quinta-feira, 13 de agosto de 2009

SUSPECT !


Incredible: in Oporto, a commuter cyclist gets a fee for spinning in the side-walk!


Segundo o JN - "Um professor foi multado por andar de bicicleta num passeio do Porto. José Maria Sá está incrédulo. Diz que só tinha preocupações ambientais. Mas com isto desiste. Vai voltar a andar de carro e talvez comprar uma "Vespa".

Se não fosse grave era absolutamente risível.

Então um indivíduo toma a decisão corajosa (em Portugal, bem entendido) de circular de bicicleta e arrisca uma multa apenas porque resolveu atalhar um pouco em cima do passeio? Já sabíamos que os cães não gostavam de bicicletas e de ciclistas mas, pelos vistos, alguns zelosos elementos das autoridades policiais alinham pelo mesmo diapasão.

Será a evolução das espécies?

Pelo ao menos ao nosso Arsene Lupin de Évora nenhuma autoridade lhe pôs a vista em cima!

terça-feira, 11 de agosto de 2009

ENVIRONMENTAL FRIENDLY CRIME

In Évora, Portugal, a mail station was assaulted by a man that escapes in a bike.

Em plena silly-season, a atenção mediática de ontem quase foi monopolizada pelo bem sucedido golpe de mão perpretado pelo sector monárquico do blogue "31 da Armada", ao hastear a bandeira da monarquia constitucional em plena varanda da CML.

Todavia um outro evento deve igualmente merecer a nossa melhor atenção. Trata-se de o primeiro assalto verdadeiramente ecológico.

Com efeito, um homem encapuzado assaltou, na segunda-feira, por volta das 09:45, a dependência dos CTT localizada nas Portas de Moura, no centro da cidade de Évora, tendo roubado algum dinheiro e fugido de seguida de bicicleta.

Apesar de se tratar de um crime e, como tal, dever merecer o repúdio generalizado, tem como atenuantes, o facto de, pelo menos desta vez, o ladrão tera actuado de modo ambientalmente sustentável, de ter contribuido para reduzir a dependência energética de Portugal relativamente ao exterior; de ter contribuido para um melhor ambiente urbano ao optar por um modo de transporte suave e, por último, de não ter contribuido para ao aumento dos gases com efeito de estufa na atmosfera ao ter escolhido um modo de transporte limpo, não emissor de carbono.

Caso seja presente perante a justiça esperemos que a sua mão pesada não se faça sentir com tamanhos argumentos atenuantes.

RESTAURAÇÃO DA MONARQUIA CONSTITUCIONAL EM PORTUGAL - 10 DE AGOSTO DE 2010

Inesquecível este golpe de mão do sector monárquico do blogue "31 da Armada". Sério e hilariante a um tempo!

domingo, 9 de agosto de 2009

SPIN, SPA & WAR


Ramalhal, Santa Cruz, Vimeiro, Ramalhal
Circuito BTT - 75 kms
Pedro Roque e Jorge Cláudio
8 de Agosto de 2009

Track GPS aqui

Foto by: Porainanet

Confesso que esta é uma zona da chamada “região oeste” que desconhecia. A recente passagem pelo Vimeiro, a caminho do Bombarral despertou a minha curiosidade sobre a mesma.

Compilei então um track GPS a partir de alguns materiais que tinha em arquivo. A ideia era efectuar um passeio circular, no sentido horário, ligando o Ramalhal à costa e regressar. Dou com um perímetro que visualmente se assemelhava ao contorno da ilha da Madeira, ainda que, a efectuada extensão táctica a Santa Cruz, tenha acrescentado um apêndice não planeado e aumentado, a um tempo, o contorno, a quilometragem e a satisfação.

No fim-de-semana anterior, em virtude de um incidente operacional de última hora, já no Ramalhal, não pudémos efectuar o trajecto planeado mas, este sábado, na companhia de Jorge ressuscitado Cláudio, a execução foi perfeita. No final uma distância de 75 kms e 1,4 km de altitude acumulada positiva a revelarem-se com a dureza ideal para estados de forma comparativamente pouco apurados em função da presente inconstância temporal do condicionamento físico.

O início deu-se no Ramalhal e, tal como no sábado anterior, repetiu-se o ritual do café e pastel de nata. Seguimos para poente mimetizando, a cota superior, o traçado do vale do rio Alcabrichel, internando-nos, a princípio, pelos eucaliptais e pinhais da zona até perto de A-dos-Cunhados e do Sobreiro Curvo.

Descemos então de cota até ao vale do rio e às Termas dos Frades onde efectuámos uma pausa técnica junto ao buvete. Como não possuíamos uma “receita médica” nem nos atrevemos a experimentar as águas, ficando-nos pelas do depósito do Camelbak. Sem embargo deu para constatar a incrível beleza natural do local, junto ao Alcabrichel, aqui bem encaixado entre ravinas. Foi, precisamente pela ravina a sul que seguimos até ficarmos, no seu topo, com a Praia de Santa Rita e o Porto Novo bem à vista, lá em baixo, num panorama estupendo que só o BTT sabe proporcionar.

A ravina torna-se agora concordante com a linha de costa e acompanha-mo-la para sul até à Póvoa, onde rumamos a poente para descermos a Santa Cruz e percorremos parte da chamada Ecovia do Sizandro (neste caso a ciclovia que liga estas duas praias). Confesso que já não visitava Santa Cruz desde o último milénio. A terra está encantadora com um visual limpo e agradável num arranjo urbano novo e de qualidade junto à praia. Recomendo a visita.

Restabelecidas as energias no paredão da praia, foi tempo de seguir pela linha de costa, na arriba sobranceira, acompanhando o traçado da GR 2 que por ali passa. Tal como no anterior troço da ravina, a elevada exigência técnica requerida aqui, era compensada pela satisfação que o acto de pedalar nos devolvia. Foi, porventura, a parte mais agradável da incursão.

Após Santa Rita e chegados a Porto Novo, avançamos pela pequena terra. No local situa-se a foz do Alcabrichel e foi onde, em 20 de Agosto de 1808, desembarcaram duas brigadas inglesas decisivas na vitória do Vimeiro, sobre os franceses, no dia seguinte. Aqui a tentação deu-se na forma de travessas de sardinha assada que os comensais das várias esplanadas devoravam sem piedade e incomparáveis com a frugal sanduíche que havíamos ingerido em Santa Cruz. Houve que resistir estoicamente e seguir pedalando.

Subimos penosamente a arriba, junto ao hotel e seguimos para norte, em novo percurso técnico paralelo à linha de costa, durante um par de quilómetros, até flectirmos para nascente. Começamos o regresso ao Ramalhal. Primeiro a descida para Maceira, onde situa a entrada das Termas e onde reencontramos o vale do Alcabrichel.

Tempo de avançar até ao Vimeiro subindo até ao monumento evocativo da decisiva batalha, inaugurado há 101 anos. Na comemoração de 2008 (duplo centenário) foi inaugurado um estupendo centro de interpretação que foi por nós visitado. Foi altura de descanso e de se observar um didáctico vídeo recreando digitalmente as batalhas de Roliça e Vimeiro . A batalha do Vimeiro foi decisiva e pôs termo à primeira invasão napoleónica permitindo libertar Lisboa que não mais seria ocupada.

Completámos o regresso via Carrasqueira, Cabeça Gorda e Campelos. No final a sensação de (mais) um excelente dia, como só a bicicleta de montanha e uma dose salutar de espírito de aventura sabem proporcionar.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

The Largest Bicycle Tunnel

A cidade de San Sebastian (Donostia) inaugurou o mais longo túnel para bicicletas do mundo. São, nada mais nada menos de dois quilómetros num desactivado tunel de caminho de ferro.

Leia-se a notícia aqui

segunda-feira, 13 de julho de 2009

UM PORCO A ANDAR DE BICICLETA

A expressão é utilizada para demonstrar um estado de credulidade e em que tudo é possível.

Apesar de ser usada amiúde o que é certo é que, pessoalmente, nunca vi nenhum suíno pedalando.

