terça-feira, 26 de junho de 2007

A "GARMIN TRANSPORTUGAL 2007" VISTA POR JORGE MANSO


Texto e foto de Jorge Manso
Mais Fotos aqui

Como amante das longas horas a pedalar, há já alguns anos e do nosso "Portugal
profundo", desde a infância, ao ver surgir a SuperTravessia fiquei logo com o
"bichinho" de participar.

Enquanto que, primeiramente, não me via fisicamente capaz de participar, depois
passei a não me ver com disponibilidade para participar, até que, em 2006, tomei a
decisão de arranjar esse tempo que não tinha. Infelizmente em Janeiro tive um
acidente viário que impossibilitou a minha conveniente preparação.

Sendo assim, em finais de 2006, a ideia estava ainda mais forte e logo no final de
Dezembro decido marcar uma data de inicio, neste caso o clássico Tróia-Sagres
como data oficial e partir da qual me auto-responsabilizaria por estar em
condições de aguentar a aventura de Junho.

A ideia de fazer 1000km em 8 dias sempre me pareceu algo assustadora, como tal
tive de alterar bastante a minha vida pessoal e profissional para possibilitar
um aumento de kms. brutal, digo-vos só que, nos seis meses de preparação para a "Super",
fiz o dobro dos kms. do ano de 2006 inteiro...

Como não sou rapaz de fazer exercicio em espaços fechados e em virtude de alguma
variabilidade no meu horário laboral, a minha preocupação central foi andar muito de
bicicleta e tentar andar, ora muitas horas, ora menos horas, mas a um ritmo mais
forçado. A possibilidade de ir a maratonas aumentar o ritmo foi reduzida pela
dita variabiliadade de horário, apesar de ainda ter conseguido ir a 2 (Alvalade
e Mafra), mas já muito perto da "hora H".

Felizmente tive também a oportunidade de participar no magnifico evento da
FPCUB, o Tróia-Algarve, num fim de semana que serviu ao mesmo tempo para tirar
conclusões do progresso do treino (andei sempre a fundo) e para aproveitar 2
dias de excelente convivio. E partilhar alguns treinos com o Luis Gomes e
Ricardo Melo, que muitas e boas dicas me deram.

E assim de Janeiro até Maio o tempo voou. Agora quando Junho chegou, o caso
mudou de figura e os dias começaram a passar bem devagar. A ânsia de que
chegasse o dia aumentava exponencialmente...

Dia 0 - a chegada

Chegado finalmente o grande dia, 9 de Junho, é hora de rumar ao norte. Uma
viagem bem longa e que foi feita já com a ideia nos dias seguintes, com o
assunto comum a ser o que nos aguardava.

Chagada a Bragança e após algumas buscas lá encontramos o hotel, a grande
maioria dos participantes já por lá andavam, estando na altura em grande azáfama
na retirada das bicicletas das caixas e montagem das ditas. Dá-se uma vista de
olhos às montadas dos participantes e algumas saltam à vista, a pequena e bela
FRM da Sónia Lopes, uma FS laranja de tamanho XXL de um americano e acima destas
a SS "kitada" para 3S (trpile speed) do americano Tom Letsinger.

Quando interpelado acerca da estranheza da sua máquina, admite que a criou
propositadamente para este evento, um quadro de carbono e aço nas uniões, com o
manipulo das mudanças na escora traseira, bem perto do selim, desviador "Campy"
Record, discos accionados por cabo e forqueta rigida de carbono. Diz que o
manipulo está ali por simplicidade (menos cabo e bicha) e para não ser usado
muitas vezes. Uns dias mais tarde diz que prefere as forquetas rigidas por achar
que lhe permitem por a roda exactamente onde quer, sem variações de geometria
causadas pela absorção das irregularidades (e sim, ele experimentou suspensões).
Muitos dos portugueses comentavam que no dia seguinte é ele se iria ver grego e
que dificilmente chegaria ao fim.

Tempo de recolher o dorsal, carregar o GPS e um briefing inicial para explicar a
filosofia do evento, bem como toda a equipa de apoio. Depois jantar e caminha,
que amanhã temos de nos levantar cedo.

Dia 1 - Bragança a Freixo de Espada à Cinta (a apreensão)

Desde cedo pintado no site e pelo briefing do dia anterior como o dia mais duro
da TransPortugal, a decisão foi de atacar o dia com muita tranquilidade, de modo
a não sofrer as consequências nos dias seguintes. Seria uma etapa sem grande
subidas mas com muitas subidas...

A azáfama começa logo no pequeno almoço, com muita gente presente, pois além de
toda a comitiva do TransPortugal, estavam também várias equipas de futebol de
escalões jovens, era o ver se te havias, com as cadeiras desaparecerem
frequentemente e a comida a desparecer rapidamente. Felizmente que a reposição
existia e acabou por não ficar ninguém com fome.

À partida estava já em acção o sistema de handicaps, com os primeiros atletas já
bem adiantados na etapa há hora da mimha partida, por falta de prática de alguns,
houve vários que se atasaram um pouco no seu arranque... Felizmente eu e o
Cláudio nunca tivemos esse problema, pois não tinhamos handicap, significando
que arrancariamos sempre no último grupo, à hora certa.

Neste dia acabamos por ususfruir bastante da companhia do Tom, a revelar que
sabia bem aproveitar as potencialidades da sua montada, deixando-nos com
frequência para trás nas descidas.

Oportunidade também para ajudar o Luis Gomes, assolado pelos furos em todo o
evento e sendo neste dia o seu 3º, já estava algo perturbado pelo facto, sendo
que eu forneci a câmara, o Cláudio a mão de obra e o Ricardo Lanceiro o CO2.

Após uma grande secção de rectas fui-me algo abaixo e fizemos uma pequena
paragem para comer um gel e repousar, que me fez maravilhas. Logo a seguir
subimos uma calçada cuja maioiria se fez a pé, mas foi o sinal de uma secção
mais divertida, apenas ensombrecida pelo inicio da chuva, que nos fez desanimar
um pouco, pois arrefecemos bastante... Pouco após o último CP fazemos uma curva
à direita e temos à nossa frente uma esplendorosa paisagem do Douro
Internacional, realmente de tirar o folêgo, caso ainda o tivessemos.

O lado bom é que já cheirava a Freixo... Com o Douro tão perto não podia faltar
muito, mas só nos últmos 800m é que se vislumbra a vila, sendo que os últimos
300 são feitos a subir pela calçada.

VITÓRIA, chegamos ao Freixo com 9h11m a pedalar, bem cansados mas satisfeitos.
Recebidos pela tenda do "repasto" que atacámos em grande e pelos vários colegas
pedalantes que ainda por lá se encontravam, alguns na massagem, outros a repor
os gastos do dia, outros a tentar perceber onde iriam ficar, pois neste dia
ficamos repartidos por 3 alojamentos.

Por nossa sorte eu e o Cláudio ficamos no Freixo, a repartir um quarto com o
Adriano Alves, um ciclista muito bem disposto. Um bom jantar e briefing feito
algo à pressa, pois o dia para a organização também foi dificil e ainda não
tinha acabado.

Dia 2 - Freixo a Alfaiates (agora é que vai ser)

Prevista que estava uma etapa mais fácil, com uma longa zona de subida inicial e
muito mais rápida a partir de Castelo Rodrigo achámos que hoje já podiamos andar
algo mais depressa e sem preocupações.

E assim foi, após uma pequena subida e descida chegamos à magnifica passagem da
ponte medieval antes de Barca d'Alva, em que raros foram os que desceram a sua
totalidade sem por os pés no chão. Ligação até Barca d'Alva por alcatrão e toca
a subir. Aqui marcamos um ritmo forte e acabamos por ir deixando gente para
trás, na zona final da subida chegamos mesmo a apanhar o Nuno Gomes, que
depressa desperta da sua letargia e em Castelo Rodrigo já está fora de vista,
reabasteceimento e entramos na zona dos roladores, várias dezenas de km em que
tenho de me proteger na roda do Cláudio e do Adriano, que encontramos mesmo em
Castelo Rodrigo. Mais à frente fica para trás o Adriano e ganhamos a companhia
do George (o único Sul-Africano presente) e do Martin (o dito da bicla XXL),
sempre a rolar a bom ritmo chegamos mesmo a passar a Carol e apanhar a Sónia
Lopes e a Hillary Harrison separadas por uma pequena distânica, após uma etapa
em que devem ter lutado até ao limite das suas
forças, a Sónia segue com o Cláudio e na confusão do grupo de 6 fico para trás
como os restantes, Hillary ainda tenta seguir com eles mas o cansaço é tal que
apresenta alguma descoordenação motora, facto que me impressiona bastante e me
leva a dizer para ter calma, pois ainda tem mais 6 dias para pedalar.

A chegada Alfaiates é feita nas traseiras do hotel, com o espaço de convivio a
ser bem aproveitado, com as massagens e tenda da comida bem perto, acabou por
ser o dia em que se conviveu mais (também ajudado pelo facto de termos acabado
relativamente cedo).

Neste dia fizemos uns magnificos 15º e 16º tempos, com 6h03m a pedalar. Na
classificação geral pouca alteração tivemos.


Dia 3 - Alfaiates a Ladoeiro (dia de serrar os dentes)

Após o esforço do dia anterior esperava-nos um dia mais variado, com a
ondulante passagem na Serra da Malcata, seguida de uma zona de ligação rápida, 2
subidas (Serra do Ramiro e Monsanto) e novamente mais rápido no final.

Desde cedo neste dia que as coisas começaram a ficar feias, com o Cláudio a
ressentir-se bastante do nosso esforço da anterior etapa, nomeadamente com
fortes dores ao nível dos joelhos que o impediam de andar mais rápido e muitas
vezes o fizeram duvidar se conseguiria acabar a TransPortugal.

Pela minha parte desfrutei da zona da Serra da Malcata, com um piso muito
pedregoso, ao meu gosto, mas que me começou a dar algumas dores nos pés,
resultado da minha fraca habituação aos meus novos sapatos.

Paragem para comer uma sandes trazida do hotel num dos miradouros de Monsanto e
o Cláudio recupera um pouco, mesmo a tempo de andar aos saltos pelas predas da
calçada de saida de Monsanto, que fez a ligação até Idanha-a-Velha.

Após Idanha-a-Velha em teoria seria percurso mais rolante, mas ainda nos
deparemos com alguma subidas, que começam já a fazer mossa nos meus joelhos,
para além dos do Cláudio, cruzamo-nos com o Cal (facto que nos deixa muito
surpresos) que está a passar um mau dia, mas diz-nos não precisar de nada.

Ao cruzar o último CP numa zona relativamente plana o Luis diz-nos que a Sónia
Lopes havia acabado de cair mesmo ali em frente. Ia na roda de outro
participante e numa pequena variação de ritmo tocou nesta, acabando por ser
projectada. Nesta altura já estava na sombra com apoio e eu e o Cláudio apenas
no restringimos ao apoio moral e um limpeza nas feridas, a Sónia com uma
expressão de dor óbvia, mas ao que parece ainda havia tentado montar-se na
bicicleta, sem sucesso. Após a rápida chegada do António Malvar fica a ser
assistida por este enquanto espera pela ambulância e nós os 3 tratamos de acabar
a etapa. No entretanto já havia passado o Cal e alguns estrangeiros.

Até à chegada ao Ladoeiro etapa sem história, no hotel de chegada novamente uma
bela zona de meta a favorecer o bom ambiente e o convivio entre todos. O Cláudio
ataca desde cedo cedo no gelo para ver se o joelho se compõe. Ao fim do dia foi
anti-inflamatório no joelho para ambos (obrigado Luis e João).

Viemos a saber mais tarde que a Sónia tinha o pulso partido e a clavicula
rachada (que grande queda), mas só no dia seguinte retomaria a caravana pois
teria de ficar em observação durante a noite.

Dia 4 - Ladoeiro a Castelo de Vide (o tira-teimas)

Neste dia esperava-nos mais um dos dias "curtos" com apenas 108km para
percorrer. Com medo que se repetisse o dia anterior adoptamos uma toada sem
excessos, particularmente por causa de uma comprida zona rolante inicial até à
saída da margem do rio Pônsul, a partir da qual o relevo se alteraria.
Alguns dos outros participantes já tinham algumas mazelas da viagem, com o
Jaime a ter de fazer uma pausa para dar algum repouso ao seu ,já muito
maltratado, e outro participante a ter de fazer várias paragens para reforçar a
camada de creme protector (a certo ponto já nem punha as alças do calção) ao
longo da etapa.

