domingo, 21 de agosto de 2011

A BICICLETA STANDARD (I) - O QUADRO


Começamos aqui um conjunto de posts sobre a minha ideia de uma bicicleta standard.

Não se trata de escolher o melhor material mas a melhor relação preço / qualidade / durabilidade devidamente adequados a uma filosofia de BTT tal como a entendo.

Assim começemos pela peça estrutural básica, o quadro. Obviamente que a escolha recai sobre um rígido com a forma clássica de "duplo-triângulo" e no melhor material (já não o mais leve) que alia a resiliência à maleabilidade: o titânio.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

UMA MERA VOLTITA SERRANA - NO PAIN, NO GAIN!


Cacela Velha - Serra - Cacela Velha
17 de Agosto de 2011
50 kms.
1350 m de acumulado

Era para assim ser - uma mera voltita serrana.

Combinei com o Nuno Santos uma pequena volta de 50 kms. (se lerem alguns dos post anteriores sabem que, abaixo de 100, é um mero passeio).

Tratava-se de abordar a serra algarvia na zona de fronteira dos concelhos de Tavira e Castro Marim.

Aquilo que, à partida, seria apenas uma voltita serrana acabou por se tornar numa incursão épica. O calor, a aridez e o relevo implacáveis da serra algarvia encarregaram-se de conjurar nesse sentido. O meu litro e meio de água fresca pacientemente transportado às costas subida acima e que, em condições normais, chega e sobra esgotou-se em menos de nada e foi o cabo dos trabalhos para pedalar subidas desumanas debaixo de temperaturas inclementes com a boca seca. Valeram dois anjos da guarda numa aldeia perdida que nos dessedentaram. Acabei mesmo a puxar uma corda num furo artesiano que transportou até à superfície uma água fresquíssima que pôs fim às privações.

A vingança serviu-se sob a forma de umas magníficas ostras no final em Cacela Velha por nós bem mais valorizadas após esta odisseia serrana - no pain, no gain!

O MELHOR DO ALGARVE EM MEIA DÚZIA DE MILHAS


Refiro-me ao troço da Ecovia do Algarve que vai da Estação da Fuzeta a Tavira.

Se bem que não exigindo um esforço desmesurado e, por isso, estando ao alcance do comum dos mortais que saiba no mínimo equilibrar-se em cima de uma bicicleta, é um prazer para os sentidos.

Começa-se em zona de sapal bem pelo meio das salinas.

Prossegue-se pela zona da Torre d'Aires ao longo da Ria Formosa para nos internarmos numa zona típica de Barrocal com as casas, as chaminés típicas, as noras, os laranjais, as alfarrobeiras e as cigarras a cantarem tudo devidamente condimentado com um aroma a esteva que se impõe no ar.

pièce de résistance é a travessia de um ribeiro cristalino junto a Pedras d'el Rey (na foto).

Chegamos então a Tavira que é, sem dúvida, uma das cidades melhor preservadas do Algarve

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Aí está ele outra vez: Danny Macaskil - Industrial Revolutions

Já o tínhamos visto aqui, e também aqui... agora chega-nos mais um video filmado num cenário industrial:



Não cansa de nos surpreender, com imagens de manobras simplesmente espetaculares. Os seus videos são dos mais vistos no planeta: 12.5 Milhões de visualizações para o “Way back home” e quase 27 Milhões  de visualizações do “Inspired Bicycles”



Industrial Revolutions is the amazing new film from street trials riding star Danny Macaskill.


Industrial Revolutions sees Danny take his incredible bike skills into an industrial train yard and some derelict buildings.' Filmed in the beautiful Scottish countryside Danny Macaskill's latest film was directed by Stu Thomson (Cut Media/MTBcut) for Channel 4's documentary Concrete Circus.

sábado, 6 de agosto de 2011

Abertura de vagas para Escola Nacional de Pista



Estão abertas candidaturas para preenchimento de quatro vagas na Escola Nacional de Pista para o ano lectivo 2011/2012.

Informação da UVP-FPC, clicar AQUI para ler mais.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

SUBINDO O ALVIELA EM BTT (NO PRELO)


Amanhã subiremos o curso do Alviela desde a foz até aos Olhos de Água, Alcanena e regressaremos a Santarém pelo "caminho mais longo".

Serão 110 kms. de BTT com a beleza a competir com a dureza e a altimetria.

O report em breve, aqui...

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Enduro à Nascente do Rio Leça

Album de fotos Clicar AQUI.



Férias de Verão para os jovens sem um pouco de aventura também não são verdadeiras férias.