Nunca até visualizar este clip...


quarta-feira, 1 de julho de 2009

RESCALDO DA SOPA E PEDRA





por João Noiva Gonçalves

Olá a todos,

Antes de deixar algumas notas sobre esta actividade velocipédica, lamento informar que a organização decidiu não devolver os custos de inscrição aos que por motivos de última hora (ou atmosféricos) não puderam estar presentes.

Quanto à Sopa de Pedra não vou tecer grandes comentários pois essa tarefa cabe aos 7 bravos que tiveram o prazer de pedalar (comigo e com o Rui) num domingo que amanheceu chuvoso mas que depois se tornou numa agradável jorna para a actividade velocipédica.

Deixo apenas uma notas de rodapé:

Rui, a orientação mais uma (desta) vez não falhou, 6 estrelas.

Agradeço ao David por ter transportado a minha máquina fotográfica, que acabou por tirar 0 fotos.

Durante o percurso com cerca de 60 km e 1980 m de acumulado o homem da marreta resolveu manter-se quieto até ao km 55, altura em que decidiu atacar o Vítor que retornou aos BVMA por risco preto.

Ao Triguinho desejo as melhoras da manete direita do travão (ainda não foi desta que partiste material no PNSAC).

Cláudio, espero que não tenhas ficado viciado na pedra.

Pedro, quero a review da máquina que resiste a vários tombos enrolada no desviador e que depois de passada a ferro pela roda traseira continua a tirar fotos.

Leonel, espero que a volta te tenha servido para melhorar a técnica.

Mega, finalmente puseste à prova a tua nova máquina e desta vez nem ao chão foste (mas esteve perto).

A todos um bem haja e até à próxima vez,

Vivam os calcários

terça-feira, 26 de maio de 2009

A HARD BUT SUCCESSFUL LONELY TASK


24MAY09

Gare de Santa Apolónia, Lisboa - Bombarral

Distância: +- 140 kms.

Velocidade Média: +- 15 kms./h.

2.600 metros altitude acumulada positiva

Concelhos percorridos: Lisboa, Loures, Mafra, Torres Vedras, Lourinhã e Bombarral

Distritos percorridos: Lisboa e Leiria

Há algum tempo que não pedalava de modo tão duro. A ideia era ligar Lisboa às Caldas da Rainha e, para isso, era necessário tomar o comboio em Sete Rios pelas 06:11 da manhã (sim, leram bem). A compilação do track GPS que efectuei dava-me perto de 150 kms. (até, ou desde a zona da ponte Vasco da Gama) excluindo a ligação a Santa Apolónia.

Para isso estava preparado e consciente, simplesmente a insónia invadiu-me a mente até tarde e resolvi que, enfrentar semelhante desafio com um número exíguo de horas de sono, não era viável. Assim sendo resolvi inverter o sentido da incursão e sair de Lisboa a pedalar ganhando duas horas extra nos braços de Morfeu, essenciais para rentabilizar a estamina aos comandos do velocípede. A companhia pedalante, desta vez, ficou nos mínimos, ou seja alinhámos “três” ciclistas à partida: me, myself, and I.

De facto, a clientela habitual deste tipo de desafios cedo procurou alternativas mais tranquilas, até porque esta incursão era apontada com a classificação máxima, isto é, “só para homens de barba rija”. Assim as escusas sucederam-se ao longo da semana: defeso por causa do joelho, num caso; rentabilização de investimento em hardware (private joke) , noutro ou ainda elaboração de trabalho final de semestre. O que é certo é que já não há betetistas como antigamente (*).

Saí de casa perto das 08:00 e tomei o metropolitano até Santa Apolónia: Curiosamente iniciei o percurso a chover embora por pouco tempo, seria a única aparição pluvial do dia, de resto. Os quilómetros iniciais até ao Parque das Nações foram efectuados pela estrada do Porto de Lisboa que, ao fim de semana, se converte, por milagre numa autêntica ciclovia. Apesar do vento frontal o ritmo era vivo até porque, o cálculo de tempo disponível para levar de vencida o desafio, não deixava grande margem para comportamentos excursionistas. Assim, até Sacavém, a média estava em cerca de 22 kms./h. muito embora o pior ainda estivesse para chegar.

A passagem pelo troço do Trancão é sempre um momento agradável mas, a partir de dada altura, em virtude do dilúvio da véspera, o terreno revela toda a sua perversidade sob a forma de lama e barro. Não só a velocidade começa a ficar comprometida mas também a integridade da afinação, paulatinamente, se degrada. Foi um choque que haveria de aumentar, ainda mais, as dificuldades já expectáveis em termos de quilometragem e altimetria. A partir de dada altura virei para NW e iniciei um interessante e bucólico périplo pela chamada Várzea de Loures até Santo Antão do Tojal, povoação onde, confesso, nunca tinha estado. Trata-se de um local muito interessante do ponto de vista histórico-monumental muito em função do seu Palácio da Mitra, antiga residência de Verão dos patriarcas de Lisboa com um baroquíssimo fontanário verdadeiramente monumental.

A partir do Tojal acabaram-se as facilidades, digo, o terreno plano já que, em virtude do barro, a progressão estava já anteriormente complicada. Foi tempo de subir até Fanhões. Curiosamente muitos betetistas pela zona que fui passando um por um sem, todavia, entrar em exageros anaeróbicos já que “a procissão ainda estava no adro”. De Fanhões a dura subida mais se empertigou ainda até ao Forte das Ribas de Cima. Sem exagero foi uma ascensão vertical de cerca de duzentos metros, lenta, penosa e a exigir muito empenho. Foi tempo de circular no topo da arriba sobranceira ao vale. Já conhecia bem a zona das famosas e duras incursões de reconhecimento da segunda linha defensiva de Torres Vedras. Após um sobe e desce divertido lá cheguei ao sopé do imponente cabeço de Montachique. Como ainda tinha muita quilometragem por diante nem ousei subi-lo, aliás tal não era rigorosamente necessário, bastava apenas contorná-lo para descer até à A8.

Devo confessar que, neste ponto, em função do ritmo imprimido e com a visão das montanhas para o lado da Malveira, a tentação apoderou-se de mim e pensei voltar para trás. O sector bom e justo da consciência, todavia, aguentou firme e demoveu o lado negro de recuar. Logo retomei o caminho com o vigor renovado.

A descida do cabeço até à A8 é muito técnica e absolutamente deliciosa, pelo meio de um azinhal fabuloso, com uma pendente muito forte o que, curiosamente, me teria impedido de ascender montado, no sentido contrário. Transposta inferiormente a A8 foi altura de nos internarmos no reino das montanhas que só largaria muitos quilómetros volvidos, já perto da Encarnação.

Não deixa de ser curioso que o Duque de Wellington comparou a cintura montanhosa, que cerca a norte Lisboa, aos Pirinéus. Não se trata propriamente de um exagero. Se bem que não disponham de uma altimetria semelhante a esta cordilheira (circula-se entre os 250 e os 450 metros) têm, todavia, um perfil ascendente e descendente parecidos com a de alta montanha e isolam defensivamente a capital portuguesa tal como ficou provado há duzentos anos atrás na terceira invasão francesa da Guerra Penínsular. Dos seus altos as vistas em redor são impressionantes, quer pelos vales que se avistam, quer pelos perfis montanhosos em volta.

Até chegar à Encarnação, percorrendo uma pequena parte do concelho de Loures, mas boa parte do de Mafra, a deslocação pode resumir-se a subir e a descer vales profundos vezes incontáveis. Esta primeira parte, até à Malveira, que desconhecia, apesar de muito dura é bem interessante do ponto de vista paisagístico, chegando a dar ares de parque natural. Chegado àquela povoação, após contornar a Venda do Pinheiro, deparo com uma roulote que diligentemente vendia pão saloio e a famosa merenda com chouriço a que foi impossível resistir. Comprei um espécime e ingeri metade daquele saboroso repasto guardando, para outra ocasião, o restante.