Cedo ganhamos a companhia do George, que também ia num dia mais descontraido,
dizia que não conseguia entrar no seu ritmo. Paragem num café para o 1º
abastecimento e entramos no ritmo da aldeia, nada de pressas e para fazer uma
sandes para a George foi no minimo uns 15min. Mas nada de stress, que para isso
já chega o emprego... Muitos passaram entretanto, todos dando um ar sua graça.

Sempre num ligeiro sobe e desce seguimos até às portas do Tejo, local onde
nunca me lembro de passar, mas que o George aproveitou para a fotozinha da
praxe. Eu e o Cláudio segiumos nas calmas a aproveitar o trilho paralelo ao
Tejo, em breve o George tornaria a apanhar-nos.

Seguindo em sobe e desce somos apanhados por vários "monstros" do ciclismo
numa subida de alcatrão. Ainda os encorajamos um pouco com as habituais "a tope,
a tope" que tanto se houvem nas grandes voltas. E por algum tempo lá vamos em
amena cavaqueira.

Chegados a uma zona de eucaliptal onde o António Malvar nos tinha avisado no
anterior briefing de um cruzamento à esquerda, pouco visivel, mas bem sinalizado
no GPS e não é que acabamos por nos enganar de qualquer modo... Chamo pelo
George e volto para trás enquanto que ele decide atalhar pelo meio dos
eucaliptos.

Nesta parte surge para mim um dos eventos curiosos da TransPortugal. Numa
secção em que haviam alguns regos resultantes do trânsito de jipes (também tinha
sido avisado no dia anterior) vejo uma lebre e com a distracção acabo por "tirar
o brevet". Resultado um toráx maltratado e um braço arranhado, o que mais me
doía era o queixo, mas aí nada de visivel... O facto curioso foi que ao começar
a levantar-me dou conta de uma pala de capacete e uma barra energética no chão.
Alguém havia caido exactamente no mesmo sitio que eu. No final da etapa soubemos
que tinha sido a Filomena, mas que naquele eucaliptal também havia caido o
Adriano. Aquela lebre andava a fazer das suas...

Percurso ondulante até Castelo de Vide e damos de caras com os primeiros
portões, em jeito de aquecimento para o dia seguinte. E a cereja em cima bolo
foi a subida em calçada até ao centro de Castelo de Vide, com alguma técnica à
mistura, mas nada de transcendente, acabamos por fazê-la toda em cima das nossas
montadas.

Dia de 6h37 a pedalar, sem mexidas na geral.

Dia 5 - Castelo de Vide a Monsaraz (o dia dos duros)

Este dia desde logo se esperava como longo, mas de acordo com o briefing do
dia anterior, a partir do km 30 seria bastante rolante e rápido, isto é, se o
tempo não fizesse das suas.

Este tornou-se para mim o dia mais duro da TransPortugal. Um dia de autêntico
inverno com chuva forte e muito vento deixou-nos a todos muito apreensivos
quanto à etapa e com o ânimo algo em baixo. A partida era feita da porta do
hotel, pelo que o hall de entrada estava cheio de atletas à espera da sua hora
de partida, de modo a arrancar o mais seco possivel (não é que durasse muito mas
lá nos iamos convencendo). Alguns atletas optaram mesmo por nem arrancar, tal o
cenário com que se depararam.

Logo ao arranque os tipicos problemas do mau tempo, o GPS não queria captar
sinal... Após alguns minutos a passo de caracol com o vassourinha já na minha
cola ele começa a receber e atacamos logo uma bela calçada a subir, bem
escorregadia. Pé no chão e toca de empurrar por ali acima. Depois da subida veio
uma bela descida também em calçada, só era pena estar "barrada" com muita
manteiga. Cuidados redobrados pela minha parte e uns sustos para o Cláudio,
cujos travões não estavam a colaborar nada. O Adriano volta a cair e já com
algumas costelas a dar sinal da queda do dia anterior, agora foi a vez da
hemiface esquerda.

Toda a secção da serra de São Mamede é feita sob metereologia inclemente, com
chuva e vento forte, um ritmo muito lento e vários concorrentes com os GPS's a
dar de si. O Ricardo Lanceiro acaba por aproveitar a nossa companhia pois foi um
dos afectados com água dentro do aparelho.

À saída de Alegrete há algumas melhorias de tempo com chuva (em vez de chuva
forte) e menos vento, finalmente deixei de sentir frio. O terreno também se
tornou menos acidentado, mas tinhamos lama q.b. para dificultar a coisa.

Acabamos por ir num ritmo calmo mas certo e com a chegada dos portões vai-se
formando um grupo que chega a ter 7 elementos (eu, Cláudio, João Mesquita, Luis
Baptista, Ricardo Lanceiro, Filomena, Sven), perdeu 3 (Filomena, João e Luis)
elementos ao subirmos de ritmo mas acabamos por apanhar outros 2, Hillary e
Oscar, a primeira com problemas no seu travão traseiro (também eu os sentia mas
já tinha pura e simplesmente deixado de usá-lo). Começava também a sentir alguma
imprecisão nas mudanças.

Com alguns km de alcatrão (nunca me souberam tão bem) e a companhia do João
Pedro Pina melhora o ânimo e o ritmo e damos por nós bem lançados, altura também
do Agnelo nos apanhar numas belas fotos de grupo.

Na secção final de "portuguese flat" ainda temos direito a uma empinadas mas
curtas rampas para estragar o que já vai mal e a Hillary farta-se do ritmo e
vai-se embora ao fazermos uma paragem para regar as oliveiras e pôr óleo nas
correntes.

Estradão final de pedra solta com Monsaraz à vista, felizmente que aqui já
tinhamos algum Sol. Com tanta pedra lá há uma que me fura o pneu traseiro,
tentativa de repor pressão e aproveitar o Magic Seal sem sucesso e lá tenho de
recorrer à câmara. Nesta altura é o Sven que não pára e ficamos os 4 tugas. Até
à subida de calçada para Monsaraz vamos em grupo, com avistamento do Mário e do
Roque ao chegar ao convento da Orada, que estão novamente à nossa espera na
capela em Monsaraz, ao finalizar a subida.

Foi um dia bem duro, particularmente a nível psicológico, para as mecânicas (o
José Carlos só se deitou cerca das 2h30) e para os GPS's, com muitos a terem
problemas com eles. Fruto da dureza do dia vários decidem abandonar a etapa e
nós subimos alguns lugares ao resistir a essa tentação. Foi um total de 10h05m a
pedalar (o dia mais longo). Mais o trabalho de casa, em forma de trocar pneu
traseiro e pôr nhanha, mudar pastilhas de travão e mudar o cabo das mudanças
traseiras. Neste dia não houveram alongamentos, nem banho de água fria nem nada.
Foi chegar, duchar, comer, reparar, dormir...

Dia 6 - Monsaraz a Albernoa (dia rolante, dizem eles)

Esta etapa afigurava-se como uma da mais fáceis da TransPortugal. Um dia com
138km de trilhos rolantes à moda portuguesa, ou seja, ondulantes. Logo a iniciar
com 20 em alcatrão.

Este dia deixava-me algo apreensivo. Leve como sou nestas rectas geralmente
ressinto-me muito e acabo por apenas conseguir ir na roda de alguém (neste caso
do Cláudio) e mesmo assim com algum sofrimento à mistura. Estava na esperança
que com isto em vista se juntasse um grupo grande na secção inicial de alcatrão,
mas o sistema de partidas com handicap e a vontade de andar depressa de muitos
fez com que à frente se formasse um grupo razoável, mas os restantes de nós se
juntassem apenas em pequenos grupos, no nosso caso de 4 elementos (Cláudio e eu
mais 2 ingleses), que se desfez à saida do primeiro troço de terra, ao pararmos
para tentar ajudar o João Marinho no seu 1º furo do dia (haveria de se revelar
um dia negro para ele).

Apanhamos alguns portões, por sinal bem menos do que no dia anterior e desde
cedo que as mudanças traseiras voltam ao mesmo do dia anterior, teimosas que nem
umas mulas. Com umas chuvadas pelo meio apanhamos o António e o Óscar e seguimos
em grupo até a 30km do final onde deixo pura e simplesmente de ter mudanças
traseiras, a porcaria na bicha era tal que o cabo nem corria. Resultado, tive de
optar por uma mudança polivalente (no meu caso a 4º) e mudar apenas as
pedaleiras. Foi o triple speed (3S) á moda do Jorge Manso. O Óscar e o António
seguiram a sua viagem e o Cláudio ficou agarrado comigo. Tempo ainda de ao
chegar perto de Albernoa, onde a organização nos faz atalhar por alcatrão até ao
hotel, de modo a evitar uma zona de barro, de apanhar o George, que com o
Cláudio me arrastam pela recta sem passar dos 25km/h, a velocidade máxima a que
conseguia chegar com a minha combinação "talega"x4. Não sem algum esforço
perceptivel pela foto da nossa chegada.

Hoje lá teria novamente trabalho, mas desta vez seria para fazer tudo como
deve ser com mudança de bichas e cabo. Felizmente que hoje foram "apenas"
7h38m a pedalar. Fruto dos azares mecânicos fazemos uma classificação abaixo da
média, mas sem reflexo na geral.

Dia 7 - Albernoa a Monchique (passagem ao reino do Al-Garb)

Neste dia a etapa seria bastante variada, com opções para todos os gostos. Uma
secção inicial de 50km de "portuguese flat" terminada com 2 subidas
consecutivas, uma zona de terreno acidentado, os contrafortes da serrania
algarvia e a cereja em cima do bolo, as subidas na serrania algarvia
propriamente dita. Logo no briefing somos largamente avisados da primeira das
subidas em serra, à Portela da Brejeira, a única a ser feita em terra.

O dia começa na hora do costume para as etapas "fáceis", 10h. O inicio terá de
nos levar por uma zona onde há possiblidade de barro, mas acabou por não ser
assim e ainda bem. Hoje já tinha as mudanças todas a funcionar, seria só mesmo
questão de pernas.

Com a dita zona bastante rolante e ao partirmos no grupo de atletas mais
numeroso (o grupo sem handicap) acabamos por imprimir um ritmo rápido e vamos
alcançado atletas que haviam arrancado antes de nós indo estes engrossando o
grupo, a certa altura penso que teremos sido perto de 20. O ritmo é alto mas o
grupo algo desorganizado nas secções de BTT, a certa altura passamos o Dominic
furado, hoje seria o seu dia dos azares, tendo perdido muito tempo nessa
reparação. Vários dos estranjeiros do grupo abrandam para tentar ajudar e o
grupo reduz-se a cerca da dezena, maioriariamente portugas, mais a Carol e o
Sven que apanhamos pouco à frente nos primeiros portões.

Logo no primeiro portão ainda apanhamos um susto com o João Oliveira a quase
fazer uma pega às avessas ao enfiar o "corno" da sua montada na perna do Cláudio
pois ia distraido e não esperava uma paragem tão súbita (ao que parece ainda fez
uma bela égua agarrado aos travões). Felizmente não houve consequências para o
Cláudio com excepção da forte dor no momento. Viemos a saber mais tarde pela
Hillary que ao seguir o grupo da frente, também de cerca de 10 elementos perto
de um destes portões ela súbitamente e sem razão aparente dá-se conta de várias
pernas pelo ar e uma paragem repentina. Tinha sido o Ricardo Melo e outro
companheiro que tinham atingido um portão em cheio, usando o arame à moda de
rede de travagem (tal não é a velocidade a que estes meninos andam). Por acaso
passámos por um portão bem frouxo, mas se foi esse o atingido nunca virei a
saber...

Ao chegar à aldeia das Amoreiras parte do grupo decide parar para reabastecer e
seguimos eu, Cláudio, Óscar, Paulo, Carol e Sven. Na primeira e menos inclinada
(mas bem mais longa) subida descolam a Carol e o Sven e por fim o Óscar. Na 2º
subida, nesta tendo de se recorrer à "talega pequenina" passa por nós um foguete
belga. Era o Dominic que subia a um passo infernal tentando recuperar algum do
tempo perdido no inicio do dia.

Chegados a Corte Brique paramos na primeira tasca à vista para a nossa
tradicional sandes, servida num fresquinho pão alentejano, de chorar por mais, e
uma coca-cola. Aproveitando também para reabastecer o "camelo". O Paulo só
reabastece de água, retomando a sua etapa rapidamente.