Felizmente a bicicleta é um extraordinário objecto multiusos. Para quem pouco conhece a paixão pelo ciclismo pode ser estranho pensar de outro modo e provavelmente vê o ciclismo como um acto de sacrifício, de competição ou uma necessidade de transporte económico, ecológico como está agora na moda pensar nestas coisas... Os jovens da escola de ciclismo em férias provaram hoje mesmo que a bicicleta não é para eles só um equipamento de treino e competição... É e foi neste dia uma verdadeira amiga de grande aventura num enduro de BTT que durou o dia todo tendo-se feito no total 80 quilometros por estradas e caminhos que só mesmo a versatilidade de uma BTT permite. Num fim de época já sem competições os jovens estão bem preparados físicamente, estando de férias tem agora tempo de sobra para se divertirem sem horários de chegada a casa, só falta mesmo um empurrão para se combinar um bom programa de tempo livre com muita aventura. Assim pensei em algo simples sem necessidade de transporte com partida de BTT de Leça do Balio mas que tivesse algum interesse a nível de conhecimento cultural e com alguma aventura... E a escolha recaiu no ir de bicicleta em completa autonomia até à nascente do rio Leça e regressar no mesmo dia. Os protagonistas que estavam livres e se disponibilizaram logo foram a Mariana Pedrosa (Juvenil de 13 anos), João Santos(Fininho) (Juvenil de 13 anos) e Pedro Nogueira (cadete de 14 anos), e a equipa ficou completa depois comigo (Ferramentas). O programa foi simples, levar sandes água e todo o resto que estes jovens já sabem o que devem levar numa saída em autonomia e às 9h30 já estávamos a pedalar com grande vontade pelas estradas secundárias e alguns caminhos de terra em direcção ao Monte Córdova em Stº Tirso. Não pensem que foi sempre a pedalar sem paragens, pois o jovens não dispensaram o desafio de descerem um lanço de mais ou menos de 100 metros de escadas várias vezes, bem perto de S.Romão de Coronado... :) Retomou-se o caminho novamente agora em direcção à Camposa apanhando a EN 105. Em fila indiana esta estrada num instante se fez e cruzamo-nos com vários ciclistas em sentido contrário, um deles o nosso amigo Ivan Nascimento na sua bicicleta de estrada que vai sempre tão empenhado no seu treino que nem vê ninguém... As indicações de Monte Córdova-NªSª Assunção apareceram, toca a sair da EN 105 e começar a subir, com um Pedro Nogueira já a resmungar desde do início com o bom Sol, com as subidas de paralelo e a escolher os reguinhos de água feitos de cimento liso para circular com a sua BTT, mas a rejeitar qualquer tipo de ajuda, era agora que as mochilas com comida já custavam transportar. Sempre a subir passamos o local das Valinhas já bem perto das 11h30 e na EN319 seguimos em direcção de Santa Luzia, Hortal e Redundo a localidade mais próxima da nascente do Rio Leça e aí nesse local utilizou-se a orientação da "boca", ou seja "quem tem boca vai a Roma" e com indicações precisas de um jovem local encontramos a Nascente do Rio Leça às 12h15. Na nascente fiquei desiludido, pois estava completamente seca... Assim como todo o rio como tivemos oportunidade de constatar durante a descida, todo ele estava a meia água e nas cascatas perto das Valinhas nem sequer corria água, inviabilizando qualquer banho nas suas águas paradas...
Mas continuando a nossa aventura, foi hora de procurar água e um local para comer, com um Pedro Nogueira a não querer partilhar os seus ICE TY´s com o pessoal, fizemos de prepósito o início da descida com ele a resmungar para parar e comer, quando encontramos um fontanário demo-lhes um grande banho de água com ele a queixar-se que o telemóvel estava ficar molhado... :)
A Mariana recebeu nesta altura um nik-name, passou a ser a "PBX" tal é a quantidade de chamadas e sms que recebe no seu telemóvel... :D É uma miúda muito solicitada. :)Foi tempo de continuar a descida, e desta feita desde o início da nascente sempre por orientação de GPS por um trilho realizado pelo meu amigo Ximbra há uns anos atrás, e como devem imaginar aventura não faltou com os enganos e com alguns caminhos já cortados ou tapados com vegetação de tal modo que o coitado do Pedro Nogueira num desses momentos desapareceu literalmente por um rego de água depois de pisar uma vegetação seca... O engraçado é que eu e o Fininho já tinhamos passado pelo local e não nos aconteceu nada... Bem acabou por ficar a partir dali com mais um nik-name de o "Regos". :D



Na freguesia de Reguenga paramos num café local, e depressa vieram falar connosco, conhecemos o Sr. Rui Jorge de 46 anos, não sei como ele advinhou mas perguntou logo como estava a nascente do Rio Leça!?? Homem simples ficamos logo a saber que deu a volta a Portugal de bicicleta em 11 dias e o entusiasmo com que falava do ciclismo e das suas aventuras cativou-nos a todos num momento único de paixão pelo ciclismo já com mais um amigo a juntar-se à conversa também e imagine-se que conheciam alguns nossos amigos de Matosinhos e o Paulo Rodrigues (Patu), nosso patrocinador e amigo que ajuda a escola de ciclismo. Bom e para terminar num exemplo de que o ciclismo é mesmo popular nesse mesmo café estava lá o antigo ciclista Fernando Fernades que representou as principais equipas dos anos 80 ... !? A tarde ia passando mais ou menos com alguma subidinha e paragem para reconhecer o percurso e sempre com as cómicas reclamações do Pedro Nogueira... :) Chegados ao parque de lazer em Alfena foi, mais uma vez, aproveitada para uma pausa do gelado e de comer o lanche, com um estomago a reclamar perto das 17h00.
Continuamos sempre pela margens do Rio Leça com algumas paragens por locais antigos, pontes de pedra, azenhas em ruínas e com tristeza ficamos por ver estes locais que podiam ser lindíssimos se o rio não estivesse poluído e as construções fossem restauradas... Mas um momento também nos chamou a atenção depois de encontrarmos lagostins no Rio... ?!Leça do Balio num instante nos apareceu e já no mosteiro sem pressa em chegar bem perto das 19h00 sentamo-nos na sombra e fresca relva a conversar sobre esta aventura num momento único de amizade entre todos. Assim termino com um agradecimento aos jovens desta aventura provando que se apostarmos neles, podemos ter grandes companheiros e que fácilmente sem grande esforço e com muita brincadeira são grandes companhias em enduros como este... E já está para breve um futuro enduro mas este tem de ter banho completo, há que aproveitar o calor dos dias de Verão de Agosto.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

MoN - Arr - Evr, BTT, Património e Paisagem


30 de Julho de 2011 (dia de São Pedro Crisólogo)
Distância – 133 kms.
Acumulado vertical – 1900 metros
Participantes: PR, JC, CN e EN

Tinha tudo para dar certo e, de facto, assim foi. A ideia era ligar Montemor-o-Novo (MoN) a Arraiolos (Arr) edaí pela ecopista até Évora (Evr) e retornar a MoN.

A quilometragem seria elevada embora a altimetria nada fosse de especial (na sua relação com a quilometragem, bem entendido). Quanto ao resto – a paisagem e o património – havia a garantia absoluta de que seria um passeio de luxo, já para não falar do grupo constituído.

O início fez-se em direção ao castelo de MoN subindo pelas ruas da zona histórica, entrando pela porta da traição, percorrendo o pano norte interior  das muralhas e saindo pela entrada principal da fortaleza. Passando, de novo, o casco velho da histórica vila saímos pelo Convento da Visitação em direção ao campo e ao Alentejo real.
MoN - pano interior da muralha norte
Alternando sequeiro com regadio, a seara com o montado, cruzando um campo de milho e pastos, avistando vacas, ovelhas e uma vinha de alto gabarito, por meio de estradões, caminhos de pé posto e os incontornáveis portões alentejanos, abundantes, omnipresentes com tecnologias de abertura insondáveis, por vezes apenas compreensíveis para betetistas iniciados nestes ritos aparentemente complicados do “cerrar e descerrar” conservando o gado bem enclausurado atrás das cercas. Esta é uma marca cultural indelével do Alentejo. Poderemos pedalar noutros locais de Portugal com paisagens semelhantes mas em nenhuma outra região encontraremos estes portões e o ecletismo tecnológico que lhe está subjacente: arames, cordas, elásticos e tábuas manejados habilmente por mãos sábias e prontos para confundir os incautos.