Sigo em direcção ao Jerumelo (a subir, naturalmente) e daí para a fabulosa descida para o Vale da Guarda não sem antes ter sido protagonista de um incidente que poderia levar-me a um contacto mais íntimo com o solo. De facto, em plena descida a roda dianteira passa por uma zona enlameada (até aqui nada de estranho, tal foi uma constante desta travessia). Acontece que se tratava de uma área movediça e exerceu um fenómeno físico correspondente a uma travagem forte da roda liderante. Pânico, por breves instantes, adrenalina no sangue, logo de seguida e, instintivamente, os estabilizadores automáticos de reequilíbrio foram accionados. Sem intervenção consciente, agarro bem o guiador, dou um golpe de rins e, por milagre, evito o pior, mantendo todo o conjunto na vertical e saindo da encrenca, todavia, com o pulso mais acelerado que na mais íngreme das rampas. Valeu que a velocidade não era excessiva.

Reposta a normalidade (sabemos que isso acontece quando gradualmente se recomeçam a escutar os pássaros a cantar) lá segui em direcção ao fantástico Gradil, naturalmente que não sem antes tornar a subir. Há, num betetista, uma tendência filosófica para a “harmonia altimétrica” expressa através de um desejo, cada vez mais profundo em função do decorrer da quilometragem e do cansaço, que os desníveis se esbatam. Assim, à semelhança de uma subida, a descida infindável até ao Gradil foi, por mim, mal recebida já que aos míseros 70 metros de altitude no fundo do vale haveriam de corresponder a uma contraditória e miserável ascensão, Serra do Chipre acima, por um piso abominável. Chegado, “lá acima” continua o “sobe e desce” pelos sucessivos vales abruptos. Após Vale da Abelheira de novo lá para cima até se rolar, finalmente, por uns quilómetros mais ou menos a direito. A velocidade média que, no Tojal ainda superava os 21 kms./h,, estava agora reduzida a uns míseros 13,5 kms./h. !

Estava a chegar ao fim a montanha e, lá embaixo, avistava-se Encarnação e as (supostas) planuras. Desço rapidamente em direcção ao vale do Safarujo que cruzo e começo a contornar a Encarnação e o planura, por milagre, ou talvez não, começa a transformar-se em ondulado ainda que, tendo em consideração o que já deixara para trás, tal constituísse uma altimetria de luxo para rolar.

Infelizmente terminou a montanha mas recomeçou o barro, porca miseria! A transmissão agora começava a dar os seus primeiros problemas técnicos. Primeiro um chainsuck inibidor e irritante que, após oleada a corrente, se mitigava; depois os problemas no desviador dianteiro motivados pelo cabo que começou a romper – a impotência funcional começou pela cremalheira 44, seguindo-se a 22. Felizmente que fortuna juvat audax e restou-me a polivalente 32 a qual, com maior ou menor dificuldade, me permitiu levar de vencida a incursão.

As povoações foram sendo dobradas,uma após outra: Azenhas dos Tanoeiros, São Pedro da Cadeira e Casal da Pedra. Esta entrada no vale do Sizandro foi um autêntico desastre com os caminhos de aluvião virados do avesso com o barro. Parecia estar num combate de mud wrestling e isto durante mais de dois quilómetros. Vencida a provação e cruzada a EN9 lá escapei ao barro e fui cruzando diversas povoações até à Bombardeira e daí para o magnífico Vimeiro onde, apesar da hora avançar rapidamente, fiz questão de visitar o obelisco que evoca a memoria da batalha que pôs termo à primeira invasão francesa da Guerra Peninsular em 1808 mesmo que, para isso, tenha enfrentado uma apurada ascensão dentro da povoação já que o memorial fica bem lá no alto.

Tornei a descer e, de novo, enfrentei uma nova subida de antologia até à Ventosa como forma de evitar seguir pela EN. Já em planalto e após esta povoação cheguei à Pregancia e após uma descida violenta cruzei a EN 8-2 cheguei à Marteleira que subi até às bandas de Nadrupe e daí para Miragaia. Aqui chegado, pelas 18:30 e, estando prevista a saída do comboio das Caldas da Rainha pelas 19:00, foi a altura de divergir, primeiro por um estradão e depois pela EN em direcção ao Bombarral onde cheguei cerca de 20 minutos depois ainda a tempo de passar pela auto-lavagem que devolveu a justiça estética à bicicleta agora contrastante com o aspecto rústico (para ser moderado na apreciação) do ciclista proprietário.

Jornal comprado para viajar, rumei a Lisboa a bordo da confortável automotora azul não sem antes transbordar no Cacém para o rubro suburbano.

No fim tudo está bem quando acaba bem até porque, bem vistas as coisas, a Divindade escreve direito por linhas tortas. Assim, o plano inicial Caldas – Lisboa teria uma quilometragem ainda maior e apresentado a montanha já perto do final logo, uma dureza superior com a agravante do nocturno descanso ser dolorosamente amputado pelo precoce horário da composição ferroviária.

Em suma: a conjugação da quilometragem, da altimetria, do ritmo elevado e da lama fizeram desta a mais difícil incursão dos últimos tempos. Acredito que, com boa forma, piso seco e saída mais temporã de Lisboa, as Caldas estejam ao alcance de quem quiser tentar a sua chance.

Provavelmente voltarei ao assunto em breve, assim haja alguém de barba rija para me acompanhar :-)

_________

(*) farpa com o patrocínio da “Pasta Medicinal Couto” a do artista português :-)


segunda-feira, 18 de maio de 2009

A FÉ DOS HOMENS



Azambuja – Fátima pelo Caminho do Tejo
104 kms.
16MAI09

Fotografia: Mário Silva


Pela sétima vez a ligação a Fátima em BTT.

Longe do mistério e das dificuldade iniciais, nos idos 2000, esta travessia entrou já numa fase de consolidação plena em que, praticamente, se dispensariam o track GPS ou mesmo as inúmeras setas azuis que actualmente povoam o Caminho.

De facto, este Caminho do Tejo, adquiriu já as suas plenitude e maioridade, desde que o percorri, pela primeira vez, em Agosto de 2000, logo após a sua inauguração em Maio do mesmo ano.

Este ano, provavelmente pelo facto de estarmos ainda na semana da peregrinação de13 de Maio, muita gente o estava percorrendo, a pé e de bicicleta. Fiquei satisfeito que o Caminho, finalmente, seja verdadeiramente útil e que se possa constituir como uma alternativa à peregrinação clássica pelas Estradas Nacionais.


Quatro ciclistas à partida e à chegada, o autor destas linhas, Mário Silva, Fernando Silva e Pedro Soares com quem, havia tempo, não pedalava. Como tem sido prática habitual nos últimos tempos, optámos por descartar a desinteressante ligação entre Lisboa e Azambuja optando pelo comboio neste troço.

A partir daqui tudo é paisagisticamente relevante. Em primeiro lugar a vala real, o esteiro e a lezíria da Azambuja até à Valada e ao Tejo, onde ultrapassamos o primeiro grupo de peregrinos pedestres que seguiam tranquilamente junto ao aeródromo. Rapidamente alcançamos Porto de Muge e ficamos com Santarém à vista. Uma constatação positiva para o facto do piso ter sofrido um alisamento evitando aquele rolar constante em cima de uma espécie de chapa ondulada entre Porto de Muge e as Ómnias.

Aí chegados, uma fotografia clássica, junto à torre que indica os níveis das sucessivas cheias do Tejo. De resto o Caminho do Tejo caracteriza-se por uma série de rituais, designadamente pelos locais habituais de paragem e de fotografia.


Uma primeira alteração ao percurso a evitar a subida a Santarém optando por, após as Ómnias, seguir por perto da linha férrea, via Alfange, até à Ribeira de Santarém e retomando a normalidade já após a escalabitana urbe. Na Ribeira um novo waypoint (ou hotspot como lhe chamou MS) onde se podem restaurar as energias a preços módicos, muito perto da estação ferroviária.

Após Santarém começam as supremas dificuldades orográficas e deu para constatar que, a semana agitada que tive, deixou algumas marcas ao nível do rendimento que, sem comprometerem demasiado o andamento, aumentaram o grau de dificuldade desta travessia. Já o tinha notado quando, apesar do pequeno almoço abundante, estava a sentir uma fome inusitada e, agora, nas subidas, estava a pedalar com sono. De facto, o défice acumulado de horas de sono estava a perturbar-me o rendimento e a tornar mais penosa a incursão.


