo muito do asfalto à custa de uma subida penosa até ao delta do mesmo nome mas de uma beleza paisagística rara.


Apesar de estarmos perante um "traçado final" há ainda uma alteração que pretendo introduzir por forma a suprimir ainda mais asfalto na zona da Rocheira (EN9), descendo até ao Sobral da Abilheira e subindo depois até à estrada referida. Tal alteração será efectuada à custa de mais quilómetros e altitude transformando este segundo troço, provavelmente, no mais duro de todos. A constatar, no meu caso pessoal, uma subida razoável de forma que me permitiu efectuar a dura incursão sem dificuldades de maior. É o regresso das grandes incursões!


Mas vamos ao filme da mesma: . Saída da Venda do Pinheiro . Visita ao forte n.º 70 (Quinta do Estrangeiro) em plena povoação; . Direcção Malveira; . Forte 66 – (da Feira); . Subida violenta para o forte 65 (Sta. Maria – 369 metros, ponto mais alto da incursão) . Desvio para visita ao forte 63 (Casal da Serra) magnifica vista sobre o Vale da Guarda e a EN8 com passagem pelo local onde se situava a obra 64 no vertice SE do muro da Tapada de Mafra; . Sobe e desce junto ao muro sul da Tapada e visão do forte 2 (tapado por um eucaliptal) e da zona onde se situava o 74 (actualmente um estaleiro); . Cruzamento da EN116 na zona da Alcainça Grande, Arrifana, Igreja Nova, Ventureira, Boco, Zambujal, visita ao forte 95, descida à Senhora do Ó, subida à Lapa da Serra, Pinhal dos Frades e cruzamento da EN118 (Mafra-Ericeira); . Travessia da Ribeira do Cuco, Paço d'Ilhas, ascensão a Marvão, descida a Ribamar (forte de São Lourenço – obra n.º 3) subida de novo a Marvão com passagem pelos fortes 93 e 92 – este denominado do Picoto); . Circulamos pelo cabeço sobre o vale do Rio Safarujo (obras 91 – Forte da Portela, 90 – actualmente uma vacaria e 89 (Muxarro); . EN 9 – desvio para o forte do Areeiro (obra 88), Forte da Patarata (82), do Meio (83) e do Curral do Linho (84) . Na Murgeira descemos junto ao muro poente da Tapada até ao Codeçal e subimos penosamente até Chança e ao delta do mesmo nome em plena Serra do Chipre, a descida para o Gradil faz-se pelo topo norte do enorme muro da Quinta da Boa Viagem passando junto aos vestígios das obras 80 (Rafaeis), 79 e 78 (Picoto) . Descida violenta da Portela do Gradil, Gradil e começa o carrossel do Gradil, intenso rompe pernas até ao Vale da Guarda com passagem pelo forte 62 (Cherra) . Subida ao Jeromelo e descida para a Venda do Pinheiro via forte 67 (actualmente um estaleiro), 68 (cabeço do Matoutinho – dentro de uma propriedade privada), e 69, um antigo moinho que se encontra dentro de um condomínio privado. . Final

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

As Linhas de Torres revisitadas - Segunda Linha, Troço Forte da Casa - Montachique


Hoje assinala-se o duplo centenário da retirada francesa, junto às Linhas Defensivas de Torres Vedras, na terceira invasão comandada por André Masséna.

Já em ocasiões anteriores vos reportei, aqui, o reconhecimento efectuado das linhas de Torres para BTT. Foi ocasião, no sábado passado, de tornar a revisitar esses locais mágicos.

Assim, em conjunto com o Jorge Cláudio, percorri de novo o troço entre o Forte da Casa (Alverca) e o Cabeço de Montachique. Optámos por um traçado diferente e, em lugar da demolidora subida junto à CREL, subimos pela "antiga descida final" até aos bem conservados fortes da Serra da Aguieira (obras 40, 41 e 42) o que permitiu, no final, descer directamente da Mata do Paraíso até Vialonga.

Este troço é, provavelmente, o mais duro de todos pois nunca se consegue pedalar sem subir ou descer. Os números finais são eloquentes: 2300 metros de acumulado para 60 kms. de distância conseguidos à custa de um empenho demolidor.

Para um relato mais pormenorizado leia-se a descrição de 2006.