Com alguns improvisos conseguimos chegar a Arr com uma subida fortíssima até ao seu castelo onde se vislumbra um panorama marcante de 360º com os campos magníficos cuja descrição atrás deixei. Seguiu-se uma descida urbana até ao centro da vila dos famosos tapetes e o voltar a constatar a mais-valia da renovação urbana que a bonita terra apresenta: ruas aprimoradas e sem trânsito, casas bem caiadas, tudo muito agradável a merecer uma paragem na praça central perante alguma curiosidade local.

Arr - Horizontes largos no castelo.
Seguimos para Evr. Se, até aqui, apesar de pouco se subir, as mudanças de piso e a transposição de portões condicionou, um pouco, o ritmo da progressão, agora era tempo de pedalar em grande estilo através da ecopista que liga a estação de Arr com a cidade de Evr. Foram vinte kms. percorridos a velocidade estonteante através do espaço canal da antiga ferrovia e, num ápice, alcançamos a cidade património mundial que, como não podia deixar de ser, foi percorrida de modo ciclo-turístico aproveitando o facto de uma mountain bike ser uma excelente forma de visitar uma cidade.

Evr - Pórtico da Sé Catedral
Começamos pelo antigo Colégio dos Jesuítas onde funciona a reitoria da Universidade, seguimos para a subida forte para a zona alta onde se concentram o templo romano, o Museu e a Sé Catedral que foram palco de um punhado de fotografias a preceito.

Depois foi percorrer as Praça do Sertório e do Giraldo e o restaurar as energias num botequim bem oculto numa rua lateral. Saímos então, sem o EN, para o terço final, o mais duro correspondente a ligar, de novo a MoN. Ainda em Evr uma paragem técnica no mercado junto a S. Francisco para reabastecer de água e seguimos em direção à Anta Grande do Zambujal em Valverde e seguimos, via Guadalupe, para o marcante alinhamento dos Almendres que é alcançado após uma constante subida de sete quilómetros.

Evr - Cromeleque dos Almendres
Volvidas as fotos da praxe a descida / ligação até ao Santuário Mariano da Boa-Fé (Bona Fide) coma sua igreja branca imaculada debruada a ocre. Este é um momento mágico com a luz forte do sol a incidir na sua fachada e a iluminar os espíritos de todos.

Após as Casas Novas internamo-nos em plena Serra de Monfurado. Espaço natural magnífico onde o montado é rei e onde é delicioso perdermo-nos pelos seus caminhos labirínticos procurando, a todo o transe, reencontrar uma direção que julgávamos perdida.

MoN - A imponência do sobro em Monfurado
Os quilómetros derradeiros, após Santiago de Escoural, são agora relativamente planos embora um arreliante furo (bloody Tubeless Ready) não tenha permitem uma deslocação tão rápida quanto teria sido possível. Os quilómetros finais foram pela ecopista que liga a Torre da Gadanha a MoN onde reentramos já ao lusco-fusco.

Mais uma excelente incursão. Aqui, sem dúvida que, quer o património, quer a paisagem rural, se constituíram como os fatores de elevada agradabilidade.

EL TRANSPYR

Una travesia en "monton bai" * desde el Mediterraneo hasta el Cantabrico...



* - espanhol para "mountain bike"

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

NOVO VIDEO DAS VIAS VERDES ESPANHOLAS

Mais um video ilustrativo do excelente projeto que são as "Vias Verdes" de Espanha.


Este vídeo es una de las acciones recogidas dentro del convenio que la Fundación de los Ferrocarriles Españoles y FEVE firmaron en 2010 con el objetivo de promocionar, favorecer el uso y dar a conocer las Vías Verdes que se asientan sobre las antiguas líneas de ferrocarril de esta empresa ferroviaria.


Las vías verdes sobre antiguos trazados de Feve suman en total 350 kilómetros de trayectos cicloturistas y senderistas repartidos por Asturias, Madrid, Cantabria, Castilla y León, Euskadi, La Rioja, Cataluña, Comunidad Valenciana y Andalucía.



sábado, 30 de julho de 2011

Ciclismo jovem - Encontro Nacional de Escolas de Ciclismo em Mangualde

Cerca de 400 jovens ciclistas distribuídos pelas categorias de: Benjamins, 6 a 8 anos, Iniciados 9 a 10 anos, Infantis 11 a 12 anos e Juvenis 13 a 14 anos, num exemplo de abnegação, esforço e empenho pedalaram no Encontro Nacional de Escolas de Ciclismo, realizado no fim de semana de 23 e 24 de Julho em Mangualde, nas vertentes do ciclismo de todo o terreno (BTT) e de Estrada que finaliza a época dos encontros de escolas de ciclismo a nível Nacional.


A participação no BTT foi composta por 16 equipas com 7 a concorrer com todas as quatro categorias. Nesta vertente o encontro ficou por este motivo muito valorizado com esta participação, comparado com o encontro da época passada realizado também em Mangualde, em que o numero de equipas foi de 8 e só 3 é que se apresentaram com todas as categorias. O Sul do País continua com maior representação nesta vertente do ciclismo.




Na vertente da estrada sempre com muita participação, contou com 26 equipas e 14 a concorrerem com as 4 categorias, relativamente ao ano passado houve um pequeno decréscimo no total das equipas só com menos uma equipa, e aumentou este ano de mais duas equipas com as quatro categorias.


A organização da UVP-FPC (Federação Portuguesa de Ciclismo) está de parabéns por ter contribuido para que este encontro fosse um sucesso, pelo aumento significativo na vertente do BTT, assim como os colaboradores, Câmara Municipal de Mangualde e o Dá Gás, Clube de Mangualde, que acolhem sempre com muita simpatia este enorme pelotão de jovens e respectivas caravanas de apoio e logistica.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

VOLTA A PORTUGAL?


Olhando para o mapa desta 73ª edição da Volta a Portugal a Bicicleta ficamos com a sensação de que não é, efetivamente, uma volta a Portugal já que decorre, quase por inteiro, a norte do Tejo.

A exceção é a última etapa que decorre entre Sintra e Lisboa.

Será razoável e admissivel que, uma Volta assim, seja designada de Volta a Portugal.