Ainda assim as dificuldades foram sendo vencidas uma após a outra. Depois da terrível ascensão ao cume dos três moinhos um outro traçado alternativo até aos Olhos d' Água se bem que o estado do piso e a necessidade de transpor três portões a impedirem que se aproveitasse devidamente esta solução.

A paragem nos Olhos d'Água é talvez aquilo que há de mais clássico na travessia e aproveitou-se para retemperar as forças para a parte mais dura que é a travessia do PNSAC. Quando retomávamos a direcção de Fátima chega um punhado de betetístas que, como nós, se dirigiam em direcção ao santuário pelo Caminho.


Lá fomos, encosta acima, até às portas de Monsanto onde ensaiamos uma nova alternativa até ao Covão do Feto. Confesso que, a princípio “torçi o nariz” em virtude da experiência alternativa anterior mas, rapidamente, fiquei adepto. Entrámos num vale cársico estupendo, daqueles de compêndio de geologia, com calcário e terra rossa por todo o lado, magnífico!

Após o Covão do Feto nova alternativa para evitar asfalto e nos conduzir até ao parque das merendas no topo da Costa de Minde, em plena Serra d'Aire. Aqui a dureza foi pedra de toque (calcária, bem entendido) já que ao piso cársico se aliava a um trilho muito estreito e ladeado de Carrasco (Quercus coccifera) a produzir uma indesejada esfoliação natural das pernas ao mesmo tempo que os pulmões pareciam rebentar com o desnível que se tinha, inevitavelmente, de vencer. Também a diferença de cota a superar aqui era terrível.


Lá em cima Mário Silva resolve, a entrar no asfalto, testar a dureza do calcário que lhe escoriou, ligeiramente, o joelho numa prática demonstração física de confronto de dureza entre biologia e geologia com vitória, em toda a linha, para a segunda. Valeu o meu insubstituível estojo de primeiros socorros...

Foi tempo de colina abaixo pelo asfalto até Minde, com os 70 kms./h também da tradição. Pela primeira vez, na descida após a primeira curva, reparei que existia um trilho alternativo que abandona a estrada pela direita. Apesar da velocidade logrei travar e abordar essa inusitada sugestão de trabalho que me haveria de conduzir a Minde de modo distinto do habitual. Trata-se de uma vereda muito íngreme e técnica que exige o melhor do sistema de travagem da máquina e da capacidade técnica e do sistema nervoso do ciclista mas que, bem vistas as coisas, deixou uma enorme satisfação, até porque implica uma entrada distinta em Minde, pela sua zona central e bem mais interessante que a tradicional.

Nesta povoação, nova paragem clássica na bem frequentada creperie do mercado, onde surgiu, aparentemente do nada, um ciclista conhecido: estava a rolar até Fátima, integrado num passeio de estrada organizado por uma Junta de Freguesia lisboeta e que, provavelmente, não fora os pneus slick, teria percorrido connosco os quilómetros finais Fátima.

Esta dezena e meia de quilómetros é uma das mais duras já que se tem de retomar a cota dos 450 metros entretanto perdida na descida para Minde. A ascensão faz-se, penosamente, pelo Covão do Coelho acima por novo piso cársico demolidor.


Alcançada a Moita do Martinho, como costumo dizer, “já cheira a Fátima”! É tempo de, velozmente, vencer a quilometragem final, transpor inferiormente a A1 e alcançar, finalmente, o santuário.

Aí chegados c'est la détente. Tempo de cumprir as promessas que adquirem um sabor especial após uma quilometragem elevada. Tenho para mim que peregrinar implica algum sofrimento e nada melhor que vencer a adversidade desta ligação sob a forma de distância e relevo para se valorizar este axioma.

É emocionante estar por diante da Capelinha das Aparições e da Virgem de Fátima. Sejamos, ou não, católicos, há algo de místico naquela ambiência. Resta deixar-mo-nos envolver.


A Fé dos Homens pode não ser suficiente para mover montanhas mas dá-nos forças para as superar, seja ao longo do Caminho de Fátima, seja ao longo do Caminho da Vida...

segunda-feira, 11 de maio de 2009

ALMA ATÉ ALMEIDA!



VIII Maratona de Almeida

10 de Maio de 2009

94 kms.

Fotos: Rui Sousa, APRO e Poraínanet

Quebrei, de novo, a minha regra de não alinhar em eventos organizados.

De resto esta não foi uma maratona normal, fosse pelo número reduzido de participantes (para maratona BTT, bem entendido), pouco mais de duzentos, fosse por determinadas características de rusticidade e de autenticidade que aí esperava encontrar e que, de facto, constatei. Sinal disso foi o facto de, um dos participantes, com uma idade bastante respeitável, estar a pedalar com um casaco de malha. Achei tal facto absolutamente notável.

Para além da simpatia, da organização impecável um repasto final onde se podia encontrar um arroz de feijão digno dos deuses, ainda para mais servido no interior de uma antiga sala abobadada toda em cantaria granítica, em plenas Portas de Santo António, fantástico.

Almeida é, para quem gosta de História, um local pleno de memórias e emoções. Ali se jogou, por mais de uma vez, a independência de Portugal, sobretudo nas guerras peninsulares de que se recorda o trágico episódio do Sacrifício de Almeida quando, em Agosto de 1810, o paiol explodiu perante o fogo cerrado da artilharia francesa que cercava a praça-forte.

A vila histórica, lindíssima, está incrustada no interior da que é, provavelmente, a mais imponente e bem conservada praça-forte nacional, bem ao Estilo Vauban, com uma planta em estrela de doze pontas e três revelins, dominando as terras de Ribacoa e estrategicamente fulcral. Imperdoavelmente sempre tinha passado ao largo e nunca aí tinha estado pelo que, entrar de bicicleta pelas Portas Duplas de Santo António, provocaram-me uma emoção muito especial.

Quanto ao resto, isto é ao BTT, tudo correu pelo melhor. Para além dos detalhes organizativos sem mácula, a que já atrás fiz referência, há ainda a salientar os reabastecimentos, em número de três, situados a cada quarto do percurso de 90 quilómetros com o indispensável para descansar e restaurar durante as breves pausas. O tempo manteve-se instável mas não choveu, nem sequer uma gota, contrariando as horas anteriores e seguintes, as previsões meteorológicas e até as nossas expectativas. A despeito de algum vento o tempo foi o ideal para este evento, nem calor, nem frio.

Havia duas distâncias à escolha, os já referidos 90 quilómetros ou a sua metade, num percurso praticamente comum. Obviamente que optei pelo largo recorrido. Tenho vindo em subida de forma, ainda assim sei bem que este tipo de evento faz com que, muita gente, exceda os limites e esqueça o princípio básico da formiga na fábula: poupar no Verão (enquanto as forças abundam) para poder sobreviver no Inverno (quando já faltam no final).

Assim sendo pus em marcha a minha famosa e patenteada Fórmula G.S.E. (*) que consiste, basicamente, em diversas atitudes contrárias à da maioria dos participantes designadamente:

  • sair nos últimos lugares e tranquilamente;

  • rolar devagar no aquecimento;

  • evitar subidas de pulsação repentinas;

  • fugir dos contactos físicos nas aglomerações e reduzir, de um modo geral, todo o tipo de race hazards;

  • circular, na medida do possível, em grupo, mas manter ritmos aeróbicos nas subidas mesmo que isso implique a desagregação;

  • controlar as distâncias percorridas e ainda a percorrer,

  • et al.

Percorrido o perímetro interior das muralhas, saímos na direcção poente com rumo a tierras leonesas de España, já que, apenas 20 quilómetros desta maratona seriam percorridos do lado de cá da fronteira. Assim, depois de um primeiro traçado pelos arrabaldes de Almeida, seguiu-se logo por um estradão até perto de Vale da Coelha com uma descida para a travessia de um ribeiro que introduziu as terras de Espanha.