A grande surpresa foi a recuperação da emblemática obra n.º 38, Forte da Casa (nem pleno centro da  freguesia do mesmo nome) e o seu recém-inaugurado "Centro Interpretativo". Afinal ainda se respeita a História em Portugal - só me posso congratular com esse facto. Veja-se este video referente à cerimónia.

Nos próximos fins-de-semana seguir-se-ão os restantes 4 troços que compõem o conjunto das duas linhas.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2004

Fortes Linhas de Torres a Segunda Linha: Da Venda do Pinheiro a Bucelas

Ontem foi dia de novo reconhecimento das "Linhas de Torres".Optámos por começar pela segunda linha e partimos de Bucelas. Para tantoelaborei um track virtual a partir de Bucelas.O intuito era avançar para poente, até à Venda do Pinheiro e, a partir daí,reconhecer os diversos fortes que estavam pelo caminho até Bucelas. Tenho opropósito de a percorrer de poente para nascente (a segunda linha, entenda-se).Começámos por avançar um pouco para Norte para depois inflectir para oeste emzonas de enorme beleza, primeiro ao longo do curso do Trancão (límpido naquelazona), para depois vencer o declive e transpor vale após vale até à Póvoa daGalega, passando a A8 e alcançando a Venda do Pinheiro que seria o ponto maispoente da incursão.Aí visitámos o forte da quinta do Estrangeiro que fica num cabeço contíguo a umaantena celular e de relativo fácil acesso. Como a maioria está coberto pelavegetação.Transpomos de novo a A8, após mais uns sobe e desce típicos da região ealcançamos o forte do Outeiro do Além, sobranceiro à EN 116 logo após o viaduto.Coberto de vegetação tornou-se difícil distingui-lo mas lá se vislumbrou o fossoe a parede em terra.Seguimos então até à zona da Charneca por uma calçada entre muros de uma belezaincrível mas cuja irregularidade implicava que circulássemos desmontados.Alcançamos então a EN374 e daí virámos para sul em direcção aos fortes doCapitão (também com uma antena celular ao lado) e Azinheira um e outro também emterra e cobertos de vegetação.Os próximos foram os dois da Achada num alto sobranceiro às portagens do acessode Lousa e Montachique da A8 (lado nascente) numa posição estratégica excelente.Um e outro cobertos de vegetação mas um deles com um fosso enorme e onde sevislumbravam bem os parapeitos.O forte de São Gião, junto ao cabeço de Montachique, está em propriedadeparticular pelo que apenas o pudemos ver da estrada.Ali chegados achámos por bem ir "lá acima" ao delta de Montachique numa ascensãopenosa aos mais de 400 metros do marco geodésico. Foi mais um delta para a jáenorme colecção.Descemos e encaminhámo-nos para o forte de Montachique. Aí deparámos com umepisódio interessante: um passeio de TT onde um dos participantes transpunha ofosso do forte com a sua viatura, para trás e para diante, exibindo-se peranteos demais. Notável!Seguimos então em altitude pelo topo da escarpa pela chamada "estrada militar"(calçada que ligava os fortes e que data da altura da sua construção - 1809/10)e alcançamos o forte das Ribas, este já em cantaria, dominando o vale de Ribas .Alcançamos Fanhões e depois disso o Picotinho sobranceiro ao Freixial e aBucelas onde visitamos o seu forte muito semelhante ao anterior.Daí descemos até ao Freixial e percorremos os três quilómetros até Bucelas.De referir que os topos das escarpas referidas juntamente com a do Monte Serves(sobranceiro a Bucelas e percorrido no domingo passado) foram trabalhadas nosentido de as verticalizar como forma defensiva de dificultar a ascensão detropas inimigas.Trata-se, no fundo, de tornar a forma "\" na forma "L". As linhas são, no fundo,um conjunto de obras defensivas de fortificação, em que se aproveitou asexcelentes condições naturais da península de Lisboa, a norte da cidade paradificultar a progressão das tropas francesas. Por isso as fortificações são dediverso tipo, nem todas são fortes, no sentido clássico do termo. No caso dosfortes, muitos são em terra, outros em pedra, por exemplo.O reconhecimento foi, também, um passeio de grande qualidade, por zonas ruraisde grande beleza mas muito difícil do ponto de vista físico em virtude do relevoimpiedoso.Para terem uma ideia foram 60 quilómetros, 1300 metros de altitude positivaacumulada e quase 3500 KCal consumidas que atestam bem das dificuldades.O reconhecimento irá prosseguir em breve.

sábado, 6 de novembro de 2010

Inauguração da Grande Rota das Linhas de Torres Vedras


Apesar de ser para pedestrianismo não posso deixar de postar aqui esta referência já que, ainda sem qualquer rota delineada fui reconhecendo, nos idos 2005 e 2006 caminhos que, duramente, percorriam os fortes da primeira e segunda linha.