CALDAS DA RAINHA - LISBOA (JÁ NAS BANCAS)

Cruzeiro das Termas do Vimeiro

Domingo, 24 de Julho de 2011
140 kms.
2858 m. de ganho de elevação (Fugawi)
Photos by APRO

O desafio havia sido lançado: a ligação entre as Caldas da Rainha e Lisboa em BTT. Além de mim e do habitual JC, apenas o Nuno Santos se prontificou a acompanhar ainda que apenas até ao Vale da Guarda (Malveira) já que por questões logísticas tenha optado por regressar a Torres Vedras por estrada.

Esta não era, à partida, uma ligação fácil com uma quilometragem elevada e uma altimetria pesada a exigirem um apuro de forma razoável. Havia ainda o problema logístico que constitui sempre um quebra-cabeças quando o traçado é retilíneo e o ponto de início não coincide com o de chegada.

Os primeiros quilómetros "à vela".
Assim, a aposta na ligação ferroviária logo de início permitiu estar sem o peso do horário de comboio a pressionar (e que foi responsável pelo facto de não ter completado percurso idêntico anteriormente). Ao mesmo tempo, iríamos a favor do vento e, neste domingo, a nortada fez-se sentir de novo fortemente. O vento, já o sabemos, pode ser um problema para quem pedala mas, tê-lo como aliado numa incursão que se fez de N para S, é um fator de agradibilidade acrescido. De resto a média superior a 15 kms./h com tal altimetria é bem elucidativa.


E chegados às Caldas (após 2 horas num regional) os primeiros vinte kms. até ao Olho Marinho foram percorridos a um ritmo infernal. Pudera, eram planos e no túnel de vento...

O Cársico no Olho Marinho
Aí seguiu-se um percurso muito duro até se chegar às termas do Vimeiro com um sobe e desce constante por vales profundíssimos a criar o primeiro desgaste verdadeiro. Começa por se subir até ao planalto das Cesaredas. Entramos assim no concelho da Lourinhã e no distrito de Lisboa começando a fletir para a costa. Desce-se para Moledo, torna-se a subir até Nadrupe, descendo e subindo à Marteleira e a Santa Bárbara (na violenta subida nem deu para pensar em trovoadas).

Seguiu-se a Ventosa, a Fonte de Lima e a descida por troço da PR3 que é um percurso de antologia: rápido e técnico q.b. perante a satisfação generalizada para se rolar, depois, tranquilamente na estrada das termas que acompanha o troço final do Alcabrichel.

Final da descida do PR3
A partir daí e de novo a subir com uma descida para Ponte do Rol onde se restauraram algumas energias. Para subir de novo em direção a Freiria e à temível Serra de Chipre para mais com um engano que nos valeu uma subida extra a empurrar a bicicleta.


Na descida para o Vale da Guarda o cruzamento com um grupo de turistas americanas, devidamente capitaneadas por uma taxista de Mafra (a pé) e em demanda do Centro de Recuperação do Lobo Ibérico. A desorientação era tal que uma delas, quando nos avistou, gritou "human beings!" (thank God).




No cruzamento do Vale da Guarda com a N8 despedimo-nos do Nuno e seguimos em direção à Malveira não sem antes ter se subir longa e lentamente o Jerumelo por um caminho insano. Aí chegados rapidamente chegamos à vila saloia da Malveira onde aproveitamos para restaurar energias num local fantástico.


Detalhe perto da Lourinhã.
Trata-se de um botequim, aparentemente normal mas que, além de aliar a qualidade ao baixo preço, possuía uma caraterística interessante: a respetiva proprietária funcionava qual oráculo de Delfos respondendo a todas as questões que iamos levantando. Era uma espécie de versão coscuvilheira do Google porque, diga-se em complemento, nem a senhora estava na nossa mesa, nem estávamos a falar com ela mas, apesar disso, as respostas sucediam-se em catadupa. No final ainda disse para voltarmos sem as bicicletas pois assim estavamos a comer muito puco por causa de subir o cabeço de Montachique (sim, ela até sabia que íamos subir Montachique). Notável!



O problema foi mesmo esse, subir Montachique depois de cruzar inferiormente a A8, naquele que foi, sem dúvida, o maior e derradeiro esforço do dia. A partir daí foi uma descida monumental desde aqueles altos até à várzea de Loures e que descida, meu Deus. A verdade é que já a merecíamos.

A terrível subida do Cabeço de Montachique.
Destaque ainda o palácio da Mitra no Tojal que é sempre um ex-libris a não perder. A partir daí foi circular ao lado do Trancão pelo já conhecido caminho do Tejo até ao Parque das Nações e daí até casa.

Para trás ficou uma incursão longa e dura mas que, curiosamente, se percorreu com elevada agradabilidade.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

CAUTELA !


Exultamos, os betetistas, por "um dos nossos" ter levado de vencida o "Tour" na sua edição 2011.

Ora, atendendo ao que tem sucedido em edições anteriores acho que deveria de mediar um mês entre a última etapa e a atribuição definitiva da vitória ao ciclista que chegou a Paris com a "amarela".

Assim e, por cautela, o "nosso" Cadel Evans é apenas "putativo vencedor" pelo menos até que cheguem os resultados definitivos das análises...

quarta-feira, 20 de julho de 2011

CALDAS DA RAINHA - LISBOA (NO PRELO)


A proposta para o próximo domingo já foi tentada, anteriormente, a solo.

Porém, em virtude do condicionamento que representa o horário do comboio na linha do Oeste, apenas cheguei até ao Bombarral já que, ousar ir mais além, poderia significar ficar sem possibilidade de regresso.

Desta vez há que usar um expediente óbvio: rumar logo às Caldas da Rainha de comboio a partir de Lisboa e então, sem estar condicionado pela ferrovia e os seus caprichos horários.

Tal significa, porém, uma altimetria maior do que ligar de S para N. A quilometragem, essa, será superior aos 150 kms.

O relato virá mais tarde.

ARRÁBIDA’S WILL - TRAVESSIA DO PNA


Domingo, 17 de Julho de 2011
115 kms.
2812 m. de vertical acumulado

Melhora o condicionamento, aumentam de interesse, quilometragem e dificuldades as nossas incursões.


Foi tempo de retornar à Arrábida, território tantas vezes percorrido e explorado que foi objeto de um esquecimento virtuoso durante anos. É que, este retorno, teve o condão de a um tempo ser um deja vue e uma redescoberta. É, se quisermos, uma adaptação do velho ditado: "nunca voltes a um lugar onde já foste feliz", mutatis mutantis por um "volta apenas, anos volvidos, a um lugar onde já foste feliz".