Primeira povoação - Aldea del Obispo - alcançada na primeira subida digna desse nome que, sem causar dificuldades de maior, começou a operar alguma selectividade no grosso dos participantes. Continuámos em direcção a Castillejo de Dos Casas num terreno que poderíamos definir por falso llano e que, sem ser difícil, era suficientemente ondulado para ir causando dano. A paisagem é a típica castelhana, não muito diferente do montado alentejano, a mesma vegetação, a mesma pecuária, a diferença está na altitude já que estamos na cota dos 700 metros.

Antes de chegarmos a Barquilla deu-se, no final de uma subida exigente, a divisão dos percursos. Suponho que, para muitos, a escolha tenha estado relacionada com essa pendente já que exigia algum empenho. Ao contrário da maioria, lá segui para os 90 quilómetros descendo para Barquilla, rolando em direcção a Martillán e descendo fortemente para cruzar, pela primeira vez, o vale do Águeda na Puente de Siega Verde onde existe uma estação arqueológica de arte rupestre semelhante a Foz Côa. O primeiro reabastecimento fazia-se na a margem do Águeda onde deu para observar a estação arqueológica e o estupendo vale do rio.

A grande dificuldade do dia, em termos ascensionais, começava após este ponto com um trilho escabroso, colina acima, que muitos optaram por fazer a pé mas que, ainda assim, consegui pedalar sem elevar demasiado a pulsação e lá alcancei Castillejo de Martin Viejo donde sigo a rolar pelos estradões das planuras. Aí constato que a velocidade média é já razoavelmente elevada, sendo superior a 17 kms./h. Sigo agora numa zona de charneca e de montado, com inúmeras explorações bovinas e suínas que embora propícia a rolar tem um piso muito saltitante que dificulta a dinâmica rápida.

É altura de começar a descer, de novo em direcção ao Águeda e a Ciudad Rodrigo. Ao se alcançar a estrada a organização, em boa hora, resolve alterar o traçado, relativamente ao track GPS, e evita o asfalto movimentado proporcionando uma alternativa valorosa que implicou circular no vale do Águeda por entre campos de papoilas vermelhas, cruzando o pitoresco arrabalde de Ivanrey e alcançando a ponte medieval de Ciudad Rodrigo pelo meio de um choupal na margem do Águeda: verdadeiramente interessante.

Na ponte, o segundo abastecimento, onde se constatou que, os espanhóis participantes ficariam “por ali”, seguindo a sus casas para depois voltarem para o almoço em Almeida (de coche, por supuesto). E nosotros apenas com 50% do caminho efectuado... Sem mais perda de tempo saímos, desta vez em direcção a poente e a Portugal. Apesar dos estradões rápidos este era o terreno do rompe-piernas com novo falso llano e aí eu constato que, quem no início parecia estar muito rápido, agora baqueva perante a sucessão de sobe e desce constante. Não obstante observo agradado a velocidade média a subir constantemente.

Cruza-se a ferrovia, alcança-se a bonita Gallegos de Argañán e daí a La Alameda de Gardón onde ficava o terceiro abastecimento.

Sentia-me bem e conseguia agora impor um ritmo vivo sem me ressentir, apesar dos quase setenta quilómetros percorridos. Seguiu-se uma forte descida e uma nova subida escabrosa ao lado de uma linha de água a exigir o recurso à pedaleira mágica até à estrada que, cruzada, nos fez reentrar em terras lusas e a uma povoação com o curioso nome de São Pedro do Rio Seco rapidamente atravessada (pelo meio de um rebanho de vacas pachorrentas em plena aldeia) em direcção a Almeida cada vez mais perto.

Ainda com bastantes forças em reserva ensaio uma experiência: tentar alcançar os dois betetistas que me antecediam e que pareciam ter um avanço de cerca de um quilómetro. Pensando no histórico grito de guerra “Alma até Almeida”, imprimo cada vez mais rotação aos pedais e vejo a distância a encurtar mas os metros que faltavam foram insuficientes para tal desiderato, resta-me ve-los a cortar a meta cerca de cem metros adiante - valeu a intenção.

No final 94 kms. e uma média superior a 19 kms./h a mostrar bem o ritmo a que esta simpática maratona se deixou percorrer numa conjugação de subida de forma e de relevo adequado.

A detente é sempre a melhor parte destas coisas, assim, após a chegada deito-me de costas num muro baixo junto à viatura perante uma aberta ensolarada: a vida é feita destas coisas simples e aqueles breves momentos pareceram uma eternidade. Nirvana, tranquilidade absoluta, não sei definir, apenas dei conta que foram instantes mágicos.

Após o banho quente seguiu-se o divinal repasto de que aqui já dei conta e o regresso visitando todas as estações históricas nas imediações: Freineda – onde Wellington instalou o seu QG em 1812-13, Castelo Bom e a aldeia de Castelo Mendo com vistas largas dominando, altaneiro, o Vale do Côa.

Memorável.

O BTT dá alegria uma enorme alegria à vida. Cada vez duvido menos deste axioma!

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(*) GSE – Gestão Sustentada do Esforço © by Pedro Roque, todos os direitos reservados.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

GEO-RAIDE SÃO PEDRO DO SUL - DAY TWO 26ABR09


Texto: RUI SOUSA
Fotografia. AGNELO QUELHAS

Relato do 1º dia aqui

Vem aí chuva
Depois de no sábado o tempo ter estado razoável, sem chuva, no 2º dia as
coisas pareciam um pouco piores. Em S. Pedro do Sul o céu estava todo
coberto, fazendo pensar que poderia chover durante o dia e iria estar mais
frio. Vimos mais tarde que foi falso alarme, o dia esteve espectacular!
Havia uma nuvem estacionada em cima de S. Pedro do Sul!

Partida...ainda não estão todos? Outra simulação de TGV!
Tal como no dia anterior, fiz várias falsas partidas! Ainda vem lá mais uma
equipa! E mais outra! Resultado? Mais uma correria pela linha do comboio, já
que o percurso até à estação de S. Pedro do Sul era igual ao do dia
anterior, tendo ainda que parar em todas as estações para avisar a quem
garantia a nossa segurança que era a última carruagem!

Lição nº 1 na construção de Linhas de Comboios. São “planas”???
Na antiga estação de S. Pedro do Sul virámos à direita, atravessando por uma
ponte o rio Vouga no local onde se encontra com o rio Sul. Aí fiquei parado
algum tempo, pois vinham algumas carruagens lá ao longe, mas que afinal eram
de outro comboio.
Depois da passagem dessa ponte caiu por terra o mito de que as linhas do
comboio são planas! É verdade que não subia muito, mas ia subindo, subindo,
às voltas pela serra.
Tanto que passados 5 km, estávamos a apenas a cerca de 500 metros do local
da passagem da ponte, mas 100 metros mais altos (de 170 para 270 metros)! E
assim iríamos continuar, até abandonar a antiga linha aos 430 metros de
altitude.
Este troço é muito bonito, com vários túneis de pequena dimensão, troços em
trincheira e a paisagem a variar entre campos rurais e matas. De realçar a
estação de Moçamedes, muito bem recuperada.

Por caminhos rurais até ao grande single-track Após mais um túnel virámos à
direita por um caminho que claramente já não fazia parte da linha do
comboio, a não ser que fosse ajudado por um guindaste!
Aqui eu já ia a acompanhar a equipa que no primeiro dia passou comigo também
no 1º CP, depois de durante alguns quilómetros ter estado na sombra de outra
equipa, que pensava que eu era um concorrente que tinha perdido o
companheiro!
Logo após a passagem do CP a equipa que eu vinha a acompanhar resolveu
atalhar, para poder ter tempo de fazer o final da etapa, que prometia muita
diversão…mal sabiam eles (e eu) que estávamos a poucos metros de entrar num
divertido single-track, que parecia não ter fim! Muito divertido, com muita
condução mas sem ter locais perigosos ou muito técnicos. Como eu estava
sozinho fiz algumas partes com especial cautela, não fosse ter algum azar….

A todo o vapor! Alto, paragem no café!
Ao sair do single-track encontro uma equipa em sentido contrário. Era a
equipa do José Azurara, iam atalhar por estrada pois ele estava com uma dor
no joelho e um bocado desanimado, pois estava com dúvidas se iria fazer a
TransPortugal ou não. Espero que recupere depressa.
Com várias paragens para telefonar a comunicar as desistências e atalhos no
percurso e o cuidado que tive no single-track, pensei que iria fazer muitos
km sozinho. Por isso aumentei o ritmo, para tentar encontrar alguém antes do
2.º CP. Mas logo a seguir, ao passar na aldeia de Vasconha, vi umas
bicicletas paradas à porta de um café. Afinal ia ter companhia!