É pois com satisfação que eu constato o trabalho que, um conjunto de entidades, estabeleceram em torno da comemoração do duplo centenário e que, no que diz respeito ao modo de percorrer o terrenos, culminam nesta inauguração da GR30, Grande Rota das Linhas de Torres Vedras no próximo fim-de-semana.



quinta-feira, 2 de dezembro de 2004

Linhas de Torres Vedras - A Marcha Continua!

Já fiz uma recolha e descobri cerca de 70 fortes entre a 1.ª(Alhandra - Foz Sizandro) e 2.ª (Forte da Casa - Ribamar) linhas dedefesa.Atendendo à circunstância de que eram cerca de 170 fortificações(embora incluindo as da zona de S.Julião da Barra - 3.º linha, Fortede Almada - 4.ª linha e navios artilheiros de apoio) muitas ficarãopor identificar.No entanto se elas não estão assinaladas na carta militar é porquejá não estão visíveis no terreno, ou seja, não têm expressão realpara serem visitadas.Ainda assim será impossivel visitar as 70 pelo que se terá deseleccionar as mais significativas.Fiz uma recolha bibliográfica e pictórica na Internet interessantee, sobretudo, de extrema utilidade.Igualmente encomendei um livro na Amazon que deverá chegar em breve("The Lines of Torres Vedras 1809-10" Ian Fletcher).Não deixa de ser curioso (ou talvez não) que o material disponiveltem todo origem em Inglaterra! Há por ali uma dinâmica literáriaincrível em torno das guerras napoleónicas.A minha primeira abordagem no terreno será no próximo domingo (erapara ser ontem, 4.ª feira, mas foi adiada por causa do mau tempo).Constará de uma ligação entre Sacavém - Sobral Mte. Agraço - Sacavém(track by António Santos, bike 105) com passagem junto aochamado "Forte Grande" ou de "Alqueidão" e de mais outros dois que ocircundam (Simplício e Trinta).Depois disso conto contactar quer o Carlos Lourenço (Torres Vedras)quer o Mário Conde no sentido de combinarmos um circuito pela zonade Torres Vedras / Sobral / Arruda tentando ligar alguns dos fortespor forma a começar a delinear um traçado.A intenção será efectuar um passeio circular (lá para o Verão e comos dias longos) que ligue a primeira linha (eventualmente até aoVimeiro) e depois da foz do Sizandro até Ribamar e percorrer asegunda linha até ao Forte da Casa e fechar o circuito em Alverca.Mas, para isso, serão necessários vários reconhecimentos.Ou seja, haverá pretexto de sobra para pedalar pelo Oeste nospróximos tempos!APRO

segunda-feira, 23 de maio de 2005

Reconhecimento das Linhas - avançando por Mafra!

Ontem eu e o Jorge Cláudio abordámos o reconhecimento mais um troço
das "Linhas de Torres". Desta vez a segunda parte da
chamada "segunda linha" ou seja, a que vai da A8 para nascente até
ao oceano no concelho de Mafra.

A tarefa afigurava-se como muito difícil e o track virtual já o
demonstrava se qualquer margem para dúvidas: 100 kms. de extensão e
3300 metros de acumulado.

Assim foi preparado um plano de contingência para evitar chegar de
noite uma vez que era a nossa "premiere" em muitos daqueles terrenos
e os reconhecimentos têm de ser efectuados a ritmos e com
preocupações diferentes do normal pelo que a média se ressente.

Este não foi excepção uma vez que há caminhos que, ou já não
existem, ou estão impraticáveis e devem buscar-se alternativas "ad-
hoc" no momento.

Ainda assim foi cumprido quase na integra e deu para ter uma boa
aproximação do que deverá de ser um traçado definitivo a ser
alcançado numa segunda sessão a ter lugar em breve e que permitirá
ter a "Segunda Linha" reconhecida a 100%.