E, porém, a Arrábida é estonteante nas suas paisagens, nos seus vales, nas suas matizes e, acima de tudo, nos contrastes que estabelece com o Atlântico, num jogo feliz entre o verde e o azul que empresta toda uma cenografia, bem asada aos nossos olhos e às objetivas fotográficas. Recordo-me de ter dito que são únicas estas paisagens em Portugal e muitos concordarão comigo. Basta chegar ao cimo de um monte, num dia solarengo, olhar “lá para baixo” e ter um mínimo de sensibilidade.

Mas vamos à incursão.

A ideia foi cruzar o Parque Natural da Arrábida (PNA) de lés a lés e retornar procurando, ainda, alcançar o alto das suas três fortalezas (Palmela, Setúbal e Sesimbra) bem como o santuário de Nossa Senhora do Cabo Espichel no extremo poente do PNA. A previsão inicial era ousada: perto de 120 kms. e quase 3.000 m. de acumulado, números que a contagem final não desmentiu.


O início, por uma questão de comodidade, deu-se em Palmela, porém lá bem no topo junto ao seu castelo de forma a não existir possibilidade de escusa final. Para o bem e para o mal haveria de se ter de subir a vila até àquela fortaleza que, curiosamente, alberga a sede da Ordem de Santiago em Portugal e, só deste modo, estaria completa a incursão. Depois da descida pelo parque e após a vila pela saída clássica da Serra do Louro deu para (re) constatar que, a área do PNA é, cada vez mais, uma zona predileta para o BTT, rivalizando na densidade de bicicletas com a Serra de Sintra num domingo de manhã.

Percorrida a serra do Louro a descida da portela deu-se por um simpático e ancestral single-track até ao Vale dos Barris e daí, de novo, “lá para cima” para o sopé da Serra de São Luís que foi contornada por SW descendo e cruzando, logo após, a N10 por uma subida da calçada romana até ao bairro do Viso já nos limites da cidade de Setúbal. Esta ida a Setúbal constitui praticamente uma inversão de marcha para mais quando tiveram, desde logo, de ser vencidos dois vales, o primeiro dos quais a exigir forte empenho. No forte / pousada de S. Filipe, uma pausa contemplativa para vislumbrar, do alto, a cidade e a incrível baía.


De imediato seguimos para poente pelo topo antes da descida, forte, para a foz da Comenda e daí pelos altos da Rasca. Esta foi uma opção que não vingou já que, na prática, se trocou a clássica e sempre agradável subida da ribeira da Comenda até Picheleiros por um sobe e desce muito difícil num piso de difícil aderência, obrigando a desmontar com frequência nas subidas e sem que a paisagem constituísse sequer uma mais valia, nem mesmo o seu single-track final, por muitos apelidado de “maravilha” mas que, na prática, se encontra em más condições obrigando a um desmontar permanente.

Após o cruzamento dos Picheleiros abandonamos a estrada para uma breve incursão, encosta acima, pelo estradão das quintas num conjunto extenuante mas muito interessante pelos locais que visita: são as quintas dos Picheleiros no seu melhor bem enquadradas pelo monte Formosinho (topo da Arrábida). Pausa na cafetaria do Parque de Campismo já com algum desgaste e lá seguimos em direção a Casais da Serra contornando todo o sopé da serra num percurso muito rápido e lindíssimo.

No lugarejo, a compra de uma garrafa de água num restaurante repleto de clientes e com o cheiro a sardinha assada omnipresente em plena hora de almoço, a criar um sentimento de revolta. É que perante tão aromático repasto, o contraste era gritante com as barras de muesli que povoavam o bolso da minha jersey.


Rapidamente seguimos desta vez em direção a Sesimbra primeiro pelo estradão e depois pelo caminho das pedreiras e, muito rapidamente, estamos em Santana perante a íngreme rampa de acesso ao castelo que alcançamos e cujo interior percorremos saindo pela sua porta NE e mimetizando a PR que desce a encosta num single-track de antologia (este propriamente “maravilha”) pelo meio de um túnel de arvoredo onde, a espaços, se vislumbra o mar com a piscatória (e turística) Sesimbra lá bem embaixo. O trilho está muito bem conservado e é todo ciclável (à exceção de um pequeno salto) e revelou-se como o verdadeiro landmark da jornada.


O problema é que, como em tudo na vida, há sempre uma contra-reação, neste caso baixamos de cota de tal modo que, para retomar uma altitude semelhante à que foi perdida foi necessário efectuar a temível subida do Sentrão, provavelmente a mais dura e longa da jornada, por um estradão de tout-venant. Recordo-me de, por mim, passar uma viatura (também subindo com alguma dificuldade) e de o ocupante me ter gritado "isso é que é vontade". Fiquei a meditar naquela frase e de facto acho que, a mesma, traduz perfeitamente o espírito - foi penosamente, metro após metro, que chegámos até ao Zambujal de Cima e à N379 que percorremos para poente durante cerca de um quilómetro à falta de alternativa.


Rapidamente nos desembaraçamos da mesma e cruzamos os rápidos estradões paralelos que cruzam a Aldeia Nova da Azóia, primeiro, e a Serra de Azóia, depois. Nesta terra paramos um pouco na cafeteria do clube desportivo local para restaurar algumas energias perante alguns olhares curiosos. Seguimos então, após o fim do estradão que aqui termina cruzando os quilómetros finais que nos separam do Cabo Espichel perante uma ventania inclemente que aqui parece vir dos quatro quadrantes em simultâneo.

No incrível santuário as obras de restauro tardam a chegar mas, no entanto, há algumas novidades que sem custarem dinheiro melhoraram a qualidade de visitante de quem ali demanda: a colocação de uns simples pilaretes metálicos impede agora os carros de alcançarem quer o adro da igreja e das antigas celas dos romeiros, quer o próprio cabo. As vezes gestos simples são os suficientes para resolver situações aberrantes.


Em virtude da fortíssima nortada optámos por um plano B relativamente à travessia das terras a norte do Cabo até ao Meco. De facto, procurámos um trajecto um pouco mais interior e direto à praia da Foz já que, com tamanhas rajadas não era muito conveniente pedalar em zona de falésia. Estas terras do Meco são uma paisagem à parte e diferente de tudo aquilo a que estamos habituados e onde guiarmo-nos por um aparelho de GPS é quase condição sine qua non.

O resto do percurso pouca história tem de contar já que, após Aiana de Cima e até Aldeia de Irmãos e Vila Nogueira de Azeitão, se limita a cruzar pinhais infindáveis. De novo nas terras do PNA a passagem pelas ruas reconditas de Azeitão a mostrarem o esplendor das quintas e o ambiente bucólico que caracteriza um das terras mais tradicionais da região e do país.