Apanhados que somos pela Carol e o Sven que também tinham aproveitado para
reencher da água seguimos um pouco com eles. Pouco mais à frente apanhamos
novamente o George, que como de costume se junta a nós, que andar muito tempo
sozinho deve tornar-se maçador. A Carol já havia feito uma paragem e o Sven no
primeiro declive passa a seguir no seu passo, um pouco mais lento.

Cruzamos Santa Clara e o rio e ao atravessarmos uma feira onde havia uma
tasquinha havia no ar um cheiro fenomenal. Se calhar deviamos era ter parado
aqui comentámos entre nós. Ao chegarmos perto de Viradouro o George apercebesse
que já tem pouca água e fica para trás a tentar pedir água a alguns locais, mas
sem sucesso. Nós esperamos numa sombra mais à frente.

Em conversa com ele após o cruzamento de uma ribeira pela enézima vez
apercebemo-nos que ele afinal já está mesmo sem água, partilho um pouco da minha
e decidimos parar na primeira casa para pedir reabastecimento. Pouco mais à
frente apanhamos um senhor a descascar batatas na porta da sua casa e
pedimos-lhe um pouco de água. E ele na sua boa fé diz "Vou já buscar um copo."
Mas nós queremos mais do que isso, ele generosamente cede a sua torneira
enchendo nós os cantis. Em conversa com o senhor lá lhe dizemos que não
conhecemos os caminhos mas temos uns aparelhos que nos orientam por satélite,
não parece muito convencido...

Finalmente ao km 106 aparece a famigerada subida à Portela da Brejeira,
considerada como a subida mais dura do TransPortugal. Algo apreensivos quanto à
sua dureza vamos à espera do monento em que teremos de por o pé no chão, quando
chegamos ao final sempre a pedalar estamos satisfeitos e acima de tudo
aliviados. Afinal o monstro era só um monstrinho. Descida por terra bem rápida
ainda com direito a alguns sustos pelo meio e entramos em alcatrão. Segundo o
briefing de ontem estes últimos 20km seriam em alcatrão, mais fácil pensávamos
nós.

A realidade é que este alcatrão levou a que o Cláudio, finalmente sentindo-se
bem, optasse por apertar o ritmo, o que veio a tornar esta secção a mais dura
para mim em toda a etapa. As subidas de alcatrão sucediam-se e sempre bem
inclinadas, mas um piso tão bom só pedia era um pouco mais de esforço para
chegar só até ali à frente, onde a subida terminaria. O problema é que as
subidas estavam a começar a parecer que não iriam acabar. A tal ponto subimos
que de um dia ameno e nublado passamos a andar entre as nuvens, em más condições
de visibilidade e com o GPS a trabalhar ao ralenti. De repente numa zona plana
damos conta que não estamos no track... Mas não era sempre em alcatrão? Ruela
para aqui, ruela para ali e afinal ainda havia algum BTT para fazer, mas
finalmente estavamos a descer, só podia ser bom sinal.

Com a navegação algo dificultada pela má recepção dos aparelhos e má
visibilidade ainda nos enganamos algumas vezes mas conseguimos chegar a bom
porto. Ainda bem que iamos os 2.

Reusltado 19º e 20º lugares, classificações que nada alteram à geral, mas um dia
em que acabamos satisfeitos pois a zona final foi feita sempre a abrir, facto
que nos saiu do pêlo, mas deu muito gozo (ambos gostamos de subir). O George
havia ficado no inicio da subida de alcatrão pois os seus joelhos não estavam em
condição de nos acompanhar. E acabamos por ganhar 38min ao 21º classificado,
ficando a 1h deste, bem como a 1h13 do Ricardo Lanceiro, o 18º classificado. A
próxima etapa não nos traria qualquer stress.


Dia 8 - Monchique a Sagres (a festa)

Neste dia esperavam-nos apenas 95km, mas como tal a hora de fecho do controlo de
chegada seria mais cedo. A etapa tinha 2 fases uma primeira de acesso entre a
serra e a costa que se revelou mais rápida e a segunda sempre ao longo da costa
com alguma passagens bem técnicas e várias rampas inclinadas de saída das
praias. Com algumas posições seguras apenas por margens de minutos muitos sairam
neste dia a querer defender ou atacar a classificação, o que levou a que não se
formassem grandes grupos.

Na primeira metade depressa perdemos o João Oliveira e o Ricardo Lanceiro, num
dia de ataque, e acabariamos por apanhar o Óscar que tentava defender-se de um
"ataque" do 22º classificado que teria de recuperar nada menos que 20min. A
etapa acabou então por ser feita com um ritmo vivo, na tentativa de apanhar o
Sven, facto que ocorreria ao apanharmos também o mar, na Carrapateira.

Mudando então o percurso radicalmente e adaptando-se melhor às nossas
caracteristicas o Sven acaba por ficar para trás às primeiras subidas, não sem
entretanto ter uma queda sem consequências numa descida bem inclinada, feita com
o pneu traseiro bem colado aos calções. Até ao final temos ainda direito a um
singletrack com uma paisagem esplendorosa mas mal aproveitada por nós na praia
da Cordama, desta vez o contemplado com o susto foi o Óscar e ao acabarmos essa
subida avista-se Sagres, bem lá ao fundo.

Zona maioritariamente plana até Sagres, rola-se em grupo até ao final a bom
ritmo. A vista da meta dá-me novo alento. Ao chegarmos à vila de Sagres sinto-me
cansado mas extremamente feliz. Realizei o meu sonho, eu fiz a Supertravessia.

Chegamos à areia e somos recebidos em ambiente de festa, com a tenda do reforço
alimentar bem recheada, como de costume, mas desta vez até cervejas frescas
estavam disponíveis...

Fui tomar um banho ao mar e diga-se de passagem que até hoje nenhum me sou tão
bem. Soube a vitória. Mais tarde ainda tomo outro em conjunto com o Cláudio e
por fim o da consagração com todos os atletas em conjunto.

Depois de nós foi a vez de vários membros da organização, também eles no final
de 8 dias bem cansativos. E, graças ao Peter e ao Ricardo Lanceiro, pela
primeira vez em 5 anos, foi dia de o António Malvar ir ao banho. Penso que
apesar de ele dizer que não queria e ainda tentar a fuga, lá no fundo ele estava
mortinho por ir à água...


Conclusão

Como diria o Luis Silva (aka Ludos), ESPECTACULAR.

Foi uma semana muito intensa e cheia de grandes emoções, um convivio excelente,
paisagens maravilhosas e percursos à António Malvar (que é muito bom).

Uma semana que me deixou cheio de vontade de repetir algo do género (não sei se
a mesma ou se noutro lado) e que valeu muito mais que o dinheiro que gastei
nela, bem como os 6 meses de preparação.

No final só posso dizer. Obrigado Ciclonatur. A todos vós da organização, que
tanto de vós puseram nestes 8 dias os meus parabéns por fazerem deles o que
foram.

E parabéns a todos nós que acabamos a Transportugal com mais ou menos etapas, em
mais ou menos tempo, com mais ou menos sofrimento. Só espero que aqueles que não
as tenham terminado todas tenham ficado com o bichinho tal como eu, mas que
treinem mais para o ano, para as fazerem todas.

J Manso

TRAVESSIA DA PONTE VASCO DA GAMA - TEJO CICLÁVEL- FPCUB, 24JUN07


A ideia era simples mas eficaz: aproveitar o evento “Lisboa Bike 2007”(LB) para atravessar a ponte Vasco da Gama (em versão “para duros” bem entendido).


Em tempo útil, José Caetano, presidente da FPCUB, efectuou as demarches necessárias para o efeito e a autorização surgiu: poderíamos atravessar após os participantes no LB o terem feito. Obviamente que não tínhamos interesse em “atravessar por atravessar” e daí se compor uma circum navegação ribeirinha que incluía outra ponte além da citada e uma distância quilométrica condigna que se situasse nos 80 kms.


A ponte Marechal Carmona, que cruza o Tejo em Vila Franca de Xira foi o outro grande momento da jornada, porventura mais agradável até, já que não há nada como pedalar com o vento pelas costas…


Mas vamos por partes.


A jornada exigia rolar rápido por isso nada melhor do que uma máquina de asfalto. Como a mesma não estava disponível optei por um compromisso interessante: duas rodas 700 (28 pol.) com pneu fino e cassete 11/23 a deixarem a BTT algo semelhante a uma asfáltica pura. De facto, quem dispõe de travões de disco tem esta possibilidade que nos pode fazer rolar mais rápido e com menos esforço do que as pouco adequadas 26 polegadas mesmo que igualmente equipada com pneu fino.

Juntamente com o Jorge Manso e o Rui Sousa faríamos parte do "staff" de apoio ao evento (equipa "000" e colete verde fluorescente). Combinei com o primeiro um encontro num deserto Terreiro do Paço, pelas 06:30 e seguimos em direcção ao Parque das Nações. Num ápice aqueles 10 kms. foram devorados. O Jorge com a preparação adquirida no Transportugal e a máquina de asfalto é a locomotiva ideal, basta colar na roda e aí vamos nós.

O ponto de encontro, de partida e de chegada situava-se junto ao IPJ e à Pousada de Juventude, perto da estação de Moscavide. Partimos com 20 minutos de atraso. Tive a oportunidade de me dirigir aos presentes, através do microfone, apresentando as boas vindas em nome da FPCUB e de explicar como se iria desenrolar o passeio. Porém, ao lhes ter afirmado que o ritmo iria ser "descontraído", estava longe de imaginar que não seria tanto assim. De facto havia quem estava preparado para o que iria encontrar e quem, pelo contrário, estivesse claramente impreparado. Nem sequer se podia dizer que era um problema de "maquina" pois sempre andaram muitos betetistas de "pneu gordo" na dianteira (já para não falar das "rodinhas" dos modelos dobráveis "Dahon" e afins) mas, tão somente, de preparação física.


Todavia foi interessante vislumbrar aquele mar de gente (ciclistas) alinhados para partirem. Eram quase um milhar entre máquinas de asfalto, de BTT puras (pneu gordo) ou "impuras" (pneu fino), bicicletas desdobráveis, city bikes, tandems, etc. Maioritariamente masculino o pelotão contava, ainda assim, com algumas mulheres em número significativo.

Acho que, de futuro, será necessário avançar com dois níveis de andamento, já que se torna complicado, para quem não se sente capaz de seguir na dianteira, gerir a sua participação. É que, não obstante o esforço dos batedores da BT / GNR e dos nossos amigos "Motards do Ocidente", é impossível manter os cruzamentos bloqueados por muito tempo. No entanto, uns e outros, fizeram um excelente trabalho.

Seguía com o Jorge na dianteira mas, na zona de Santa Iria, resolvemos encostar e aguardar a passagem para encontrarmos o Rui que fechava o passeio. Foi impressionante já que, durante mais de cinco minutos passaram ciclistas e, no final, ainda alguns tinham ficado para trás com avarias. Muitos recolheram ao Bus que acompanhava o passeio para o retomarem em Alcochete optando por, à falta de forma física, percorrerem apenas os quilómetros finais da travessia. Também neste local se juntaram muitos outros apenas para essa derradeira distância.

Depois foi o diabo para recolar de novo na dianteira. Foi um sprint quase constante até lá à frente.


Foi somente na "recta do Cabo" (Xira - Porto Alto) quando parei na berma por causa de um incontornável "apelo da natureza" que constatei a velocidade a que se avançava. Naturalmente que o vento pelas costas ajudou bastante. A seguir ao Porto Alto foi tempo de reagrupar, todavia, dali até ao parque do Freeport Alcochete, reparei que a diferença entre os primeiros e os últimos foi cerca de quinze minutos o que, convenhamos é eloquente!


Apesar de não seguir com uma "asfáltica puro sangue" senti que a configuração BTT + roda 700 + pneu fino permite uma performance em asfalto que não é despicienda. De referir que o atraso da partida (quase meia hora) foi recuperado pelos primeiros que chegaram à hora prevista a Alcochete (impressionante).

No parque do Freeport foi altura de reagrupar e de aguardar a autorização para a passagem da Ponte Vasco da Gama. Antes, porém, foi tempo de circular pelo centro da taurina Alcochete e na sua avenida marginal e rolar em direcção ao Samouco na estrada das salinas. Entrámos pelo acesso de serviço na A12 e rapidamente estávamos no tabuleiro da ponte. Primeira constatação: o vento que nos empurrara tão rápido na "recta do Cabo" a soprar frontal agora (quadrante NW) e a dificultar um pouco a missão. Todavia, o mais curioso, foi o "fim de festa" do LB: destroços das "bicicletas" em quantidade e "ciclistas" extenuados após a primeira subida provando que o hábito não faz o monge!