O começo foi, curiosamente, já no paralelo de alguns fortes de
primeira linha, ou seja, em Enxara do Bispo, no norte do concelho de
Mafra e muito perto do acesso da A8. Esta escolha será, no entanto,
alterada talvez por Vila Franca do Rosário, o que permitirá reduzir
a ligação inicial e final nalguns quilómetros.

Até porque a realidade correspondeu, desde logo, à expectativa, ou
seja, o início foi logo marcado por uma subida demolidora a dar o
mote do que seria o dia em termos ascensionais.

Subimos pois, penosamente, até Vila Franca do Rosário, descemos o
vale de Pedrulhos para nova subida demolidora até ao parque eólico
do Alto da Serra da Escusa. A partir daí descemos de novo e rolamos
até à zona da Malveira para abordarmos o primeiro dos fortes: o
Matoutinho, num cabeço imponente que medeia entre a Malveira e a
Venda do Pinheiro e que domina a zona da actual A8.

Este forte não está acessível já que o caminho começa em propriedade
privada. No entanto é importante passar junto a ele pois é um
daqueles que se impõem na paisagem.

A partir daí descemos até à Venda do Pinheiro para abordarmos o
Forte da Quinta do Estrangeiro que fica junto a uma antena celular e
sobranceiro à povoação, por cima mesmo do centro paroquial. Está,
como muitos, coberto de vegetação.

Rapidamente prosseguimos para a Malveira onde alcançámos o Forte da
Feira, muito bem recuperado pela Câmara Municipal, com um placard
interpretativo que incluia a localização dos fortes no concelho e
uma breve descrição da tipologia deste e da História da terceira
invasão. Um exemplo, infelizmente isolado. Este forte dominava a
passagem do vale ocupado actualmente com o caminho de ferro e a
EN116.

Foi tempo de subir penosamente até ao de Santa Maria, talvez o forte
mais alto dos que visitámos ontem. Tem instalado em cima um
retransmissor da PT, inteirinho, mas dá para observar o fosso, em
bom estado de conservação. Este forte domina o Vale da Junqueira e a
zona de passagem da novíssima e recém inaugurada A21 (que torna o
acesso viário a Mafra muito mais fácil).

Daí fizemos um circuito para reconhecer os fortes de Casal Pedra
(que foi impossível de descobrir, já que a sua localização foi
efectuada por estimativa) e o de Abrunheira já muito perto do muro
da Tapada de Mafra (Sul), com uma plantação de eucaliptos em cima.
Bem vistas as coisas não merece o desvio pelo que a segunda sessão
do reconhecimento evitará este circuito extra.

Seguimos junto ao muro da Tapada até ao Forte do Casal da Serra.
Trata-se de um ponto estratégico importante já que domina o Vale da
Guarda e a passagem da EN8 e é um daqueles locais muito
interessantes do ponto de vista paisagístico.

Descemos até ao Vale da Guarda para rumarmos, por este, para poente
e subir fortemente (queixo no guiador e a dar tudo) até ao Forte do
Cheira que domina do outro lado o Vale e tem uma bonita vista sobre
a Tapada e o Centro de recuperação do Lobo Ibérico
(http://crloboiberico.naturlink.pt/).

Descemos para o Picão onde há uma linda casa que se chama "Casa da
Pedra que Luz", aliás tudo é bonito neste vale que vai até ao
Gradil. Alguns enganos de trajecto depois chegámos a esta
interessantíssima vila que, aliás, já foi concelho até à reforma de
1836. Como não a conhecia foi uma surpresa muito agradável. De
qualidade arquitectónica com os diversos solares setecentistas e de
enquadramento paisagístico notável é uma preciosidade a visitar.

O problema mesmo foi sair dali. Outra subida de queixo no guiador
até à portela e daí para o Alto da Serra do Chipre o Forte de Picoto
e de Rafaeis que estão nos limites de uma propriedade vasta ainda
que sobranceiros ao caminho pelo que se podem observar bem ao
contrário do Forte da Boa Viagem que está no interior da mesma.

Foi tempo de descer até ao Codeçal e de subir muito penosamente a
estrada até à Murgeira, a alternativa (que só descortinámos depois)
era a subida junto ao muro da Tapada embora a sua inclinação a
tornasse mais penosa, evitando, todavia o trânsito.