Rapidamente vencemos os metros até à Igreja das Necessidades onde cruzámos a N10 e começamos a descer de modo rapido o estradão de tout-venant até ao vale dos Barris. Aí chegados uma opção tática de gestão do esforço levou-nos a subir o caminho da portela da Serra do Louro em detrimento de continuar pelo Vale dos Barris: preferiu-se vencer os cerca de 300 penosos metros da subida da portela de uma só vez do que o vale continuamente em direção a Palmela. A escolha coincidiu com a vantagem de tornarmos a repetir o sempre incrível troço dos moinhos do Louro desta vez no sentido descendente o que, convenhamos, é sempre bem mais gratificante.

Alcançada Palmela faltava ainda a subida final ao Castelo. A vontade e as forças já não abundavam mas "tinha de ser", e lá fomos no quilómetro derradeiro, subindo, vila acima até ao castelo, ao final da incursão e ao descanso.

Para trás ficou a incursão mais dura da época, bem mais do que o clássico "Fátima" (apesar dos seus 165 kms.). Mas o grau de satisfação é equivalente à dureza da mesma a que não são alheias das paisagens mais impressionantes que se podem encontrar em Portugal e que, tal como Torga relativamente ao Douro, Sebastião da Gama, o poeta de Azeitão, tão bem nos cantou aquela a que chamou a Serra Mãe.

Este seu poema mais conhecido traduz, afinal, a essência do BTT:

Pelo Sonho é que vamos, comovidos e mudos. Chegamos? Não chegamos? Haja ou não haja frutos, pelo sonho é que vamos. Basta a fé no que temos, Basta a esperança naquilo que talvez não teremos. Basta que a alma demos, com a mesma alegria, ao que desconhecemos e do que é do dia-a-dia. Chegamos? Não chegamos? - Partimos. Vamos. Somos.

Sebastião da Gama, Pelo Sonho é que Vamos

terça-feira, 19 de julho de 2011

LOULÉ, TERRA DE TRADIÇÕES E DE BICICLETAS




O texto que se segue é da autoria de um grande algarvio que dá pelo nome de José Mendes Bota.

Por força das circunstâncias tive e tenho o grato prazer de ser seu amigo e sei, de mote próprio, que a paixão com que se entrega às suas responsabilidades conferem uma marca especial a tudo quanto faz. Também a sua passagem pelo ciclismo na condição de dirigente desportivo não constitui excepção tal como o prova o texto que abaixo se transcreve. 

Nele, Mendes Bota elabora um depoimento sobre a sua vivência no ciclismo, como adepto e como dirigente clubístico e associativo, e sobre a importância que o desporto velocipédico teve e tem no município de Loulé. Um testemunho para o escritor Neto Gomes, que prepara um livro sobre o ciclismo em Loulé. 

Acresce ainda a circunstância de, Mendes Bota, ser tio de uma atleta de referência no BTT algarvio e nacional (vertente de XC) que dá pelo nome de Irina Coelho também ela uma orgulhosa louletana.

PR

LOULÉ, TERRA DE TRADIÇÕES E DE BICICLETAS
Por José MENDES BOTA

O ciclismo é um dos desportos mais  belos e emocionantes do mundo.  Esta característica é  hoje alavancada pela televisão, que permite um acompanhamento em tempo  real das competições, à disposição universal de toda a gente. Tive etapas diferentes à volta das voltas. 

O despertar numa terra que amava o ciclismo de uma forma entusiasmada, aconteceu na  década de sessenta. E os heróis chamavam-se Vítor Tenazinha, Valério Chocolateira (o da camisola amarela), Perna Coelho, Casimiro Cabrita, e muitos outros que recordarei depois de  ler este livro do Neto Gomes. 

Os dirigentes eram o Bexiga Peres e o dr. Manuel Gonçalves. O técnico, massagista, mecânico e faz-tudo-o-resto, o polivalente Manuel Costa. Não havia televisão. As notícias chegavam via rádio, não raramente, por telefone. Fulano ia em fuga em Beja, com meia hora de avanço, a chegada era em Faro. E lá ia foguete. Se a vitória sorria às camisolas de listas verticais vermelho e branco, era um arraial de S. João. O povo saía às ruas, juntava-se nos cafés, era a alegria geral. 

E assim, à distância, se ia acompanhando as proezas e as desilusões dos heróis do pedal de Loulé. Havia outras equipas, de amadores, como o Atlético, e disputavam-se muitas provas pelas aldeias. Aos domingos, a pista do Estádio da Campina, com o seu perigoso empedrado irregular, posteriormente coberto de sal-gema, enchia de multidões para ver o espectáculo de sprints com os rivais de Tavira capitaneados por Jorge Corvo, e equipas de fora como o Benfica ou o Sporting. 

Voltei à estrada, após o 25 de Abril, como dirigente do Louletano com 18 anitos de idade, liderando uma equipa fraquita na Volta a Portugal, que acabou muito desfalcada pelas desistências e pelo Captagon do Manuel Beirão (nunca mais esqueci estes nomes…), mas tive a honra de acompanhar e apoiar um dos maiores trepadores do pelotão nacional, chamado José Madeira. Foi uma experiência inolvidável, prometo um dia, quando recuperar o meu arquivo gigante de papelada, fazer um livro só sobre as vivências ciclísticas. 

Em 1978, salvo erro, convenceram-me a presidir à Associação de Ciclismo do Algarve, onde estive até 1984. Era uma equipa de gente voluntariosa, o “Favas”, o José Manuel Farrajota, o António da Avó, o “Zequinha” (hoje sr. Viegas Ramos) e muitos outros, que conseguiu recuperar a Volta ao Algarve para o calendário velocipédico nacional, num tempo em que não era fácil arranjar patrocínios. Trouxémos duas vezes a selecção da Lituânia (ainda na época do império soviético), e quase se arranjou um conflito diplomático, pois queriam todos
pedir asilo político. Criámos selecções de escalões juniores onde despontaram alguns valores interessantes, a coisa dinamizou com muitas equipas novas, um pouco por todo o Algarve. 