O final não foi muito interessante em virtude da mistura com os participantes do LB o que retirou algum brilho e gerou alguma confusão. Porém tal não foi suficiente para retirar todo o brilho ao evento.


Certamente quem nele participou não o esquecerá...

Fotos em http://www.fpcub.pt/portal/index.php?option=com_zoom&Itemid=99999999&catid=10

sexta-feira, 15 de junho de 2007

"GARMIN TRANSPORTUGAL" 5.ª ETAPA - A CHEGADA AO INFERNO

Jorge Manso no derradeiro esforço antes da meta
(photo by Agnelo Quelhas)



Recebi uma chamada às 15:45 do Mário Silva.

Dizia-me ele o seguinte em jeito de enigma: “tenho uma proposta que já sei que vais recusar mas é uma pena que recuses”.

Ao que respondi: “sem me a fazeres não saberás se recuso ou não!”.

A proposta tratava-se de zarpar, dali a um quarto de hora até Monsaraz para assistir à chegada dos participantes na etapa da “Garmin Transportugal”. Fui mesmo de fato azul escuro, só tirei mesmo a gravata (tipo “chefão da prova”) e passada hora e meia lá estávamos.

Após os cumprimentos da praxe ao António Malvar, Louise Hill, Agnelo Quelhas, etc. ainda assistimos à chegada da segunda metade dos participantes. É incrível a postura do Malvar no comando das operações. O sujeito é, de facto, “o Guru de todos os Gurus” do BTT amador nacional.

Ao contrário do ano transacto a chegada não era “lá em baixo” no adro do convento da Orada mas antes “lá em cima” no morro frontal a Monsaraz onde se situa o forte e capela de São Bento. Tratou-se de uma “malvardez” suplementar a acrescer à terrível provação que todos sofreram: a chuva, o vento e a lama deixaram o material em estado miserável e muitos participantes com o moral em baixo.

Vimos chegar o Jorge Manso e o Cláudio Nogueira ainda em razoável estado de conservação mas com este último a confessar que nunca tinha passado por algo tão duro! E após a chegada do nosso amigo Pedro Soares rumámos ao QG.

Em alguns dos seguintes o semblante não enganava: tinha sido atingido o limite da força física e anímica. As máquinas, invariavelmente, estavam com problemas de transmissão e de travões a complicar ainda mais.

Jantámos com os demais e revemos velhos amigos e conhecidos: o Luís Gomes (que havia estoirado o seu segundo pneu), o Nuno Gomes, o Ricardo Melo, etc.

Quem estava com um ar de absoluta tranquilidade eram os ditos belgas. Constava por lá, à boca pequena, que os indivíduos mal comiam e bebiam durante a etapa. O que é certo é que há ali um nível de preparação física a que não estamos habituados e os resultados reflectem-no.

Às 01:00 cheguei a casa. Valeu a pena o desafio.

Obrigado Mário!

quarta-feira, 13 de junho de 2007

TRAVESSIA LISBOA - FÁTIMA - COIMBRA


Jornada de grande dureza mas, ao mesmo tempo, absolutamente inesquecível.

Assim se pode resumir aquilo que se passou nos idos 7 e 8 de Junho: 14 concelhos, 4 distritos, 280 kms., duas etapas, 4.000 metros de altitude acumulada positiva a exigirem elevado espírito de sacrifício e preparação física razoável.

A ideia foi juntar a habitual e anual peregrinação até Fátima com um segundo dia até Coimbra.

O Mário Silva prontificou-se a acompanhar-me e, apesar do azar que lhe bateu à porta, à saída da Azambuja, completou o percurso sem problemas e foi a companhia ideal para um trajecto em que a dureza apenas foi superada pela beleza de muitas partes do caminho.

A saída deu-se pelas 08:30 do km. 0 do “Caminho do Tejo” ou seja, o Pavilhão de Portugal no Parque das Nações. Antes havia ficado uma ligação “Metro” entre o Alto dos Moinhos e a Baixa e o “aquecimento” entre a Baixa e o Parque das Nações e que implicou para cima de uma dezena de kms. em que pedalei em ritmo tranquilo.

Tivemos, até à Azambuja, a companhia do Pedro Soares que estava a treinar os kms. derradeiros para a “Garmin Transportugal”. Tal facto revelou-se uma mais valia uma vez que, entre Castanheira de Pêra e Azambuja foi só “colar atrás” e aproveitar a “technique de peloton”. Foi um instante até alcançarmos a Estação da Azambuja. De resto tínhamos, há uma semana, feito a ligação Setúbal, Sesimbra, Lisboa para testar a forma e cujas fotos podem ser encontradas aqui. (http://picasaweb.google.com/AtlasCores/BTTSetubalLisboa?authkey=t8-ba_OMt0c).

Após a despedida na estação seguimos pelo esteiro da Azambuja onde estava reservado um primeiro “golpe de teatro”. Depois de sairmos da estrada, após a transposição da vala real, seguimos algumas centenas de metro junto a esta, no meio dos canaviais, viramos à direita e entramos numa zona com diversos regos longitudinais secos pelo sol.

O Mário desconcentrou-se um pouco do caminho e resvalou com o pneu da frente nessas regueiras. Numa manobra hábil consegue contrariar o desequilíbrio e saltar da bicicleta que cai por baixo de si. Quando pega na bicicleta para seguir viagem constata-se que a famigerada “máquina do fiambre” (pedaleira 42) tinha feito mais uma vítima.

Tratou-se de um golpe vertical cerca de 7 cms. de extensão e uma profundidade razoável mas que não comprometeu, todavia, os gémeos direitos. Valeu na hora o meu “hospital de campanha portátil”. Um kit de primeiros socorros equivale a um extintor ou a um cinto de segurança: todos nos interrogamos sobre a sua utilidade até ele se tornar indispensável e fazer toda a diferença sobre quem não o possui.

De facto, à paragem técnica inevitável, seguiu-se a lavagem da ferida com água, a limpeza com um toalhete humedecido, a aplicação da iodina e a selagem com um penso de grandes dimensões. A “piéce de resistence” foi a aplicação da gaze que isolou, por completo, a ferida do exterior. Fez toda a diferença a presença do kit de primeiros socorros. A ligação poderia ter acabado ali mas pode assim prosseguir sem grandes problemas.

De resto, betetista que se preze, tem uma marca indelével efectuada pela “máquina do fiambre” no gémeo direito. Eu, como já sou experiente, tenho uma desde os idos 2003!

Sem tempo para mais constrangimentos, foi altura de cumprir aquelas intermináveis rectas até à subida para Santarém, nas Ómnias, após a passagem da ponte Salgueiro Maia.

Este é o tempo da primeira grande paragem do dia para um almoço resumido, reabastecer de água e seguir viagem. Na Portela das Padeiras outro incidente (este sem gravidade). O viaduto sobre a A1 estava destruído (em virtude das obras de alargamento), tivemos de voltar atrás e seguir pela EN. Depois é o trajecto habitual debaixo de um calor que, sem ser excessivo, recomendava um ritmo mais calmo.

Sucediam-se as povoações: Azóia de Baixo, Casais de São Brás, Advagar, Santos, Casais das Milhariças, Arneiro das Milhariças e, antes de chegarmos ao descanso dos Olhos de Água, a famosa e dura ascensão ao outeiro dos três moinhos no Alto da Cruz, antes de Chão de Cima.

Em Olhos de Água a “detente” habitual apesar de ser um dia feriado. Tempo de abordar o PNSAC. A primeira impressão é, aliás, bastante impressiva: corresponde à saída íngreme dos Olhos de Água. Depois segue-se Monsanto e a subida para o Covão do Feto e daí sempre em ascensão até à Serra de Santo António.

Tempo de descer vertiginosamente até Minde onde se alcançam velocidades alucinantes “costa abaixo”. Aqui é tempo de nova pausa e de preparar o troço final até Fátima. Os kms. já pesam nas pernas e a ascensão ao Covão do Coelho (e após este) a fazer-se algo penosamente embora a partir desta última localidade “já cheire a Fátima”.

A chegada à Cova da Iria fez-se já perto das 20:00. Hospedamo-nos na residencial Casa Vitória (http://www.residencialcasavitoria.com/) que, passando a publicidade consegue um bom compromisso preço – qualidade com as vantagens adicionais de guardarem as bicicletas, ficar muito perto do santuário e ter restaurante.

De manhã, após o pequeno almoço, recomeçámos. O segundo dia previa-se mais curto mas com uma altimetria mais elevada. Possuíamos o track do “Caminho de Santiago” e um outro com diversas passagens alternativa por forma a evitar o máximo de asfalto.

A primeira alternativa a Santiago faz com que tomemos um atalho descendente logo em Fátima e na direcção da estrada para Ourém que, além de evitar muito asfalto, poupa alguns quilómetros. Ainda antes desta localidade, em São Sebastião, derivamos para a direita, abordando a encosta NW do morro de Ourém por fora da estrada, até à chamada “Ponte dos Namorados” e daí entramos na Corredoura. É uma zona muito bonita e que proporciona uns excelentes planos do Castelo de Ourém.

Viramos para N, seguindo o curso da Ribeira da Caridade por uma bonita estrada secundária e, um quilómetro adiante, viramos para NE. Como as curvas de nível do GPS já ameaçavam tratou-se de subir muito duramente os cerca de 500 metros de terra batida entre o Casal dos Gagos e a EN 1404.

A partir daqui e até Caxarias, a forma de progressão S – N seria sempre idêntica: rolar para NW no vale, sair à esquerda para N subindo a montanha fortemente e descer de novo para o vale seguinte. Foi assim na Ribeira da Granja, na Ribeira do Olival e na Ribeira de Caxarias.

A chegada a esta estação promete ficar na memória: um single track descendente excepcional seguido de uma ascensão em elevador (leram bem: em elevador). A transposição inferior da linha do Norte contava com uma subida à estação em que se podia subir uma escada ou, alternativamente, subir num elevador. Optei pelo meio mecânico apenas para acrescentar um pitoresco à incursão.


Em Caxarias entrei num mini mercado para comprar água mineral. Uma das clientes soltou um expressivo “credo!” quando me avistou. Compreendi assim que as criaturas licradas que dirigem bicicletas de TT não são muito familiares pelas bandas...

Estava cumprido o primeiro quarto do segundo dia de percurso. O seguinte haveria de nos levar até Ansião. Para se sair do vale da Ribeira de Caxarias mais uma vez tivemos de subir para, de seguida, descer até ao vale seguinte que era, no caso vertente, o da Ribeira do Carvalhal. Continuámos para N por Casal dos Pinheiros, Cacinheira, nova subida e descidas fortes até à Ribeira do Fárrio.

Depois dá-se novo “golpe de teatro”. Numa zona muito montanhosa que antecedia a cehgada ao vale do Nabão o caminho, assinalado no track, estava completamente fechado com a vegetação. A alternativa, que custou a encontrar (só após algumas “tentativas e erros”), levava-nos para S e SW e numa ascensão brutal até que conseguíssemos, de novo, virar para N e descer para o Nabão.

Chegámos a São Jorge donde viramos à direita e paramos para aguada junto a um chafariz. Seguimos para N junto ao leito do rio num percurso espectacular. A dado ponto rodamos para E e subimos o “Vale da Abelha” por um caminho também muito interessante. A altimetria começa agora a subir em direcção a Ansião. Trata-se do nosso primeiro contacto com a Serra do Sicó sucedendo-se as povoações: Murtal, Casal Novo, Ramalheira, Gramatinha, Casal Folgado, Casais Maduros, Casal do Soeiro e Ansião. De realçar a beleza paisagística e patrimonial deste troço do Sicó que antecedeu Ansião.

Nesta terra tempo para uma paragem numa pastelaria do outro mundo. Uma taça com “pasta” esperava por nós e foi tempo de recuperar energias.

Tempo de seguir de novo na direcção N transpondo o Nabão e as povoações de Bate Água, Gamitos, Areosa e Nebos internando-nos, cada vez mais no Sicó, Lugar dos Netos, Portela, Casais da Granja e Alvorge.