Daí avançamos para os fortes a norte de Mafra que estão num estado
de conservação lamentável. Aliás toda aquela zona foi devastada por
incêndio recente e é de evitar pelo que no próximo reconhecimento
será descartada pois tal evitará a passagem e ascenção do
Codeçal/Murgeira.

O pior mesmo foi após a incrível e inclinadíssima descida a passagem
pelo Vale do Cuco. Na carta estava referenciado um caminho mas, meus
amigos, a realidade é que deparámos com um imenso silvado de 200
metros de extensão. Foram os meus duzentos metros mais penosos de
sempre. A alternativa era ter de voltar a subir o que descemos.
Sentimo-nos uma espécie de Cristos em plena "Via Crvcis".
Inenarrável. Só espero é que seja uma espécie de tratamento natural
à pele de coxas e pernas…

Moral da História, desde o alto da Serra do Chipre e, até ao caminho
do Vale dos Cucos (o que ficava apenas 200 metros adiante) tudo irá
ser remodelado na próxima: não justifica o trajecto efectuado.

Tristezas não pagam dívidas. Tempo pois de chegar a Mafra e de rumar
a outro forte estupendo: o do Zambujal. Magnífico, dominando o
Arquitecto, lá bem em baixo e a capala do Ó. E que dizer da descida
até ao vale? Impróprio para os vertigiomanos mas estupenda para
quem "gosta é disto" de 100 a 5 metros de altitude serpenteando por
um single track pendurado na encosta a pique em poucos segundos mas
sempre com o travão bem apertado. Só visto!

Foi tempo de rumar a norte, ao Forte do Picoto, junto já a São
Lourenço e daí para nascente. Alguns enganos após tempo de pensarmos
numa "retirada estratégica" via asfalto.

Ainda assim regressámos a Enxara já ao "lusco-fusco" ficando ainda
por reconhecer três fortes.

No final mais de 105 kms. e "apenas" 2800 metros de acumulado
positivo. Mas um bom retrato do terreno para um próximo e espero que
definitivo reconhecimento do lado poente da segunda linha.

Até breve!

Pedro Roque

terça-feira, 18 de março de 2014

a roda que roda no universo que gira

Tenho uma certa dificuldade em assinalar os locais com rigor geográfico (desculpem lá a basicidade mapeal). Julgo que essa limitação terá origem no facto de me prender mais com a imagética do local, os cheiros, as cores, as conjugações impensadas da natureza, do que propriamente com o nome que dão ao sitio. Além disso, para garantir o rigor das coordenadas, e os nomes das localidades, está o grão-mestre que me conduz nestas andanças e o aliado GPS. É com este esclarecimento introdutório sobre esta minha restrição que sigo em frente nos trilhos do que aqui confesso, com a convicção de que serei sempre guiada pela beleza das coisas e no sentido da constelação nascente. O resto é um ali e um acolá.

Mas para chegar a qualquer sítio, bem sabemos, há quase sempre a necessidade de empreender um ou outro ritual, trabalhos vários e esforço certo. Neste caso tudo começa com o toque de um despertador, muito cedo, quase de madrugada. Diria mais: mesmo de madrugada, ofendendo os galos que cantam. Está garantido que isto da bicicleta que roda não se compadece com a possibilidade de ficarmos a dormir em almofadados e quedos colchões e a pedalar ao mesmo tempo. E oh se me custa dizer não ao pecado acolchoado. O ritual que antecede a profusão de prodígios naturais, ainda que o execute com uma certa revolta até perder de vista a tentação da preguiça, é fundamental para dar substância à recompensa. Mas adiante, que isso faz parte das lengalengas que dizem que o esforço compensa e isso já vocês sabem.

De facto, o todo terreno em bicicleta é um desafio surpreendente. Hei de dizê-lo e escrevê-lo mil e tantas vezes, apenas por ser verdade e me fazer formigueiro na parte da extravagância. O BTT é, na verdadeira aceção do conceito, uma aventura. Um destes dias idos, saindo de Torres Vedras, passando pelo Vimeiro, Santa Cruz, Santa Rita, Praia Azul, e por aí fora, lá fui subindo e descendo, umas vezes com a bicicleta ao colo, por gozar ainda de alguma insegurança quando toca a descer montanhas e serras que mais me parecem linhas de terra verticais em direcção ao centro do mundo de tão inclinadas que estão, noutras destemida lançada no espaço lá vou estoqueando o vento que deixo para trás atónito, até me ser dada a possibilidade de desembocar diretamente no pulcro do inesperado.