S. Silvestre, o santo padroeiro da pedaleira pequena!
Até aqui a etapa foi fácil e rolante, mas a montanha estava à espreita! Para
aquecer umas rampas à volta da capela de S. Silvestre. Com o aquecimento
feito, a subida continuou, umas vezes mais fácil, outras vezes a convidar a
ir a pé.
Atravessámos a A25 e a IP5 e fomos subindo por um estradão até à M1308. No
início da subida fui com uma equipa que tinha “adoptado” mais um ciclista
que ia sozinho. Mas com o decorrer da subida acabou por não aguentar a
pedalada da equipa completa e ficámos só os 2, pois já ia com muitas
dificuldades.
Por sorte quando entrámos na M1308 passou por nós o José Carlos, que pode
dar uma boleia a esse companheiro, deixando-o mais à frente, evitando o
resto da subida.

Quem disse que estava com saudades de caminhos escabrosos?
Voltei a pedalar com força para tentar apanhar novamente os últimos, que não
deveriam ir longe. Abandonámos a estrada perto de Covas, onde os apanhei. Aí
parei por escassos segundos e entrei num caminho escabroso, cheio de pedra
solta, erva e muita lama! Pensei, estes tipos são uns malucos, um caminho
destes e foram por aqui a abrir, já não os vejo e ainda agora estava mesmo
atrás deles!
Mas não demorou muito a começar a ouvir barulho atrás de mim. Afinal
tinham-se enganado na entrada da aldeia e eu tinha-os passado, juntamente
com outra equipa que seguia também por perto!

Rumo às Eólicas!
O 2º CP estava já aí, a seguir à aldeia de Fornelo do Monte. Fizemos uns
metros de asfalto como aquecimento para a subida de uma calçada rumo a um
campo eólico.
Estava assim conquistado o local mais alto da etapa. A partir daí corriam
rumores que seria sempre a descer até à meta…

Correria para o último CP…30 segundos, está feito!
A descida foi feita em pisos muito variados. Caminhos bons, alcatrão, pedra
solta, viragens a meio de descidas onde não se consegue olhar para o GPS e
onde quase todos se enganaram, etc.
A equipa que estava a acompanhar já há algum tempo começou a fazer contas,
tinham que dar ao pedal para ainda conseguirem passar antes do fecho do 3º e
último CP. As descidas ajudavam, mas pelo meio apareceram algumas subidas
que ameaçavam o sucesso do esforço. O mais complicado foi a passagem por um
parque de merendas, muito bonito, com as árvores e as pedras cobertas de
musgo e o chão de folhas secas…que travavam a bicicleta.
Um dos membros da equipa começou a ter cambraias e a dizer que já não iam
conseguir. Mas o colega não o deixou desanimar e incentivou-o a continuar o
esforço! Foi um bom exemplo do que se pretende no Geo-Raid, onde o espírito
de equipa e a entreajuda é essencial para se vencer os desafios.
Felizmente apareceu uma bela estrada a descer e o CP estava logo a seguir,
pelo que conseguiram passar 30 segundo antes do fecho! Parabéns pelo esforço
e espírito de equipa!

Últimos metros e o regresso dos mortos-vivos!
Estive alguns minutos parado no CP para comer e trocar as pilhas do GPS e
quando arranquei não virei á direita a meio da descida e tive de voltar a
subir à mão uns 150 metros!
Com esse tempo perdido pensei que iria voltar a ficar algum tempo sozinho,
mas logo a seguir encontrei outra equipa onde um dos elementos já tinha sido
encontrado pelo “homem da marreta”. Comeu um gel daqueles capazes de
ressuscitar um morto, mas devia estar fora do prazo, pois só conseguiu
arranjar uma valente dor de estômago, para complicar ainda mais as coisas.
Fiz assim os últimos quilómetros bem devagar, felizmente que já só faltava
subir um pouco perto da aldeia de Vila Nova e depois para a Sr.ª do Castelo.
A descida da Sr.ª do Castelo é uma daquelas que vai ficar na memória. No
meio de uma mata densa, onde o Sol não entra, curva, contra-curva, um drop,
outra curva, e sempre com o piso macio, que dá confiança para arriscar um
pouco mais e descer depressa! Onde está o teleférico, para subir e voltar a
descer?

Próxima estação: São Pedro do Sul
Após o divertimento da Sr.ª do Castelo voltámos a apanhar a antiga linha de
comboio e rapidamente chegámos ao hotel, onde nos esperavam uns belos
petiscos que a Berta e companhia tinham preparado para os atletas.

Agora venha a Estrela e depressa! As fotos dos reconhecimentos prometem um
fim-de-semana em grande!

quarta-feira, 6 de maio de 2009

GOOD HEAVENS: ONCE AGAIN!


Imagem de modernidade e de um dirigente político preocupado com a saúde, aparência e o ambiente assim é David Cameron, líder conservador britânico.

Cameron é um "comuter biker", isto é, alguém que tem uma utilização quotidiana da bicicleta, neste caso, entre a sua casa na zona ocidental de Londres e o Parlamento, em Westminster.

Só que, pela segunda vez, Cameron foi vítima dos ladrões de bicicletas e, quando se encaminhava para mais um debate com o PM Gordon Brown, deu apenas com o lugar onde estava estacionado o seu velocípede.

A dúvida fica no ar: incúria conservadora ou ultra-eficiência dos ladrões.

Ainda assim ficam os nossos parabéns pelo excelente exemplo cívico do líder torie!

segunda-feira, 4 de maio de 2009

AGAINST ALL ODS

Torres Vedras - Santarém
90 kms.
3 de Maio de 2009

Esta é uma travessia algo azarada.

Primeiro foi a 09NOV09 quando o duplo furo impediu que atingisse a cidade de Santarém a pedalar.

Desta vez, a quatro, foi a escolha dos caminho a complicar tudo já que tivemos de transpor vedações a eito e recorrer a alguns quilómetros não previstos pela EN.

Ainda assim houve grandes momentos de BTT: a descida da vereda dos Cucos, a ascensão de Matacães à Serra Galega, a subida de Montejunto e a primeira e segunda descidas e a chegada a Santarém pela antiga ferrovia e a respectiva ascensão até à "Casa do Campino".

Interessante também o ir e voltar de comboio em lugares distintos...

No final um empeno razoável e uma boa jornada.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

AS SETE CIDADES E O SINDROME DE STENDHAL



O escritor francês Stendhal (1783-1842) descreveu à posteridade a curiosa experiência psicossomática que viveu ao visitar a toscana Florença e ao estar exposto a tantas obras de arte, especialmente belas, num mesmo local e ao mesmo tempo. O escritor testemunhou, incrédulo, pulsação acelerada, confusão mental e até alucinações perante a omnipresente arte florentina num fenómeno que ficou conhecido por Síndrome de Stendhal e que é aplicado para descrever situações semelhantes.


No domingo passado fui afectado por um fenómeno psicossomático semelhante, não perante a arte florentina, mas defronte da incrível beleza natural da caldeira das Sete Cidades, na ilha de São Miguel, Açores. Se bem que já antes, em três ocasiões, havia visitado o local, nunca como neste domingo, 26 de Abril, havia ficado deslumbrado com a beleza estonteante do local.

É de êxtase que vos estou a falar...


Claro que sou suspeito, claro que acho que os arquipélagos macaronésios dos Açores e da Madeira são dos últimos vestígios do Éden que sobrevivem na Terra, claro que me forço por visitar, sempre que posso, as nossas ilhas...

Se a essa predisposição obsessiva conseguirmos juntar uma bicicleta de montanha então estão criadas as condições - assim a meteorologia também ajude - para um deslumbramento integral, uma superação sensorial da própria existência e temporalidade para se atingir uma espécie de Nirvana Velocipédico, sobretudo se o mesmo corresponder a um local como a caldeira das Sete Cidades, sítio de lendas e vestígio último da lendária Atlântida, a ilha encantada.