No princípio da década de oitenta, por duas vezes, integrei o júri da Volta a Portugal, no tempo de Mário Ferreira e Francisco Nunes na Federação, e assisti ao segundo lugar do maior ciclista algarvio que vi correr até hoje, Luis Vargues, então a correr pelo Campinense, e cuja carreira poderia ter ido mais além, pois tinha potencial físico para isso. Ali continuei, conciliando este hobby com os primores de um percurso autárquico. Penso que deixámos a Associação, sediada em Loulé no torreão do mercado municipal, com algo mais do que a caixa de sapatos com meia dúzia de fichas que herdámos. Até ao dia em que o cão atravessou a marginal de Quarteira numa Volta ao Algarve, e Joaquim Agostinho caiu desamparado, sem capacete, traumatizado, foi tarde para o hospital, não havia helicópteros no Algarve, quando chegou a Lisboa era tarde demais. Nesse dia, tomei a decisão de abandonar o ciclismo. Era o presidente do júri dessa prova. E apercebi-me do amadorismo sem rede em que todos ali andávamos, e nos riscos em que incorria o nosso voluntarismo, na base das boas-vontades. Ainda tenho gravadas na memória as imagens do campeão em sangue, do José Alentejano a fazer de enfermeiro. Numa história que tem contornos que nunca foram contados como deve ser, e aqui não serão. Ainda. 

Afastei-me do ciclismo activo, até hoje. Tive uma intervenção decisiva junto do holandês “patrão” de Vale do Lobo, que o convenceu a fazer uma parceria com o Louletano, criando a melhor equipa de Loulé, e do Algarve, que jamais se formou nesta terra, nesta região, e ganhou tudo o que havia para ganhar em Portugal. Desde logo, o pequeno inglês maluco, Cayn Theakston, vencedor da Volta a Portugal. 

Mas era uma esquadra, liderada pelo experiente Marco Chagas, com o Joaquim Gomes, o Cássio Freitas e tantos outros ciclistas de primeira linha do pelotão nacional. Tudo isto começou para que o resort turístico “pagasse” à autarquia de Loulé uma dívida de 40.000 contos. Estive lá, a assistir pelo ar à última etapa da consagração louletana. Como esquecer? 

Deixei o ciclismo, mas por dentro, o coração continua a palpitar de emoções. Tornei-me adepto de sofá. Sempre que posso, não perco uma transmissão em directo. A beleza das paisagens. O tacticismo das equipas. A força dos atletas, o colorido das camisolas. Claro que preferia os clubes tradicionais, em vez das marcas comerciais. Mas a vida é assim. O desporto é belo. Chorei ao lado dos atletas. Berrei até à exaustão atrás deles. Mudei rodas furadas num ápice. Matei-lhes a sede com bidons de água fresca. Levantei-os das quedas e empurrei-os de volta à estrada. Partilhei o nervosismo que antecede as partidas. Vi seringas, cápsulas, sou do tempo das algálias, tenho histórias para contar que nunca mais acabam. Umas de rir, outras de espanto, e outras de chorar.

O ciclismo é como a caça e a pesca. Por cada conto, acrescenta-se um ponto. Exagera-se um bocado, mas enche-nos a alma. Se não tivesse nascido e crescido em Loulé, é possível que tivesse passado ao lado do ciclismo. Loulé foi terra de bicicletas. Já não estou seguro que seja assim, embora haja o BTT e pedalam centenas de amantes do pedal aos domingos de manhã. O mundo muda, e a nossa terra também. Lamento que não se tivesse feito um velódromo a sério, em vez de um estádio  enorme que serve para muito poucos. 

Poderia ter sido a sede do ciclismo algarvio, um verdadeiro pólo de animação desportiva e de atracção turística. E ficava em Loulé. Terra de tradições e de bicicletas.

Loulé, 28 de Junho de 2011

quarta-feira, 13 de julho de 2011

PORTALEGRE, "FUNDAMENTALMENTE TRANQUILIDADE"


Fotos by PR aqui

Volta tranquila em Portalegre, no sábado passado, a combinar com o dia e com a própria região.

O meu amigo João Neves alinhavou uma incursão simples por zonas bucólicas num triângulo com cerca de 37 kms. entre Portalegre, Castelo de Vide e Fortios de baixa altimetria e elevada agradabilidade a combinar com o dia e a região.

Acompanharam-nos o Luís Calado e o Francisco Sampaio Soares, companheiros simpáticos.

Todos os ingredientes estiveram reunidos para uma incursão simpática e a constituir o prelúdio certo para a previsível incursão demolidora do dia seguinte em Macedo de Cavaleiros.

A PROEMINÊNCIA TOPOGRÁFICA


A subida a Bornes, uma serra cujo topo se situa aos 1.200 m., levou-me a descobrir um conceito topográfico e orográfico que empiricamente já se me deparara: a proeminência topográfica.

De acordo com a incontornável Wikipedia: a proeminência é um dado tão ou mais relevante que a altitude para determinar a importância de uma montanha. É uma medida objectiva que se relaciona fortemente com o significado subjectivo de um cume. Dá-nos ideia da sua relevância com referência às montanhas que a rodeiam. Os picos de proeminência baixa costumam ser picos subsidiários (subcumes) de outros principais, e os de proeminência alta indicam que a relevância da montanha é elevada, tendendo a ser os pontos mais altos da vizinhança e costumam ter vistas desafogadas em seu redor.
Devido ao conceito de proeminência, os três cumes secundários do Kanchenjunga que estão acima dos 8.000 metros não figuram na listagem oficial das montanhas com mais de oito mil metros de altitude já que entre elas há muito pouco desnível (têm pouca proeminência) o o K2 (altitude, 8.611m; proeminência, 4.017 m) é considerado o segundo cume mais importante, à frente do cume sul do Monte Everest (altitude, 8.749 m; proeminência, 10 m).

Ou seja, este conceito é bem mais importante do que a altitude absoluta de uma montanha. Quando tivermos de subir uma convirá que o tenhamos em consideração não só pelo esforço que ela nos exigirá mas também pelos panoramas que, do topo, lhe cobraremos.

BORN(ES) TO BE ALIVE!



Azibo - Serra de Bornes - Azibo
Domingo, 10 de Julho de 2011, dia de São Cristóvão (mártir)
76 kms.
2.700 m. de acumulado vertical


Photos by PR


Quando aqui vos dei conta de incursões anteriores e da dureza física que representaram, seja pela quilometragem, seja pela altimetria - ou pela conjugação de ambas - deveria, em abono da verdade, ter feito uma ressalva de que, como em tudo na vida, havia uma relatividade inerente a essas aferições.

No passado domingo, respondendo a um convite do JC por mim sucessivamente adiado, de uma incursão na área de Bragança (sua terra natal) e, após dos 76 mais difíceis quilómetros dos últimos tempos, dei por mim a cogitar sobre esta mesma relatividade.