E é justamente o acidental preclaro que nos recebe depois de descermos a pique até Fonte dos Frades e entrarmos diretos numa outra dimensão, aquela em que deixamos de saber se somos nós a abraçar a montanha ou se é ela a abraçar-nos num enlaço intenso e ‘apassionato’. A estética daquele lugar ficar-me-á tatuada na pele como a nebulosa que tatua o cosmos. Enquanto passamos, roda que roda, a foz do rio Alcabrichel canta a canção das águas novas que refletem as protuberâncias calcárias das velhas montanhas ao longo de uma alameda festivamente relvosa, pueril, pintada com centenas de pequenos malmequer amarelos que nos dão a certeza de estarem vivos acenando-nos entusiásticos na base da terra as suas petalazinhas. Há naquela paisagem a simplicidade e o sortilégio que encontramos nos livros  que nos falam de inefáveis lugares. Há naquele lugar coordenadas de emoção que provocam uma alegria que quero totalizar em mim. Para sempre.  

terça-feira, 26 de maio de 2009

A HARD BUT SUCCESSFUL LONELY TASK


24MAY09

Gare de Santa Apolónia, Lisboa - Bombarral

Distância: +- 140 kms.

Velocidade Média: +- 15 kms./h.

2.600 metros altitude acumulada positiva

Concelhos percorridos: Lisboa, Loures, Mafra, Torres Vedras, Lourinhã e Bombarral

Distritos percorridos: Lisboa e Leiria

Há algum tempo que não pedalava de modo tão duro. A ideia era ligar Lisboa às Caldas da Rainha e, para isso, era necessário tomar o comboio em Sete Rios pelas 06:11 da manhã (sim, leram bem). A compilação do track GPS que efectuei dava-me perto de 150 kms. (até, ou desde a zona da ponte Vasco da Gama) excluindo a ligação a Santa Apolónia.

Para isso estava preparado e consciente, simplesmente a insónia invadiu-me a mente até tarde e resolvi que, enfrentar semelhante desafio com um número exíguo de horas de sono, não era viável. Assim sendo resolvi inverter o sentido da incursão e sair de Lisboa a pedalar ganhando duas horas extra nos braços de Morfeu, essenciais para rentabilizar a estamina aos comandos do velocípede. A companhia pedalante, desta vez, ficou nos mínimos, ou seja alinhámos “três” ciclistas à partida: me, myself, and I.

De facto, a clientela habitual deste tipo de desafios cedo procurou alternativas mais tranquilas, até porque esta incursão era apontada com a classificação máxima, isto é, “só para homens de barba rija”. Assim as escusas sucederam-se ao longo da semana: defeso por causa do joelho, num caso; rentabilização de investimento em hardware (private joke) , noutro ou ainda elaboração de trabalho final de semestre. O que é certo é que já não há betetistas como antigamente (*).

Saí de casa perto das 08:00 e tomei o metropolitano até Santa Apolónia: Curiosamente iniciei o percurso a chover embora por pouco tempo, seria a única aparição pluvial do dia, de resto. Os quilómetros iniciais até ao Parque das Nações foram efectuados pela estrada do Porto de Lisboa que, ao fim de semana, se converte, por milagre numa autêntica ciclovia. Apesar do vento frontal o ritmo era vivo até porque, o cálculo de tempo disponível para levar de vencida o desafio, não deixava grande margem para comportamentos excursionistas. Assim, até Sacavém, a média estava em cerca de 22 kms./h. muito embora o pior ainda estivesse para chegar.

A passagem pelo troço do Trancão é sempre um momento agradável mas, a partir de dada altura, em virtude do dilúvio da véspera, o terreno revela toda a sua perversidade sob a forma de lama e barro. Não só a velocidade começa a ficar comprometida mas também a integridade da afinação, paulatinamente, se degrada. Foi um choque que haveria de aumentar, ainda mais, as dificuldades já expectáveis em termos de quilometragem e altimetria. A partir de dada altura virei para NW e iniciei um interessante e bucólico périplo pela chamada Várzea de Loures até Santo Antão do Tojal, povoação onde, confesso, nunca tinha estado. Trata-se de um local muito interessante do ponto de vista histórico-monumental muito em função do seu Palácio da Mitra, antiga residência de Verão dos patriarcas de Lisboa com um baroquíssimo fontanário verdadeiramente monumental.