Já havia pedalado no chamado triângulo central açoriano (Faial, Pico e São Jorge) nos idos de Julho de 2005 mas nunca em São Miguel. Desta vez cumpri o desejo tendo levado comigo a máquina de montanha.

O domingo amanheceu solarengo, coisa sempre rara nos Açores. Após o pequeno-almoço levei a bolsa de transporte até ao exterior do Hotel, em Ponta Delgada, e remontei o conjunto: enchi as rodas e a suspensão (é obrigatório retirar a pressão dos mesmos por causa do ambiente pressurizado da aeronave), rodei o guiador 90% para a sua posição natural, e reapertei o desviador traseiro no dropout do negro quadro. Tudo perfeito para começar a ascensão.

E que ascensão! Dos cerca de 25 metros de altitude do hotel, até aos quase 900 metros do farol aeronáutico no topo da cratera das Sete Cidades, ao longo de mais de 25 kms. Tinha traçado previamente um troço no Google Earth para evitar as estradas mais movimentadas e a condução automóvel errática, típica do arquipélago.


Assim cruzei boa parte da zona alta de Ponta Delgada e subi continuamente em direcção a Arrifes. Apesar de domingo havia algum movimento de viaturas em direcção às igrejas e constatei o equivalente açoriano aos carros comerciais brancos do continente, ou seja, as pick-up com o depósito do leite na caixa traseira e a sua condução ao estilo de um recém perpetrador de carjacking. Como já sabia ao que ia, coloquei o impermeável verde radioactivo bem visível na rede exterior da mochila. De resto, vencida a zona de Arrifes e subindo em altitude, o tráfego começou a rarear até, pura e simplesmente, desaparecer já que se tratavam de estradas secundaríssimas.

Também complicado é o facto de estarmos, autenticamente, em pleno reino da bosta, tal a quantidade de vacas leiteiras existente. Convenhamos que o postal típico dos Açores, com as vaquinhas e as hortênsias, confere uma beleza ímpar às paisagens mas tem um desejável efeito secundário sob a forma de bosta que acaba revestindo o asfalto que cruza estes encantadores cenários naturais. Todavia nada que me demovesse de continuar a subir, cada vez mais.


A dada altura abandono a estrada para um conjunto de rampas asfaltadas ascendentes que abordam a chamada Serra Devassa e a cumeada da cratera da caldeira das Sete Cidades. Confesso que me foi difícil controlar o pulso e, por mais de uma vez, tive de parar no final das rampas para o recuperar. Sinal típico dos Açores: ao calor de Ponta Delgada sucedia agora um frio incomodativo empurrado por um vento forte de Norte a que o impermeável deu, todavia, suficiente abrigo.

Alcançado o espectacular aqueduto (conhecido pelo muro das seis janelas) foi tempo de entrar num denso bosque de criptomérias (cryptomeria japonica) de dimensões gigantescas a contribuírem para adensar a ambiência feérica endémica das ilhas açorianas.

Uma última e íngreme rampa haveria de ser vencida para o ponto mais alto e para o deslumbre completo. No topo, com a caldeira a meus pés, o lago azul, o verde, a misteriosa Lagoa de Santiago, a pequena povoação branca e aquele penetrante silêncio absoluto. Senti-me no céu. Tenho para mim que, quanto mais penosa é a subida, mais forte é o deslumbramento da paisagem no topo e as Sete Cidades são, sem dúvida, o paradigma desta tese.


Nunca tinha abordado a cumeada da cratera pelo lado norte (PR 4 SMI), apenas pelo Sul, pela Vista de Rei. Aqui tudo é mais dramático, as vistas e as rampas que sobem e descem num rompe-pernas constante a exigir o nosso melhor empenho. Sem embargo, nem ponta de cansaço, as vistas operavam maravilhas e sentia-me em comunhão com a máquina e com o local lendário. As perspectivas alteram-se a cada passo, cada uma mais encantadora que a anterior. Vou-me cruzando com caminhantes, todos eles estrangeiros. Nas ilhas, como no continente, os portugueses parecem alheados destes encantos, excepto se aí puderem aceder sentados numa viatura automóvel. É pena...


A dado ponto, quando nos encontramos a poente da cratera, há que escolher e opto por descer o trilho da caldeira do Alferes (PR 3 SMI) e que me conduziu à vila das Sete Cidades, e que descida - técnica, lenta e exigente, pelo meio de um túnel de vegetação - só visto e sentido.

Chegado à quota da lagoa sigo para a vila e sento-me numa esplanada, restaurando energias, observando e sendo observado, seja pelos locais, seja pelos inúmeros turistas nórdicos que demandavam o estabelecimento.


Antes de abordar a subida (havia que sair do buraco, afinal tinha descido dos 870 para os 250 metros) fiz a margem poente até ao túnel que controla a quota da lagoa e que descarrega, os seus caudalosos excessos, do outro lado da montanha. Trata-se de uma espécie de must turístico e serviu de aquecimento para a abordagem à subida pelo asfalto em direcção a Mosteiros e que conduz ao trilho da Vista de Rei, a réplica sul da cumeada que efectuei anteriormente e que tem vistas diferentes, belas sem dúvida, mas sem o dramatismo paisagístico a outrance do Norte. Finalmente na Vista do Rei com o folclore turístico habitual cumpri também o ritual das fotos da praxe.


Aqui chegado equacionei duas hipóteses: descer pelo rápido trilho que se internava num novo bosque de criptomérias, contornar a Caldeira Seca, por Sul, pelo trilho do cemitério, regressar às Sete Cidades e subir o asfalto pela Lagoa de Santiago de novo em direcção à Vista de Rei ou, alternativamente, fechar logo o círculo da cumeada e seguir subindo em direcção à Lagoa do Canário e ao PR 5 SMI que se internava pela Serra Devassa em quotas superiores aos 800 metros.

Optei pela segunda - erradamente, admito-o agora. O trilho da Serra Devassa deixou de ser ciclável a partir de dada altura pelo que ingloriamente tive de recuar perdendo a oportunidade de regressar às Sete Cidades. Tampouco a visita à Lagoa do Canário foi possível pois só a partir de Maio o parque está aberta ao público.

Restou regressar pelo mesmo caminho de ida. As rampas anteriormente ascendentes são agora rápidas descidas. Numa delas, com a visibilidade bem assegurada, soltei os travões e o conjunto rolou livremente alcançando o expressivo registo de 72 kms./h! Até Ponta Delgada fiz um desvio até Capelas e segui pela ER 4 mas, perante a intensidade de tráfego e do estilo de condução rapidamente retomei a tranquila estradeca dos Arrifes para chegar a Ponta Delgada.

Aí aproveitei para ir até ao centro e restaurar na esplanada que fica frente à .

No final mais de 80 kms. sendo que, metade, corresponderam a ascensões de respeito.

A vontade de regressar é grande, aguardo apenas nova oportunidade.

GEO-RAIDE SÃO PEDRO DO SUL - DAY ONE - 25ABR09


Texto e Fotos: Rui Sousa

Dia 0
Esperava chegar a S. Pedro do Sul por volta das 21:30, para assistir ao
briefing…infelizmente só consegui chegar às 23:00, ainda a tempo de carregar
o GPS, levar as tralhas para o quarto e ir à reunião da organização, que
acabou perto das 2 da manhã. Pensei: “Espero que haja por aí alguns
empenados, senão nem os últimos vou acompanhar!”


Dia 1:

Partida: Já estão todos? Vêm lá mais 2….e mais 2…e mais 2….
Como dormi pouco, nem me custou acordar às 6:30. Fui tomar o pequeno-almoço,
preparar a bicicleta e meter uns reforços alimentares no carro (ser vassoura
tem as suas vantagens).
E lá chegaram as 8:30. Partiram todos e arranquei também. Foi quando vi que
ainda vinha uma equipa lá do fundo. E mais outra! Mais ninguém? Lá
arranquei, é logo a subir!!! Quando passo em frente à Pousada da Juventude
ainda vi mais uma equipa. Voltei para trás e tive que fazer outra vez a
rampa. Mas agora era de vez!