O problema nesta zona do Sicó era a vegetação que tornava os caminhos impraticáveis obrigando-nos, amiúde, a desmontar. Era o reino do carrasco e das silvas a prejudicar a nossa progressão.

Prosseguimos com o Castelo do Rabaçal ao fundo até alcançarmos o Zambujal que, para quem conhece o Sicó, é uma espécie de paragem obrigatória na zona. Sentados na escadaria do adro da Igreja foi tempo de relaxamento e de reequilíbrio incontornável da energia apreciando os quadros rurais que só uma aldeia serrana oferece.

Daqui até Conimbriga os quilómetros foram vencidos rapidamente passando pela Fonte Coberta e pelo Poço onde a ascensão dá lugar àquela magnífica descida até à ponte da Ribeira de Mouros onde se alcançam, finalmente, as ruínas romanas de Conimbriga.

Estava pois cumprido o terceiro quarto deste nosso segundo dia de jornada. Faltava agora ligar a Coimbra tarefa essa que se revelaria um pouco mais penosa do que inicialmente se poderia supor. Foi tempo de se passar Condeixa por nascente, Orelhudo, Gasconha, Cernache e Pousada. Tinha preparado uma alternativa até Pousada que não se efectuou em virtude do adiantado da hora. A complicada passagem em Cernache, todavia, recomenda que, em futuras edições, se deva utilizar essa alternativa a nascente.

De Pousada até Palheira a progressão faz-se pelo meio de um pinhal e a N de Antanhol foi altura de cruzar, finalmente, a EN 1 / IC2. De novo um “golpe de teatro”: a passagem superior foi destruída num acidente há semanas pelo que a transposição de tão importante, movimentada e perigosa artéria teve de ser feita de “cernelha” isto é, cruzando-a a correr esperando uma aberta na circulação infernal. Ainda por cima foram três as vias que tiveram de ser cruzadas mas tudo correu sem percalços, felizmente.

Subimos à Cruz de Morouços onde se fica com a cidade de Coimbra à vista. Nestas ocasiões é sempre um tempo de glória com a sensação de dever cumprido quase a chegar.

Todavia a missão ainda estava longe de estar completa. Após a descida até ao Bordalo havia que subir até à Mesura e daí, finalmente, descer por Santa Clara até ao Mondego. A transposição do rio efectuou-se, naturalmente, pela nova ponte pedonal de Pedro e Inês e daí até à baixa pelo jardim do rio.

Na Baixa a missão, para ser cumprida implicava que se subisse via Sé Velha até à Universidade, Jardim Botânico e Penedo da Saudade até aos Olivais. Assim se procedeu, a custo, é certo, mas com firmeza e determinação.

A sensação de dever cumprido e de “detente” a chegar finalmente pelas 20:00 de uma segunda jornada que sem ser tão longa como a primeira implicou, todavia, um maior empenho para ser levada de vencida.

Se comparado com o Raide Setúbal Algarve posso, sem receio, afirmar que é um desafio mais duro em virtude da altimetria.

As fotos podem ser encontradas aqui.

terça-feira, 5 de junho de 2007

RELATO II RAIDE BTT SETÚBAL - ALGARVE - parte II - texto: Rui Sousa, fotos: Ricardo


O tempo tem sido escasso, por isso só hoje completei o relato do 2º dia do

Raide da FCPUB. A memória começa a falhar, mas aqui vai:

Dia 1,5:

As noites loucas de Odemira:
Depois do empeno dos 140 km sobe muito bem o banho quente e o lanchinho
comprado no supermercado pelos colegas organizadores que já tinham chegado!
Eles entretanto foram indo para o restaurante e eu e a Marta ficamos a
acabar de nos arranjar.
Felizmente para o centro de Odemira era sempre a descer…mas o empeno era tão
grande que me consegui perder, fui ter para lá da ponte sobre o Rio Mira e
andava à procura de uma rua à esquerda quando afinal queria era ir para a
direita. Lição aprendida, no caso de grande empeno, levar sempre o GPS!!!

O telefonema para o restaurante no dia anterior a lembrar que iria haver
invasão de famintos deu bom resultado. Comi uma bela vitela estufada com
muito esparguete!

A esplanada exterior do restaurante foi invadida pelos seres esfomeados, a
senhora do restaurante não vai esquecer esse dia tão cedo, de tanta comida
que nos serviu! Os seres esfomeados aproveitaram também para contar as
“estórias” do dia e para o Sr. Caetano (presidente da FPCUB) fazer a chamada
como na escolinha, para distribuir os cartões aos novos sócios!

A subida para o pavilhão serviu para esticar as pernas e foi feita pelo
caminho certo, apesar das dúvidas de alguns ilustres conhecedores daquelas
paragens. Afinal não era só eu que andava perdido!

No pavilhão já muita gente dormia. O responsável pelas instalações estava
preocupado, pois pela noite dentro ia ser desmontada uma estrutura na sala
ao lado (de um espectáculo de Wwrestling), iam ter que fazer algum barulho.
Se o fizeram ou não, desconheço, mas a verdade é que ninguém ouviu nada,
dormiram que nem uns anjinhos!


Dia 2:

Hora de acordar:
Mal começou a entrar luz pelas janelas do pavilhão, os mais madrugadores
acordaram. Todos os outros foram acordando, com maior ou menor dificuldade,
e rapidamente o pavilhão se tornou numa espécie de bazar. Sacos para aqui,
mochilas para ali, sacos-cama, colchões, garrafões de água, bananas, barras,
sandes, sumos. E ao fundo, cheias de pó e alguma lama, os veículos de
tortura aguardavam ansiosos para mais 120 km de aventura.

Como é normal, pela presença do rio Mira, cá fora estava algum frio e
nevoeiro. No exterior formou-se uma pirâmide de sacos e mochilas (o camião
só vinha mais tarde recolher o material) e os participantes doridos e com
sono faziam as ultimas afinações nas bicicletas.

Pelo rio acima, a afastar o nevoeiro
Com o pequeno atraso da praxe, foi dada a partida, Odemira abaixo. O frio
apertava, mas não era boa ideia levar roupa quente, o sol prometia vencer as
nuvens rapidamente.

Ao contrário do ano passado, não passámos o rio Mira em Odemira, seguindo-se
junto a ele por alguns quilómetros, pela margem norte. Tal como no dia
anterior segui atrás da caravana, acompanhado pelo Triguinho e pela Sandra
Correia, outra participante feminina, que foi sempre junto de membros da
organização, pois os companheiros de equipa estavam a treinar para o
Transportugal. A Marta resolveu não fazer estes primeiros quilómetros, pois
já os conhecia do reconhecimento, pelo que seguiu na pick-up jipe até São
Marcos da Serra.

Logo após as primeiras subidas encontrei os Chaparros em dificuldades. Uma
corrente, que apesar de nova, teimava em não colaborar. Fiquei com eles,
continuando o Triguinho e a Sandra a pedalar. Corrente ligada, lá seguimos,
às curvinhas pela margem do rio.

Infelizmente o nevoeiro não deixava ver toda a paisagem, mas o que se via
era muito belo. Não me vou esquecer tão cedo de uma seara ainda verde, mas
com as espigas totalmente brancas, por absorverem as gotas do nevoeiro.
Felizmente foram tiradas algumas fotos neste local!

Mas os problemas mecânicos não tinham terminado. Um pouco mais à frente
estavam as Raposas do Mato, com o primeiro de muitos furos do dia, pelo que
até ao final foram a minha companhia. A passagem do Mira estava próxima.
Apesar da grande extensão de água que era preciso atravessar, podia-se fazer
tudo a pedalar e aproveitar para lavar os cubos das rodas.

A Portela da Fonte Santa já estava próxima, local onde íamos fazer um pouco
de asfalto, numa estrada nova e praticamente deserta, acompanhando de perto
o Mira até Sabóia e dai até ao Viradouro. É uma estrada com uma paisagem tão
bela que quase se esquecem as subidas que tem pelo meio. Do lado direito
mais selvagem, do lado esquerdo grandes searas ou terras de cultivo com
pequenas plantas e flores das mais variadas cores.

No Viradouro atravessamos a EN 266, passando a acompanhar a renovada linha
de caminho de ferro do Sul.

Pela linha abaixo, olha lá vai o Pendular
Logo ao sair da EN 266 atravessamos um pontão sobre a Ribeira de Telhares,
que iremos atravessar inúmeras vezes até chegar a Pereiras. No início
seguimos por um estradão novo que parece ter servido de apoio à renovação da
linha, mas depois de um pequeno desvio à direita entramos num caminho mais
antigo e fechado. Começa aí a saga dos atravessamentos da ribeira, que tem
uma água cristalina e fresca. Com o Raide mais para o verão dava banhoca na
certa!

Foi dentro de uma destas ribeiras que voltei a encontrar os Chaparros, não a
tomar banho, mas outra vez com a mesma corrente partida. Aproveitando o
facto de o jipe vir mesmo atrás, resolveu-se o problema de vez, com uma
corrente nova.

Sobe, desce, desvia do calhau e das rãs.
Em Pereiras atravessamos a linha do caminho-de-ferro por uma passagem
superior, entrando no troço mais selvagem de todo o Raide (onde até uma
lebre vimos durante os reconhecimentos).

É uma zona dura, com descidas e subidas bem inclinadas e com alguma pedra à
mistura. A paisagem à volta é completamente selvagem, onde só muito
raramente se vê intervenção humana. Nas zonas mais baixas formam-se grandes
poças de água, que nesta altura do ano estão cheias de pequenas rãs (que
durante o reconhecimento eram apenas girinos).

No topo de uma das subidas mais difíceis estavam outra vez as Raposas do
Deserto, a descansar, pensava eu. Também deviam estar a descansar, mas
tinham tido outro furo. Novamente o jipe foi útil, para reforçarem o stock
de câmaras-de-ar, pois já se estavam a esgotar.

Depois de uma viragem à direita o percurso ficou menos agreste, seguindo
paralelo ao curso de uma pequena ribeira, incluindo um pouco mais à frente
uma longa descida bem divertida…excepto para as Raposas, que tiveram o 3
furo do dia quando ainda só tínhamos feito cerca de 40 km.

Comecei a ficar preocupado, pois as horas estavam a passar, ainda havia
muitas dificuldades pela frente, o autocarro de regresso estava marcado para
as 20 horas. Tive que os disciplinar, pelo que os proibi de ter mais furos!
A partir daí portaram-se bem, os problemas mecânicos acabaram!

Não demorou muito mais para chegarmos a S. Marcos da Serra, onde a Marta nos
esperava numa fonte à entrada da povoação. Ao chegar dei duas apitadelas,
que a acordaram (já sabia que ia adormecer enquanto esperava por nós!).

Aproveitamos para repor as reservas de água, o calor tinha vindo em força,
eu já estava seco. Seguimos para dentro da vila, onde procuramos um café
para comer alguma coisa rápida, para não nos atrasarmos mais.

A Perna Seca ainda tem água
Como em S. Marcos da Serra não quis sair do track (podia alguma equipa ter
saído para ir a outro café e depois não os via passar), acabamos por parar
num tasco muito fraco. Mas deu para comer um chocolate, batatas fritas e
seguir viagem sem perder muito tempo.

Passámos por cima do IP1 e algumas curvas à frente encontrámos a ribeira da
Perna Seca, que com as chuvas de Abril ainda tinha bastante água! Mais
diversão, pois com o calor que estava sabia bem passar a ribeira vezes sem
conta “à abrir” e molhar os pés!

Abandonamos a Perna Seca num cruzamento à direita, para entrar num estradão
que mais à frente ganha uma camada de alcatrão. É ligeiramente a descer, o
que com o calor que estava soube muito bem, tanto que as Raposas do Deserto
ganharam velocidade e não olharam para o GPS, seguindo em frente na viragem
à esquerda novamente para terra.

A ribeira do Arade e a serra Algarvia a fazer mossa
Depois de entrarmos em terra seguimos direitos à Ribeira do Arade, que
atravessamos justamente na povoação com o nome da ribeira. Entramos aqui
numa dos locais com mais dificuldade do raide, pois pela frente temos, num
buraco, a ribeira do Gavião, caminhos cortados pela vegetação e cães do
tamanho de vitelos muitos zelosos do seu território…

Entramos assim numa montanha russa, que acaba numa descida vertiginosa quase
a tocar novamente a Ribeira do Arade…e uma subida ainda pior, até passarmos
dentro de um túnel, para atravessar a A2. Ufa. Mas já encontrámos
alternativas nas cartas militares, se para o ano os participantes oferecerem
um queijo da serra aos organizadores, prometemos encontrar um caminho mais
fácil!