A partir do Tojal acabaram-se as facilidades, digo, o terreno plano já que, em virtude do barro, a progressão estava já anteriormente complicada. Foi tempo de subir até Fanhões. Curiosamente muitos betetistas pela zona que fui passando um por um sem, todavia, entrar em exageros anaeróbicos já que “a procissão ainda estava no adro”. De Fanhões a dura subida mais se empertigou ainda até ao Forte das Ribas de Cima. Sem exagero foi uma ascensão vertical de cerca de duzentos metros, lenta, penosa e a exigir muito empenho. Foi tempo de circular no topo da arriba sobranceira ao vale. Já conhecia bem a zona das famosas e duras incursões de reconhecimento da segunda linha defensiva de Torres Vedras. Após um sobe e desce divertido lá cheguei ao sopé do imponente cabeço de Montachique. Como ainda tinha muita quilometragem por diante nem ousei subi-lo, aliás tal não era rigorosamente necessário, bastava apenas contorná-lo para descer até à A8.

Devo confessar que, neste ponto, em função do ritmo imprimido e com a visão das montanhas para o lado da Malveira, a tentação apoderou-se de mim e pensei voltar para trás. O sector bom e justo da consciência, todavia, aguentou firme e demoveu o lado negro de recuar. Logo retomei o caminho com o vigor renovado.

A descida do cabeço até à A8 é muito técnica e absolutamente deliciosa, pelo meio de um azinhal fabuloso, com uma pendente muito forte o que, curiosamente, me teria impedido de ascender montado, no sentido contrário. Transposta inferiormente a A8 foi altura de nos internarmos no reino das montanhas que só largaria muitos quilómetros volvidos, já perto da Encarnação.

Não deixa de ser curioso que o Duque de Wellington comparou a cintura montanhosa, que cerca a norte Lisboa, aos Pirinéus. Não se trata propriamente de um exagero. Se bem que não disponham de uma altimetria semelhante a esta cordilheira (circula-se entre os 250 e os 450 metros) têm, todavia, um perfil ascendente e descendente parecidos com a de alta montanha e isolam defensivamente a capital portuguesa tal como ficou provado há duzentos anos atrás na terceira invasão francesa da Guerra Penínsular. Dos seus altos as vistas em redor são impressionantes, quer pelos vales que se avistam, quer pelos perfis montanhosos em volta.

Até chegar à Encarnação, percorrendo uma pequena parte do concelho de Loures, mas boa parte do de Mafra, a deslocação pode resumir-se a subir e a descer vales profundos vezes incontáveis. Esta primeira parte, até à Malveira, que desconhecia, apesar de muito dura é bem interessante do ponto de vista paisagístico, chegando a dar ares de parque natural. Chegado àquela povoação, após contornar a Venda do Pinheiro, deparo com uma roulote que diligentemente vendia pão saloio e a famosa merenda com chouriço a que foi impossível resistir. Comprei um espécime e ingeri metade daquele saboroso repasto guardando, para outra ocasião, o restante.

Sigo em direcção ao Jerumelo (a subir, naturalmente) e daí para a fabulosa descida para o Vale da Guarda não sem antes ter sido protagonista de um incidente que poderia levar-me a um contacto mais íntimo com o solo. De facto, em plena descida a roda dianteira passa por uma zona enlameada (até aqui nada de estranho, tal foi uma constante desta travessia). Acontece que se tratava de uma área movediça e exerceu um fenómeno físico correspondente a uma travagem forte da roda liderante. Pânico, por breves instantes, adrenalina no sangue, logo de seguida e, instintivamente, os estabilizadores automáticos de reequilíbrio foram accionados. Sem intervenção consciente, agarro bem o guiador, dou um golpe de rins e, por milagre, evito o pior, mantendo todo o conjunto na vertical e saindo da encrenca, todavia, com o pulso mais acelerado que na mais íngreme das rampas. Valeu que a velocidade não era excessiva.