Apita o comboio (versão TGV)
Depois de uma pequena montanha russa, entrámos no antigo ramal de Viseu da
Linha do Vouga (http://pt.wikipedia.org/wiki/Ramal_de_Viseu). A equipa
atrasada quis recuperar o tempo perdido, pelo que começou logo a todo o
vapor, parecendo mais um TGV do que os antigos comboios que usavam aquela
linha. Eu tinha de parar em várias estações, para avisar membros da
organização e da GNR que era o último, não foi fácil acompanha-los!

Onde está o Track?
Logo após a saída da linha de comboio encontro uma equipa encostada. Estavam
com problemas no GPS, o track tinha desaparecido. Liguei para o António
Malvar, para tentar arranjar uma solução e disse à equipa para ir comigo,
pois um novo GPS deveria ser entregue no CP0, que não estava longe.
Aqui passámos por um pequeno jardim à beira rio, com um caminho a fazer
lembrar as levadas da Madeira. Pouco depois começamos a abandonar a
civilização e a ver as montanhas que nos esperavam.

Rumo a Norte pelo Rio Sul
Fomos subindo pouco a pouco, por vezes com algumas subidas complicadas e
descidas divertidas, com curvas e alguma pedra. Fomos acompanhando o rio Sul
e passámos nas aldeias de Oliveira e Sul.
Quando apanhei a equipa sem GPS tentei forçar um pouco o andamento, para que
não perdessem muito tempo. Felizmente eles tinham um ritmo parecido com o
meu, pelo que pude abrandar um pouco.

Agora é sempre a subir
Após a aldeia de Sul abandonámos o rio com o mesmo nome e começamos a subir
a sério. Para azar dos meus guiados sem GPS, alcançamos outra equipa com um
andamento mais lento. A boa noticia é que me ligaram a dizer que tinham um
GPS à espera no CP0.
Fizemos um pequeno troço de alcatrão e ao passar por um parque de merendas a
paisagem começou a mudar. Já quase não há árvores, apenas vegetação rasteira
toda florida e muitos calhaus brancos, que até parecem neve!
Chegamos ao CP0A e com a troca de GPS fiquei apenas com a equipa mais lenta.
Passámos pela aldeia de Macieira e a subida continuou, rumo a São Macário.

Quem abriu a porta? Está corrente de ar.
O tempo estava espectacular. O sol quase sempre a ganhar às nuvens, não
havia vento e não estava nem calor nem frio.
Mas tudo isso mudou ao chegar ao topo da serra de São Macário, a rondar os
1000 metros de altitude. Deixamos de estar protegidos do vento norte forte
que se fazia sentir, bem gelado e a dificultar a deslocação da bicicleta.
Mas a paisagem que se via para o lado norte fazia esquecer tudo isso. Montes
e montes sem fim, muitos com aerogeradores a funcionar a toda a velocidade e
aldeias perdidas no fundo dos vales. Não consigo descrever melhor, é preciso
mesmo lá ir!
A seguir ao São Macário descia-se rapidamente por alcatrão até ao CP1A, onde
o Pedro (o outro vassoura) estava à minha espera, pois eu ia atalhar por
estrada, de modo a chegar ao CP1B antes do fecho desse CP.

Que faz aqui o meu carro?
Apesar de com este desvio ter falhado o Portal do Inferno e a aldeia de
Drave (assim já tenho um pretexto para lá voltar), a vista da estrada também
é espectacular. Segue a cumeada, não se sabe bem se deva olhar para a
paisagem da direita ou da esquerda!
No local onde se reencontra o track estava estacionado o meu carro, com umas
sandes e uns sumos lá dentro. Que bem que soube o lanche, apesar do olhar
invejoso de quem passava. E muito gente passou, apesar do atraso que já
levava e de só ter atalhado 10 km, o troço que cortei não deve ser nada
fácil.
Até à aldeia da Coelheira o percurso seguia pela Serra Fadeira e pela Serra
da Arada, num percurso sem grandes subidas, que poderia dizer-se que era
fácil, não fosse a muita pedra solta a travar a marcha da bicicleta. Mas a
paisagem, com a serra toda florida, faz esquecer as dificuldades.

Frio, frio, frio
Cheguei ao CP1B na Coelheira e fui para dentro do jipe enquanto esperava
pela hora de partir. Estava um vento gelado, felizmente que antes tinha
trocado para uma roupa mais quente que tinha dentro do meu carro. Quando
chegou a hora de fecho do CP ainda não tinham chegado todas as equipas. Saí
do jipe e uns metros mais à frente estava uma equipa a remendar um pneu.
Perguntei-lhes se queriam atalhar, pois já não iriam chegar a tempo ao CP
seguinte, mas fizeram as contas à média que teriam de fazer e não parecia
impossível. O problema é que os próximos km foram parecidos com um passeio
pedestre.

Pedra, pedra e mais pedra. Vende-se bicicleta!
Quando pneu ficou pronto e arrancamos, tremia por todo o lado. O vento norte
estava gelado e o percurso era desabrigado e a descer.
Mas isso rapidamente mudou. Virámos à esquerda e começamos a subir por um
caminho muito bonito, onde se ouvia um ribeiro a correr no meio de um bosque
de carvalhos. O caminho estava cheio de pedra solta, pelo que apesar de ser
ciclável não valia o esforço. Para contrastar, acabava numa cancela que dava
acesso a estradões típicos de parques eólicos. Soube muito bem e permitiu
vencer uns bons metros rapidamente.
Mas a indicação D23 não deixava dúvidas. Era para deixar o estradão e entrar
num caminho manhoso à direita, com um pouco mais de 2 km de pura diversão,
pedra solta, raízes, lama, regos, ramos e ganchos apertados. Descemos nesses
2 km mais de 200 metros e ficámos à porta da aldeia de Cabreiros.

Fixe, alcatrão!
Para recuperar da descida, fizemos um troço de alcatrão, passando ao largo
da aldeia de Tebilhão, com os seus belos e férteis campos agrícolas virados
a Sul. Apesar do asfalto este troço não era fácil, pois subia, subia, subia.
Já estávamos em plena serra da Freita e não demorou muito a sairmos do
asfalto e a comprovarmos a fama desta serra.

Queriam pedra a sério? Ora aqui vai!
Para quem achava que ainda não se tinha apanhado muito pedra hoje, aqui vai
mais uma dose bem reforçada. Afinal estávamos na Freita, que mais se podia
esperar! As subidas eram quase todas feitas à mão e mesmo em plano a
progressão não era fácil.
Por aqui encontrei uma equipa que estava um bocado desanimada, tinha uma
suspensão bloqueada e já tinham encontrado pelo caminho o homem da marreta!
Pediram para ser resgatados de carro, pois não queriam continuar. Mas
naquele local, atrás do “Sol posto”, ainda não chegaram os telemóveis, pelo
que lhe pedi para continuarem mais um pouco até estarmos mais próximos de
uma aldeia.
Essa aldeia era Albergaria das Cabras, bem perto da conhecida cascata da
Frecha de Mizarela. Foi aqui que deixamos de nos deslocar para Oeste e
virámos para Este, de volta a São Pedro do Sul.
Perguntei se sempre queriam desistir e disseram que não, faltavam poucos km
para o CP seguinte, até talvez desse para o passar a horas. O problema era o
tipo de piso que nos esperava….
Pois, continuou pedra, pedra e mais pedra. Mesmos pelas aldeias rurais onde
passámos e onde ficámos parados no trânsito do fim de tarde (transito de
vacas, como é obvio), os caminhos agrícolas estavam cheios de pedra solta.
Essas aldeias foram Gestoso, Gestosinho e Abundância, onde chegávamos depois
de passar uma ponte de pedra.
Até Manhouce, onde estava o CP1D, foi sempre a descer por asfalto. Dado que
o CP já estava fechado há algum tempo, voltei para São Pedro do Sul por
estrada, pois quem já tinha feito o percurso de carro tinha-me dito que era
sempre a descer. Já sábia que era mentira, mas as subidas não eram muito
más!

Relato do segundo dia aqui

Bons treinos para a Serra!


Rui Sousa