Aproveitámos a sombra do túnel para comer e arrefecer, pelas minhas contas
estávamos a andar bem, ainda ia dar para jantar e tomar banho antes do
autocarro sair!

Após a passagem da A2 chegamos a Vale Figueira, onde entramos numa estrada
que nos permitiu fazer mais alguns quilómetros rapidamente, até à povoação
de Corchicas. Aí vamos seguir por um estradão em muito bom estado, mas não
sei antes fazer uma paragem junto de umas laranjeiras carregadinhas de fruta
com aspecto biológico!


Alte, Alte, Alto
Apesar dos quilómetros acumulados as Raposas do Deserto continuam a pedalar
a bom ritmo, assim como a Marta, que acumulou forças durante a sestinha em
S. Marcos da Serra.

Em Vale das Poças estava “empanado” um KedasBike, o David Santos, à espera
que a pick-up o viesse buscar. Já que estava ali o jipe, e felizmente ainda
vazio, liguei a avisar que já não era preciso.

E que bom local para desistir! Logo a seguir iniciávamos a subidas para o
alto, quer dizer, para Alte. Passamos primeiro por Santa Margarida e depois
por um trilho panorâmico até ao centro de Alte, que cruzamos bem pelo
centro, por ruelas estreitas, num pequeno down-town.

Bem vindos ao Reino da Laranja
À saída de Alte seguimos a meia encosta, no meio dos laranjais, com a
paisagem a lembrar as vinhas do Douro, mas muito mais perfumada. Quase que
se consegue imaginar os campos cheios de trabalhadores, a subir e a descer
os socalcos com pesados cestos cheios de laranja. Mas felizmente para os
trabalhadores, aqui o terreno não é tão inclinado!

Foi aqui que comecei a desconfiar que estava a fazer mal as contas aos
quilómetros que faltavam. Pensava que faltavam uns 30 km, mas estando em
Alte, Querença é já ali! Ainda bem, pois as Raposas começavam a mostrar
sinais de cansaço.

O terreno plano acabou subitamente numa curva apertada à direita, onde
entrámos numa rampa em cimento, que nos levou à povoação de Espargal. Era a
ultima dificuldade do Raide, não contanto com a chegada a Querença.

Ribeira “expresso” Algibre
Como durante o reconhecimento só encontrámos caminhos lavrados, barrentos e
húmidos (por estar a chover, uma mistura explosiva), a descida para a
Ribeira de Algibre é feita a alta velocidade por asfalto. Atravessamos a
ribeira e viramos à esquerda, pois vamos seguir pela sua margem quase até
Querença.

Entretanto disse às Raposas que só já faltavam uns 12 km e não 30, eles
ligaram um turbo e durante algum tempo desapareceram-me de vista, pois o
caminho sinuoso a serpentear a ribeira não permitia ver muito longe.

Voltei a apanhá-los junto ao cruzamento com as EN525 e EN524, sendo que
iríamos nesta última até Querença, pois o caminho junto à ribeira, durante o
reconhecimento, estava cortado por causa de um desmoronamento de terras.

Finalmente, Querença
Não demorou muito a aparecer a placa mais ansiada, Freguesia de Querença! E
claro, a já mítica subida, por uma calçada estreita e muito, muito inclinada
até ao Largo da Igreja, que infelizmente estava em obras. No meio da subida
vimos uma placa a dizer “Calçada Medieval”, ou seja, podia ter sido bem
pior!

Como fui dos últimos a chegar, já só tive direito a banho de água fria. A
freguesia de Querença é pequena, infelizmente os balneários não estão
dimensionados para tanta gente. Se aos primeiros sabe bem ficar uns minutos
debaixo do chuveiro, depois os últimos têm de tomar banho de água fria.

Mas o melhor estava mesmo no fim. Um divinal porco no espeto, que apesar das
horas tardias a que cheguei ainda estava quente, salada de arroz, pão,
fruta, vinho, sumos. Um muito obrigado a todo o pessoal da J. F. de Querença
por ter abdicado do descanso de domingo para nos receber tão bem.

Soube também muito bem voltar para Setúbal de autocarro, em vez de vir
apertado de carro. Pensava que o pessoal ia dormir a viagem toda, mas afinal
já tinha recuperado as energias gastas e aproveitou para meter a conversa em
dia e contar as aventuras do Raide.

Mas alívio foi só mesmo em Setúbal, quando alguns minutos depois do
autocarro, chegou o camião com as bicicletas e a bagagem. Felizmente tudo
tinha corrido bem, nada de muito importante falhou na organização. Ufa! Pior
foi ir trabalhar no dia a seguir…

Agradecimentos
Para terminar, umas palavras de agradecimento às pessoas/entidades que nos
apoiaram na organização: A transportadora FTS, com o camião para transportar
as bagagens e as bicicletas, a Rotas e Sistemas, com a sempre reconfortante
viatura TT, novamente à Junta de Freguesia de Querença e à Câmara Municipal
de Odemira (pelo pavilhão gimnodesportivo). Por fim, ao António Malvar, da
Ciclonatur, pelo apoio que deu ao nível de peças sobresselentes, mas
principalmente, por ter contribuído por vulgarizar o uso do GPS nas
bicicletas, o que nos permitiu organizar um evento deste tipo.

Obrigado também a todos os participantes e espero que até para o ano!


Rui Sousa

quarta-feira, 16 de maio de 2007

RELATO II RAIDE BTT SETÚBAL - ALGARVE - parte I - texto: Rui Sousa, fotos: Ricardo


Já com algum atraso (o empeno foi grande), aqui fica o relato do II Raide
BTT Setúbal - Odemira - Algarve da FPCUB, vista de fora (como organizador) e
de dentro (como participante).

Dia 0:
Foi o dia mais difícil dos 3. Felizmente tirei a tarde de férias e mal sai
do trabalho começou a correria. Um almoço rápido e 1ª paragem na Ciclonatur,
para ir buscar o material suplente de apoio ao Raide. A 2ª paragem no Aki
para comprar zip-ties, a 3ª paragem em Benfica, na Pastelaria Nilo (onde
trabalha o meu pai) para ir buscar caixas de cartão para proteger as bikes
no regresso. Por fim, ir à FPCUB imprimir e plastificar os dorsais e as
etiquetas da bagagem, além de combinar os últimos detalhes. Ufa!

Ainda faltava arrumar tudo dentro do carro. O que vale é que a mala parece
que estica e lá coube a tralha toda! Com tudo isto só me deitei depois da
meia-noite, para acordar às 5:30. Vida dura esta :).


Dia 1:

O nervoso da partida.
Tínhamos encontro marcado em Setúbal às 7:00, metemos o material todo na
pick-up e fomos apanhar o ferrie das 7:15. No ferrie havia 2 tipos de fauna
bem distintos: os trabalhadores da construção civil dos empreendimentos de
Tróia e uns tipos com ar estranho, todos vestidos com uns calções de licra
pretos e uma camisolas coloridas. Mas não estamos em Dezembro nem têm pneus
finos, não deve ser o Tróia-Sagres versão primaveril!

Felizmente os nossos contactos com o São Pedro funcionaram bem e a chuva
prometida estava longe do horizonte. O ambiente era de festa e ansiedade.
Aproveitamos o tempo da viagem para ir conhecendo os participantes (se bem
que grande parte eram velhos amigos destas andanças) e distribuir os
dorsais.

À saída do ferrie instalamos a confusão! Bicicletas por todo o lado, o
camião a receber a bagagem, toda a gente a acabar de preparar-se para a
grande aventura. Havia problemas de ultima hora com o GPS, pois trabalhar
com a caixinha ainda era novidade para alguns dos participantes. Eu apanhei
um grande susto, pois perdi o meu saco de bagagem. Felizmente alguém já o
tinha atirado para dentro do camião, e lá apareceu no fundo atrás de todos
os outros.

Faltava ainda uma equipa. Costuma-se dizer que quem está mais perto é o
ultimo a chegar, e a regra confirmou-se. Faltavam os OTT 4, que ficaram a
dormir em Tróia. Mas estavam perdoados, tinham vindo do norte no dia
anterior! Lá apareceram, foi feito um pequeno briefing e rumámos a Sul!


Aquecimento à la Tróia-Sagres
Como tínhamos 6 guias, ficamos divididos em 3 grupos. À frente, por serem os
mais rápidos, os Super-Travesseiros (para quem não sabe o que isto quer
dizer, vão participar no TransPortugal organizado pela Ciclonatur –
www.supertravessia.com) Jorge Manso e Cláudio Nogueira. Numa posição
intermédia, o Pedro Roque e eu. Atrás, a fechar a caravana, a Marta Vieira e
o Luís Triguinho, que esteve no estaleiro e queixava-se que estava a andar
pouco e gordo. Pois, pois…

Deixamos partir o pelotão e seguimos. Apesar do alcatrão, é uma zona bonita,
ali entalada entre o rio à esquerda e o mar à direita. Pena não haver um
trilho com o piso duro, pois com 140 km pela frente não se pode desperdiçar
energias a patinar na areia. Mas é uma forma de relembrar os já muitos
Tróia-Sagres em que participei e constatar a diferença que fazem os pneus
finos naquele piso.


No mundo do arroz
Rapidamente se chega à Comparta, onde íamos aproveitar o troço da Vala Real
para sair um pouco do asfalto e pedalar pelos famosos arrozais. Aproveitei
para parar e besuntar-me com o protector solar, porque o Sol já queimava.

A pequena paragem foi suficiente para que quem vinha atrás nos apanhasse.
Passaram os OTT4, os Alfa e os Averisbike. Os Averisbike tiveram um problema
com o GPS e vinham à boleia dos Alfa, disseram que iam continuar com eles.
Tivemos que os avisar para não o fazer, pois os Alfa poderiam também
chamar-se TGV, pois também estavam a treinar para a TransPortugal, ainda
vinham a aquecer!!

Como o Triguinho afinal se andava a queixar de excesso de peso sem razão,
trocamos de equipa, indo ele com o Pedro Roque e ficando eu atrás com a
Marta. Um pouco mais à frente estavam os Raposa do Mato parados com um furo,
pronuncio do que se iria passar no dia a seguir.

Este pequeno troço entre a Comporta e o Carvalhal não tem dificuldades de
maior (é um estradão completamente plano), mas ainda bem que é assim, para
se poder apreciar a paisagem. Pedala-se entre um canal de água e os campos
de arroz, que vão mudando de aspecto conforme a época do ano. À direita
temos uma duna com pinheiros e outras árvores de grande porte, que protege
esta estreita faixa de terreno da força do mar. Olhando para cima, temos o
céu repleto de pássaros de todos os tamanhos, que aproveitam os arrozais
para se alimentar, numa feliz comunhão homem-fauna.


Mais um pouco de asfalto…antes da planície enrugada.
Ao chegar ao Carvalhal, retoma-se o asfalto até Melides, pois a areia nos
trilhos tornam a progressão da bicicleta quase impossível. É uma estrada que
é sombreada por pinhais e também plana, pelo que se chega depressa a
Melides, onde verdadeiramente vão começar as dificuldades.

Ao passar pelo Carvalhal vi os Averisbike parados na Junta de Freguesia.
Tentavam carregar o track no GPS, mas infelizmente não é assim tão simples,
pois é necessário instalar software no PC. Tiveram então que seguir
connosco.



Alentejo plano…onde???
Os Averisbike foram um pouco à nossa frente, mas quando chegamos a Melides
eles ainda estavam lá, pois muitas equipas pararam no café para repor as
energias. Já tínhamos percorrido 45 km! A Marta estava a ter algumas
dificuldades em ganhar ritmo, pois dormir pouco para ela é demolidor. Ainda
por cima estávamos a entrar na parte mais difícil do percurso.

É uma zona de serra, onde se passam barrancos atrás de barrancos. A Marta
vinha cansada, fazia as subidas devagar mas o pior mesmo eram as descidas,
onde era preciso força para segurar a bicicleta e reflexos rápidos para
fugir das pedras. Chegou a considerar ir para o jipe dormir um bocado e
continuar mais à frente, mas como vinham 2 pessoas na viatura, tinha que ir
encaixada no lugar do meio, achou que não ia conseguir descansar!

Mas devagarinho lá foi passando barranco atrás de barranco. Parámos um pouco
e comeu uma barra de doce e uma banana, que um pouco mais à frente começaram
a fazer efeito. Os barrancos também foram ficando mais suaves pelo que o
pior já tinha passado, começamos a pedalar a bom ritmo.