Reposta a normalidade (sabemos que isso acontece quando gradualmente se recomeçam a escutar os pássaros a cantar) lá segui em direcção ao fantástico Gradil, naturalmente que não sem antes tornar a subir. Há, num betetista, uma tendência filosófica para a “harmonia altimétrica” expressa através de um desejo, cada vez mais profundo em função do decorrer da quilometragem e do cansaço, que os desníveis se esbatam. Assim, à semelhança de uma subida, a descida infindável até ao Gradil foi, por mim, mal recebida já que aos míseros 70 metros de altitude no fundo do vale haveriam de corresponder a uma contraditória e miserável ascensão, Serra do Chipre acima, por um piso abominável. Chegado, “lá acima” continua o “sobe e desce” pelos sucessivos vales abruptos. Após Vale da Abelheira de novo lá para cima até se rolar, finalmente, por uns quilómetros mais ou menos a direito. A velocidade média que, no Tojal ainda superava os 21 kms./h,, estava agora reduzida a uns míseros 13,5 kms./h. !

Estava a chegar ao fim a montanha e, lá embaixo, avistava-se Encarnação e as (supostas) planuras. Desço rapidamente em direcção ao vale do Safarujo que cruzo e começo a contornar a Encarnação e o planura, por milagre, ou talvez não, começa a transformar-se em ondulado ainda que, tendo em consideração o que já deixara para trás, tal constituísse uma altimetria de luxo para rolar.

Infelizmente terminou a montanha mas recomeçou o barro, porca miseria! A transmissão agora começava a dar os seus primeiros problemas técnicos. Primeiro um chainsuck inibidor e irritante que, após oleada a corrente, se mitigava; depois os problemas no desviador dianteiro motivados pelo cabo que começou a romper – a impotência funcional começou pela cremalheira 44, seguindo-se a 22. Felizmente que fortuna juvat audax e restou-me a polivalente 32 a qual, com maior ou menor dificuldade, me permitiu levar de vencida a incursão.

As povoações foram sendo dobradas,uma após outra: Azenhas dos Tanoeiros, São Pedro da Cadeira e Casal da Pedra. Esta entrada no vale do Sizandro foi um autêntico desastre com os caminhos de aluvião virados do avesso com o barro. Parecia estar num combate de mud wrestling e isto durante mais de dois quilómetros. Vencida a provação e cruzada a EN9 lá escapei ao barro e fui cruzando diversas povoações até à Bombardeira e daí para o magnífico Vimeiro onde, apesar da hora avançar rapidamente, fiz questão de visitar o obelisco que evoca a memoria da batalha que pôs termo à primeira invasão francesa da Guerra Peninsular em 1808 mesmo que, para isso, tenha enfrentado uma apurada ascensão dentro da povoação já que o memorial fica bem lá no alto.

Tornei a descer e, de novo, enfrentei uma nova subida de antologia até à Ventosa como forma de evitar seguir pela EN. Já em planalto e após esta povoação cheguei à Pregancia e após uma descida violenta cruzei a EN 8-2 cheguei à Marteleira que subi até às bandas de Nadrupe e daí para Miragaia. Aqui chegado, pelas 18:30 e, estando prevista a saída do comboio das Caldas da Rainha pelas 19:00, foi a altura de divergir, primeiro por um estradão e depois pela EN em direcção ao Bombarral onde cheguei cerca de 20 minutos depois ainda a tempo de passar pela auto-lavagem que devolveu a justiça estética à bicicleta agora contrastante com o aspecto rústico (para ser moderado na apreciação) do ciclista proprietário.

Jornal comprado para viajar, rumei a Lisboa a bordo da confortável automotora azul não sem antes transbordar no Cacém para o rubro suburbano.

No fim tudo está bem quando acaba bem até porque, bem vistas as coisas, a Divindade escreve direito por linhas tortas. Assim, o plano inicial Caldas – Lisboa teria uma quilometragem ainda maior e apresentado a montanha já perto do final logo, uma dureza superior com a agravante do nocturno descanso ser dolorosamente amputado pelo precoce horário da composição ferroviária.

Em suma: a conjugação da quilometragem, da altimetria, do ritmo elevado e da lama fizeram desta a mais difícil incursão dos últimos tempos. Acredito que, com boa forma, piso seco e saída mais temporã de Lisboa, as Caldas estejam ao alcance de quem quiser tentar a sua chance.

Provavelmente voltarei ao assunto em breve, assim haja alguém de barba rija para me acompanhar :-)

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(*) farpa com o patrocínio da “Pasta Medicinal Couto” a do artista português :-)