As altimetrias das serras do Nordeste são do mais expressivo que se pode encontrar em Portugal Continental. Na zona de Bragança, um trio de serras justifica esta afirmação plenamente: Montesinho (1.486 m.), Nogueira (1.318 m.) e Bornes (1.200 m.).


Como, as duas primeiras, já haviam sido objecto de incursões anteriores em BTT, sobrava a "mais baixa", ou seja, a serra de Bornes, em Macedo de Cavaleiros que, apesar de altitude inferior, apresenta um dado curioso que são os seus 621 m. de proeminência topográfica e que a convertem numa das montanhas mais relevantes de Portugal apesar de não ser das mais altas, ou seja, a partir do "ponto de sela" (ou portela) é este o valor ascensional, em metros, que terá de ser vencido para se alcançar o topo. E subir uma montanha destas, tal como a Estrela, a Gardunha ou São Mamede, é "outra loiça" já que a resiliência física é testada aos limites.

Estabelecemos um plano de ataque que incluía a magnífica Praia do Azibo como local de partida e chegada, por motivos óbvios. Assim começámos por volta das 09:00 rolando ao longo da sua margem esquerda, tranquilamente a princípio mas, em virtude do relevo, o empenho teve de ser reforçado para levar de vencida um par de rampas por volta da povoação de Santa Combinha.


Até alcançarmos o paredão da barragem realce para a passagem de um par de locais paradisíacos desta bem aventurada "paisagem protegida" com o bosque de sobro junto ao plano de água a fazer as delícias dos sentidos. Após a travessia do muro da barragem seguimos junto ao canal de irrigação que abandonamos, pouco depois, descendo em direção a Vale da Porca, berço do emigrante português mais bem sucedido (se excecionarmos os pontapeadores de esférico), i.e. Roberto Leal.

Descida para a antiga estação ferroviária do Azibo da antiga Linha do Tua e visão do habitual cenário de desolação associado às ferrovias abandonadas. De imediato a recordação do trabalho inter-municipal no Dão, reportado aqui na semana anterior: se já não serve para comboios, que sirva paras as gentes e o seu lazer. E que bela ecopista daria de Mirandela a Bragança.


Seguimos o curso do rio Azibo (a jusante da barragem) e começamos a ascender para o santuário de Santo Ambrósio e daí seguimos para a abordagem às altitudes da serra. Se, até aqui, as dificuldades eram apenas normais, entravamos agora no reino da extrema dureza. Efetivamente, em dez quilómetros, fomos dos 530 aos 1150 metros por um estradão de tout-venant de serventia ao parque eólico sem que a pendente desse outra trégua que não fosse uma inclinação constante. Confesso que já estava desabituado deste tipo de ascensão e o truque habitual de manter o pulso controlado debaixo de um ritmo constante aqui não surtiu um efeito permanente pelo que nos vimos na contingência de efetuar um par de paragens técnicas para recuperar o fôlego e retomar a ascensão.


Tinha sido possível evitar as pausas mas isso seria conseguido à custa de uma carga anaeróbica constante que cobraria a sua fatura adiante e na posterior recuperação. Julgo termos optado pela melhor solução já que se alcançou o falso topo sem pagar um preço demasiado elevado. O problema é que, neste plateau estávamos já a 50 metros do cume (1.200 m.) e quando seria lícito esperar que apenas restassem 50 m. eis que se nos deparam mais sete quilómetros de um ondulado em que a descidas vertiginosas se seguiam subidas a condizer num "rompe pernas" de alta montanha a acrescentar um tipo de dureza diferente.

Não admira pois que o cume tenha sido alcançado com um misto de enfado, cansaço e glória. Mas aquela vista, meu Deus, merece todos os sacrifícios deste mundo. E, de novo, aquela sensação de compaixão pelos sedentários deste mundo que jamais desfrutarão deste aparentemente contraditório prazer em que o estoicismo antecede e valoriza o epicurismo.


A curta descida até à aldeia de Bornes foi outro momento de antologia. Foi efectuada por um estradão serpenteante onde, bem vistas as coisas, teria sido de todo impossível de ascender, seja pela pendente, seja pelo estado do piso. Esta é uma daquelas incursões que não admitem ver o sentido da sua marcha invertido e em que uma descida entusiasmante teria dado uma subida impossível. Valeu assim a descida ainda que, à semelhança da ascensão anterior houve que parar um par de vezes para descansar, neste caso, os braços e as pernas, em virtude da tensão muscular necessária para ter tudo debaixo de controlo.

Daí que a detente, no café da Aldeia tenha sido novo momento de glória a convidar a uma fresquísisma imperial na ausência de champagne. Como são mágicos estes momentos.


O melhor estava ainda para vir - vencido o viaduto sobre o novíssimo troço do IP2 seguiu-se um longo, inolvidável e quase ininterrupto downhill até Cernadela. A pendente fraca a proporcionar uma velocidade relativamente elevada ma non troppo por forma a tudo estar debaixo de controlo e se desfrutar da alegria que só um trilho daqueles, encaixado entre-muros em paisagem mediterrânica (nem faltavam as oliveiras), pode proporcionar. Receio, todavia, não conseguir descrever minimamente aquilo que só a estimulante vivência pode proporcionar.

Naturalmente recordo de ter dito que, tamanho bónus, teria um preço caro a pagar. A experiência ensina-nos que a uma descida equivale uma subida, para mais uma descida de antologia teria um reverso da medalha adequado e  que, após Cortiços, não se fez esperar obrigando a desmontar algumas vezes num conjunto de rampas curtas indispensáveis para vencer uma portela dura de roer.


Felizmente não demorou muito tempo para se alcançar o canal de irrigação e, preguiçosamente, junto a ele se rolar até Macedo de Cavaleiros que rapidamente se cruzou. Havia que chegar à praia do Azibo embora ainda tendo de se ascender mais um pouco após Vale de Prados.

O gran finale ficou reservado para percorrer tranquilamente a margem direita da albufeira que, ao contrário da oposta, é planíssima como convém após tão intensa quilometragem. Mas o melhor mesmo foi o banho no imenso lago do Azibo na praia fluvial que exibe orgulhosamente, há anos sucessivos, uma bandeira azul atestadora de uma qualidade que, de resto, só quem for cego não vê.



Alguém batizou um dia, uma incursão semelhante: Bornes to be Alive ou, acrescentaria eu, como passar um dia em cheio no nordeste transmontano!