Já a chegar a Santiago do Cacém a fome também começou a apertar comigo.
Comecei a dizer que ia parar para comer todas as porcarias a que tinha
direito, uma bifana cheia de mostarda, uma coca-cola e batatas fritas. Aí a
Marta meteu o turbo e começou a pedalar ainda mais rápido, estava a ver que
era eu que ficava para trás! A fome faz milagres!


Restaurante Carapinha, as melhores bifanas de Santiago do Cacém
Quando chegamos a Santiago do Cacém parámos no Restaurante Carapinha, o
primeiro tasco que aparece no caminho! Afinal não estávamos assim tão
atrasados, ainda lá estavam a acabar de comer umas bifanas em pão alentejano
com aspecto delicioso os KedasBike e os Raposas do Mato.

Comemos todas as porcarias a que tínhamos direito e ainda comprei um
chocolate que se revelou muito útil mais lá para o fim do dia. Sobe também
no final do dia que a bifana vinha em pão alentejano porque as carcaças
tinham acabado. Devia ser considerado crime desperdiçar uma bifana daquelas
com uma carcaça, havendo um pão alentejano tão bom!


A caminho do Paiol, às curvinhas pela serra
Mal saímos das bifanas encontramos os Raposas do Mato a encher os pneus numa
bomba de gasolina, pelo que fomos juntos com eles até à Soneca. Descobrimos
que o irmão gémeo de uma das raposas é colega de faculdade da Marta. Como o
mundo é pequeno!

O percurso até à Soneca não tem dificuldades de maior, mas vai moendo aos
poucos. É um percurso muito belo, no meio dos sobreiros e das azinheiras,
ora sobe, ora desce, ora sobe mais um pouco. Um pouco antes de se chegar à
Sonega passa-se a barragem de Morgavel pelo paredão, uma bela albufeira onde
sopra sempre algum vento. Depois até à Sonega sobe-se mais um pouco, pelo
que a chegada à aldeia é sempre um bom pretexto para comer alguma coisa e
repor energias.


A serra vista da planície
A Sonega marca uma transição na paisagem, pois a partir de agora passa-se a
circular entre campos agrícolas completamente floridos nesta época do ano. É
um tapete colorido que ondula ao sabor do vento, como se estivesse vivo!

A bifana continuava a fornecer energia, a Marta pedalava a bom ritmo apesar
dos já muitos quilómetros efectuados. No entanto com a paragem na Sonega
deixamos de ver os Raposas do Mato e os KedasBike.

Ao chegarmos mais perto da Serra do Cercal apanhamos um estradão que é uma
autêntica AE, óptima para ganhar velocidade e avançar uns bons quilómetros
sem grande esforço.

Após passarmos a estrada N390 acabam as facilidades, fazemos uma descida
cheia de pedra até passarmos a ribeira do Corgo. Como quem desce, sobe, do
outro lado temos de trepar também no meio da pedra, num local onde só os
mais fortes não desmontam.

Rapidamente se chega à estrada N532, que se atravessa para entrar num
estradão no meio dos restos de um eucaliptal cortado este ano. Já começa a
cheirar a Odemira!


Odemira a aproximar-se e as forças a esgotarem-se
Após o estradão no meio do ex-eucaliptal chega-se a Troviscais e a partir
daí o percurso é quase todo em alcatrão. E que bem que sabe o alcatrão
depois de tantos quilómetros, quando já só se pensa em chegar e tomar um
belo banho! Mas as dificuldades não se afastaram, pois a falsa planície
alentejana faz mossa e qualquer pequena subida já parece uma montanha de 1º
categoria.

Fui numa dessas “montanhas” que encontramos os KedasBike, a depenar uma
nespereira! Quando parei ouvi o dono da nespereira a gritar de casa: “Já
chega! Já chega!” A fome é negra!

Chegamos à estrada principal para Odemira, a N120. Estava prometida uma
valente descida até à ribeira do Torgal, mas a gravidade deve ter tido algum
problema e afinal só apareciam subidas, a parte a descer deixou muito a
desejar…

Depois de passar a ribeira já faltava pouco. A Marta já tinha gasto as
reservas todas, vinha em serviços mínimos. Eu tentava incentiva-la, mas não
tive grande sucesso. Já não fizemos um pequeno desvio por terra do lado
direito (será que alguém fez?) e chegamos ao pavilhão por volta das 20:00,
140 km depois.

Que grande jornada de BTT. E amanhã há mais!

Em breve o relato do 2º dia.
Rui Sousa

domingo, 13 de maio de 2007

DEMONSTRAÇÃO PRÁTICA DA TEORIA DA RELATIVIDADE



Hoje, num périplo por Lisboa Antiga, tive ocasião de descer de bicicleta, pela primeira vez, o Elevador do Lavra.

Trata-se do primeiro, dos três funiculares da capital, ligando a Travessa do Forno do Torel ao Largo da Anunciada.

Tem uma extensão de cerca de 188 metros e é, dos três (Lavra, Bica e Glória) , indiscutivelmente o mais difícil de ascender em bicicleta.

Ora, tendo em conta a experiência, várias vezes repetida, de subida muito penosa e extensa, pode dizer-se que, a rapidez com que se desce, prova bem a definição que Einstein deu a um leigo acerca da sua “Teoria da Relatividade”.

Dizia o sábio a um leigo que lhe pedia que lhe demonstrasse o que era essa "coisa" da relatividade: “Ponha sua mão num forno quente por um minuto e isto lhe parecerá uma hora. Sente-se ao lado de uma bela moça por
uma hora e lhe parecerá um minuto. Isto é relatividade!”.

segunda-feira, 16 de abril de 2007

LOUSÃ ACIMA CONQUISTANDO O TREVIM


Tinha pedalado apenas por duas vezes na Serra da Lousã.

Na sexta feira santa tive oportunidade de efectuar um intenso trekking pelas aldeias de xisto serranas (Talasnal, Vaqueirinhos, Chiqueiro e Casal Novo).

Ficou o “bichinho” e, este domingo que passou, resolvi subir ao Trevim (ponto mais alto da Serra da Lousã – 1210 metros de altitude).

Com o meu conhecimento do local (da semana anterior), a carta militar e uns tracks que tinha desenhei um traçado “até lá cima”. Como iria a solo entendi que só passaria por estradões e estradas uma vez que não queria correr riscos inúteis.

Assim foi. Saí da Lousã (180 m.) em direcção a Cacilhas e iniciei a ascensão. Duas centenas de metros volvidos ultrapasso um grupo de cerca de 15 betetistas que iam na mesma direcção, fico a saber que eram de Paços de Ferreira. Quando olho melhor vejo que o guia era o meu velho amigo Vilanova que é uma espécie de “guru” da Lousã (o homem das famosas “Avalanche”). Disse-lhes logo para se porem a pau nas descidas. É que, apesar de ter sido em 2000, ainda me lembro da “razia” que foi a descida da Serra da Lousã “por caminhos de javalis”. Nunca tinha feito tanto tempo a pé um percurso! (veja-se http://www.geocities.com/velocipedia/lousa.htm ).

Sigo o meu caminho solitário passando pelo miradouro da Tarrasteira e, após a passagem pela casa dos serviços florestais (680 m.) interrompendo a subida para virar à esquerda na direcção de algumas das “aldeias de xisto”. Primeiro o Casal Novo (650 m.), em seguida o Talasnal (500 m.) prosseguindo em direcção a Vaqueirinhos (650 m.) e daí por um estupendo “single track” desenhado no xisto até ao Catarredor (650 m.). Refira-se que as duas primeiras aldeias estão o brinco em virtude da sua recuperação recente. Em contrapartida, as duas últimas, servem de abrigo a comunidades “hippie”. Após o Catarredor entro na EN 236 e começo a subir dos 800 aos cerca de 1210 do Trevim.

De assinalar que, por mim, passavam inúmeras viaturas carregadas de bicicletas de DH, costa acima. Mais tarde reparei que se tratavam dos participantes no “Extreme Riders 2007” (http://1.bp.blogspot.com/_DRnHsYu02J8/Rhf3KtO9-PI/AAAAAAAAACw/iWC3uH3Z6pY/s1600-h/Cartazextreme470.jpg ). Engraçado foi quando uma dessas inúmeras carrinhas me propôs uma boleia. Agradeci mas recusei alegando que uma carrinha como aquela ainda era pesada pelo que me custaria muito rebocá-la! Foi a risada geral dentro e fora da viatura...

Chegando lá acima é o espectáculo habitual que nos faz gostar, cada vez mais, de BTT. Do ato do Trevim temos uma vista magnífica para Norte e Poente e, para SE fica o pico de Santo António da Neve também já alcançado há uns anos por nós.

O ER começava, precisamente do Alto do Trevim e era vê-los por aí abaixo a velocidades estonteantes. De resto a descida que tinha programado coincidia, em muitos locais com o ER pelo que era ver-me encostado à berma como o “pisca da direita” a ser ultrapassado por aquela malta toda a uma velocidade estonteante. Restou-me a consolação que não cheguei lá acima enfiado numa caixa de uma pick-up!

Vim por ali abaixo, tranquilamente, não fosse haver algum azar embora tenha sido um instante enquanto perdi os 1000 metros de diferença até ao parque de estacionamento da Câmara Municipal da Lousã.

No final 47 kms. e 1600 metros de acumulado a darem por bem empregue o esforço havido.

quarta-feira, 7 de março de 2007

RECONHECIMENTO DO RAIDE 2007 SETÚBAL – ODEMIRA - ALGARVE

(foto álbum aqui)

Efectuámos o reconhecimento praticamente integral do Raide da FPCUB Setúbal – Odemira – Algarve, versão 2007, no passado fim de semana.

Este reconhecimento tinha três diferentes propósitos:

  • Em primeiro lugar confirmar se, boa parte dos locais onde passámos, no ano transacto, entre Melides e São Marcos da Serra, continuavam a serem válidos;
  • Em segundo lugar, entre as duas povoações referidas, criar, onde tal fosse possível, alternativas a algum asfalto existente em 2006;
  • Por último, entre São Marcos e o final, em Querença, Loulé, reconhecer, integralmente, todo um percurso pela serra e Barrocal algarvios.

Foi com este propósito que me desloquei, acompanhado pelos meus amigos, Jorge Manso, Rui Sousa e Marta Vieira com três bicicletas e uma viatura. A fórmula era simples: alternar o condutor por turnos. Ou seja, enquanto um de nós conduzia, os outros três pedalavam.

Esta é uma fórmula absolutamente válida para cumprir longas distâncias lineares já que permite contornar o sempre complicado problema logístico do regresso. De igual modo há a vantagem de um apoio sempre próximo já que abundam os locais de contacto entre o trilho e a estrada tornando desnecessário carregar demasiado peso às costas. De igual modo permite que se possa descansar, por turnos, mantendo uma velocidade média do grupo mais elevada ou até contornar algum percalço de um participante.

É, de resto, uma óptima sugestão de poder efectuar este Raide no sentido de facilitar o regresso do Algarve já que permite que, no final, se rume directamente aos destinos de cada um.

O reconhecimento decorreu da melhor forma apenas com alguns pequenos percalços de caminho. De resto, se assim não fosse, não haveria necessidade de efectuar um reconhecimento.

O primeiro grande imbróglio surgiu na tentativa, que efectuámos no final do primeiro dia, de encontrar uma alternativa TT à travessia da Ribeira do Torgal pela EN 120, através de um track previamente gravado que detínhamos, mas que resultou num percurso de dureza extrema pouco compatível com o facto de já se estarem com distâncias superiores a 120 kms. nas pernas. De facto foram tantas as voltas, as travessias a vau da ribeira do Torgal (num dos casos com água acima da cintura) as subidas e as descidas escabrosas, algumas pelo meio de estevas e de matagal intenso que achamos que aquela hipótese, de alternativa, nada tinha.

O segundo deles foi a descida até à Ribeira de Algibe a partir de Alto Fica (após Alte) tentando a alternativa à EN 524. Encontrámos um estradão à direita que correspondia, de resto, a um caminho indicado na carta militar. Em má hora o fizemos.

A chuva tinha feito a sua aparição alguns minutos antes. Não sendo muito intensa era, todavia, suficiente para armar aquela que é uma das piores armadilhas que um betetista pode encontrar: o barro vermelho. A famosa “terra rossa” algarvia, com um pouco de água torna a progressão impossível já que as rodas deixam de andar, pura e simplesmente!

Se a este infortúnio juntarmos o facto de o referido percurso de não ter qualquer saída após cerca de um quilómetro fortemente descendente. Resultado: um quilómetro ascendente, a empurrar, à mão, trilho acima, pelo meio do barro vermelho uma bicicleta cujas rodas teimavam em não rolar.

A descida que se seguiu, desta vez pela EN 524, foi muito rápida e serviu para sermos barbaramente atingidos por quantidades inimagináveis de gravilha e barro soltada pelas rodas rolando. Valeu-nos, uns metros abaixo, a ribeira de Algibe que ajudou a desfazer tudo.

Esta situação fez-nos perder largos minutos, preciosos, o que resultou numa chegada nocturna a Querença que foi uma espécie de calvário final depois de uma jornada extenuante mas inesquecível.

No final mais de 270 kms. (140 + 130) a prometerem emoções fortes para a jornada programada para 21 e 22 de Abril, que não estará ao alcance de todos é certo, mas que recompensarão quem estiver preparado com passagem por paisagens encantadoras ou mesmo arrebatadoras em alguns dos casos.

DIA UM

1. SETÚBAL - MELIDES

Simbolicamente o início é em Setúbal e o trajecto tem uma neutralização até Tróia correspondente à travessia do Sado em ferry.

Daí até Melides circula-se por asfalto. Há um motivo claro e incontornável para esta opção: o facto de os terrenos que distam entre Tróia a Melides serem bastante arenosos e ser impossível circular por esses pinhais. De qualquer modo rapidamente esta distância é vencida já que os declives são mínimos. É, se quiserem, um aligeiro aroma a Tróia - Sagres.

2. MELIDES – SANTIGO DO CACÉM

Aqui começa, verdadeiramente, o raide ou, pelo menos, a sua versão TT.

Este primeiro troço é dos mais interessantes em termos de paisagem já que corresponde, integralmente, a uma zona da serra de Grândola que, como todos sabemos, é dos locais mais aprazíveis para a prática do BTT.

Vencidos os primeiros quilómetros até Vale Figueira começa a rotina dos barrancos, tão característicos destas serras do sul de Portugal.

O primeiro é o do Livramento. Trata-se de uma descida forte com diversos cotovelos à esquerda e à direita, que conferem uma enorme agradabilidade a quem monta a bicicleta.

No final, a travessia da correspondente ribeira e a forte subida a exigir um empenhamento extremo. A paisagem envolvente é suprema constituída, sobretudo, por floresta de sobro num ambiente tipicamente mediterrânico a que nem faltam sequer os aromas fortes a esteva. Fantástico!

A seguinte e muito semelhante é a do Moinho numa reedição do relevo e da paisagem e do modo de a abordar em bicicleta.

Estas são as primeiras subidas dignas desse nome e que motivarão o primeiro grande desgaste físico. Após a travessia deste último barranco alcançaremos a EN 548 e nela cruzaremos, através de uma passagem inferior, o IP8 e alcançaremos Santa Cruz onde começaremos a subir para Santiago do Cacém por estrada para a abandonarmos à direita e contornarmos o limite urbano por poente.

3. SANTIAGO DO CACÉM – PAIOL

Entramos então na EN 261 – 3 que abandonaremos logo de seguida na zona industrial pelo lado esquerdo e, após o final da mesma, seguiremos pela EM 1100 e, a dada altura, viraremos para poente para, passado mais de um quilómetro, retomarmos a direcção sul.

A travessia do Barranco da Velha está muito facilitado se comparado com os anteriores Livramento e Moinho pelo que, rapidamente, continuamos a pedalar para sul, por uma zona de serra, muito bonita, em direcção ao Paiol que é alcançado rapidamente.

4. PAIOL – SONEGA

No Paiol seguimos, para sul, em direcção à Barragem de Morgavel, passando pela Estação de Tratamento de Água, por uma zona relativamente plana antes e após o plano de água represado.

Após a passagem do paredão surgem algumas dificuldades circunstanciais relacionadas com a presença de areia mas que são vencidas sem problemas de maior. A chegada à Sonega faz-se através da travessia de Vale de Meio por uma subida contínua mas relativamente suave.

5. SONEGA – TROVISCAIS

A partir da Sonega temos pela frente a Serra do Cercal que iremos contornar por poente por forma a que não seja exigido um esforço acrescido tendo em consideração que ainda faltam alguns quilómetros e que já se pedalaram bastantes. Assim sendo prosseguimos durante cerca de 300 metros na EN 120-1 que abandonaremos à direita para um estradão que segue para sul.

A dada altura pedalamos para poente para contornar os montes e desceremos até à EM 1116 por onde seguiremos até ao seu final em Godins e transporemos o corgo (pequeno barranco) do mesmo nome subindo até Adail sempre com a serra a nascente embora atravessando um estradão com um pouco de areia mas nada de muito difícil.

Cruzaremos a EN 390 e continuaremos sempre para sul por trilhos no meio do eucaliptal escoltando os montes no sopé da serra.

Após o Monte do Amarelinho, para SE. Circularemos por um estradão largo e rápido em zona de eucaliptal até Vale Bejinha após o qual circularemos pela EM 1100 que abandonaremos para sul na zona da Carrasqueira e rapidamente chegaremos aos Troviscais.

6. TROVISCAIS – ODEMIRA

Este troço, à falta de alternativa válida em todo o terreno para a travessia da Ribeira do Torgal, será efectuado por estrada.

Circulamos, assim, entre Troviscais e Castelão pela EM 1110 – 1 e após esta localidade pela EN 120 até Odemira, num percurso maioritariamente descendente e onde cruzaremos a referida Ribeira. Após os metros iniciais da subida saímos à direita num percurso fortemente ascendente mas que permitirá vencer o desnível fora do asfalto. Ao retomarmos a EN 120 restam algumas poucas centenas de metros, desta vez a descer, até ao desvio que nos levará até à zona do Pavilhão Municipal de Odemira final deste 1.º dia.

DIA DOIS

7. ODEMIRA – PORTELA DA FONTE SANTA

Optámos por um percurso diferente, evitando o asfalto e, em boa hora o fizemos já que iremos circular num percurso de indescritível beleza junto ao Rio Mira. Ainda há zonas assim em Portugal. Admirável!

Descemos até ao centro de Odemira, viramos à esquerda na rotunda, e circulamos na avenida marginal mas, ao invés do ano anterior, não cruzamos o rio e continuamos até ao cemitério e ao canil municipal e daí por um incrível single track na margem. A partir de dada altura tomaremos um estradão que vai acompanhando os caprichos morfológicos do Mira curvando languidamente à esquerda e à direita, com visões fantásticas do plano de água e da sua relação com a serra e a vegetação envolvente.

A dada altura, alguns quilómetros volvidos, dá-se a fácil passagem a vau do rio. Apesar de, a montante, termos um pontão. Daí até à Portela da Fonte Santa é uma subida contínua.

8. PORTELA DA FONTE SANTA – VIRADOURO

Este trajecto será efectuado pela estrada que liga a Portela a Sabóia e Viradouro e que circula junto à margem esquerda do Mira. Esta estrada está, toda ela, recuperada e tem um traçado, bermas e uma visibilidade excepcionais. Para além disso o tráfego é diminuto e nestes quilómetros poderão contar-se pelos dedos de uma mão o número de carros que connosco se cruzam. É assim um interregno asfáltico agradável e que nos fará avançar vários quilómetros em pouco tempo.

9. VIRADOURO – SÃO MARCOS DA SERRA

Junto ao Viradouro há uma pequena ponte sobre a Ribeira de Telhares que iremos cruzar. A partir daí circulamos sempre por terra e junto à ribeira e ao caminho de ferro até chegarmos ao asfalto de uma estrada secundária e a Pereiras Gare.

Ao contrário do ano transacto evitaremos o asfalto e circularemos pelos montes até São Marcos, num percurso delineado num relevo algo exigente, cruzando a fronteira para o Algarve e o concelho de Silves alcançando então São Marcos da Serra.

10. SÃO MARCOS DA SERRA – ALTE

A partir daqui tudo é novo.

Por isso o esforço de reconhecimento teve de ser acrescido por forma a se cruzar longitudinalmente boa parte do Barrocal e Serra algarvios. Essa tarefa podia ser algo de muito penoso mas, felizmente, conseguimos suavizar a altimetria seguindo o curso de muitas ribeiras que seguem o seu curso com uma orientação poente – nascente, ou vice versa que são cruzadas inúmeras vezes a vau.

É assim até se cruzar o rio Arade, também a vau, onde o relevo começa a acidentar gradualmente. Após a passagem sob a A2 segue-se o curso da ribeira do Gavião passando por Vale Figueira, Marreiros e Corchica e, após se cruzar a mesma começa uma longa subida até Santa Margarida e daí a descida até Alte e por dentro desta localidade.

Aqui parece que a paisagem muda por completo e a opção de abordar Alte a partir do seu topo revela-se acertada já que, dessa forma, se capta toda a mística que converte esta terra numa das mais pitorescas e genuínas do Algarve, quiçá de Portugal. Boa parte da sua malha urbana é percorrida em sentido descendente num percurso de extrema agradabilidade, neste caso urbana.

11. ALTE – QUERENÇA

Cruzando a ponte sobre a Ribeira de Alte rola-se, por alguns momentos na EN 124 para se sair, para a direita por um percurso fantástico entre laranjais e com montanha de um lado e de outro junto ao Barranco da Vala Grande passando por Charneca da Nave, Nave dos Cordeiros, Beirão e abordarmos a penosa subida, por uma rampa de asfalto, até ao Espargal e daí até Alto Fica onde se toma a EN 524 no sentido descendente e em alta velocidade até à famosa Ribeira de Algibe.

Segue-se então por um rápido caminho sempre junto à margem desta até à EN 525 retomando, junto a Ponte de Tôr, a EN 524 há falta de melhor alternativa para chegar a Querença (o velho “caminho do Morgado” junto à ribeira de Algibe, a partir de Ponte de Tôr está, a partir de dado ponto, impraticável). São apenas dois quilómetros com pouca densidade de tráfego até à Quinta da Passagem onde se inicia a subida para a aldeia de Querença.

A chegada ao largo da aldeia é mítica através do caminho da Portela uma subida com uma inclinação superior a 10%, em média e que, em cerca de um quilómetro nos leva, por um empedrado, dos 150 aos 270 metros de altitude.

É um final apoteótico a garantir ficar retido na memória por muitos e bons anos.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

"No Sicó é que é Bom!" (pregão ouvido no PNSAC)


Lancei o desafio para uma deslocação ao Sicó. Como, nos últimos tempos, tenho ido alguns fins de semana a Coimbra lembrei-me de convidar, quem não é daquela zona, a ir conhece-la. Responderam, além do Jorge Manso, o Pedro Rodrigues, o Cláudio Nogueira, além do "local staff" de Coimbra: Nuno Duarte, João Elvas e o Ricardo.


Devo dizer que a Serra do Sicó é uma caixinha de surpresas uma vez que é um misto do calcário do PNSAC com paisagens menos "lunares" e bem mais pitorescas.


É como se a Serra da Arrábida tivesse sido transportada para a zona centro! Basta apenas retirar o mar e temos toda uma ambiência muito semelhante embora com níveis de ocupação humana substantivamente inferiores.

Os grandes destaques vão para

. a subida e descida do Castelo do Rabaçal (este é um dos gratos momentos do BTT se bem que a subida seja das mais difíceis que conheço e a descida dos momentos técnicos mais delicados da minha "carreira").

. A descida "impossível" da Chanca, com os seus incríveis socalcos (mas que afinal, não só é possível, como empolgante - muita parcimónia, porém, no uso do travão dianteiro).

. O vale das "Buracas do Casmilo" numa formação geológica única, só por si a merecer a deslocação ao Sicó.


Começámos perto das dez horas e percorremos quase 60 quilómetros, tranquilamente, como se impõe entre amigos...


O golpe de teatro foi, no final, ter-me esquecido da roda dianteira em pleno estacionamento de Conímbriga. Meia hora depois, dei pela falta, voltei lá e, candidamente, a roda aguardava-me no mesmo local!


O track está disponível em http://www.forumbtt.net/index.php?topic=15117.0#new

Mais informações sobre a interessantíssima região do Sicó em http://terrassico.lac.pt/index.php?obj=front&action=rub_index&rub_id=156