terça-feira, 5 de junho de 2007

RELATO II RAIDE BTT SETÚBAL - ALGARVE - parte II - texto: Rui Sousa, fotos: Ricardo


O tempo tem sido escasso, por isso só hoje completei o relato do 2º dia do

Raide da FCPUB. A memória começa a falhar, mas aqui vai:

Dia 1,5:

As noites loucas de Odemira:
Depois do empeno dos 140 km sobe muito bem o banho quente e o lanchinho
comprado no supermercado pelos colegas organizadores que já tinham chegado!
Eles entretanto foram indo para o restaurante e eu e a Marta ficamos a
acabar de nos arranjar.
Felizmente para o centro de Odemira era sempre a descer…mas o empeno era tão
grande que me consegui perder, fui ter para lá da ponte sobre o Rio Mira e
andava à procura de uma rua à esquerda quando afinal queria era ir para a
direita. Lição aprendida, no caso de grande empeno, levar sempre o GPS!!!

O telefonema para o restaurante no dia anterior a lembrar que iria haver
invasão de famintos deu bom resultado. Comi uma bela vitela estufada com
muito esparguete!

A esplanada exterior do restaurante foi invadida pelos seres esfomeados, a
senhora do restaurante não vai esquecer esse dia tão cedo, de tanta comida
que nos serviu! Os seres esfomeados aproveitaram também para contar as
“estórias” do dia e para o Sr. Caetano (presidente da FPCUB) fazer a chamada
como na escolinha, para distribuir os cartões aos novos sócios!

A subida para o pavilhão serviu para esticar as pernas e foi feita pelo
caminho certo, apesar das dúvidas de alguns ilustres conhecedores daquelas
paragens. Afinal não era só eu que andava perdido!

No pavilhão já muita gente dormia. O responsável pelas instalações estava
preocupado, pois pela noite dentro ia ser desmontada uma estrutura na sala
ao lado (de um espectáculo de Wwrestling), iam ter que fazer algum barulho.
Se o fizeram ou não, desconheço, mas a verdade é que ninguém ouviu nada,
dormiram que nem uns anjinhos!


Dia 2:

Hora de acordar:
Mal começou a entrar luz pelas janelas do pavilhão, os mais madrugadores
acordaram. Todos os outros foram acordando, com maior ou menor dificuldade,
e rapidamente o pavilhão se tornou numa espécie de bazar. Sacos para aqui,
mochilas para ali, sacos-cama, colchões, garrafões de água, bananas, barras,
sandes, sumos. E ao fundo, cheias de pó e alguma lama, os veículos de
tortura aguardavam ansiosos para mais 120 km de aventura.

Como é normal, pela presença do rio Mira, cá fora estava algum frio e
nevoeiro. No exterior formou-se uma pirâmide de sacos e mochilas (o camião
só vinha mais tarde recolher o material) e os participantes doridos e com
sono faziam as ultimas afinações nas bicicletas.

Pelo rio acima, a afastar o nevoeiro
Com o pequeno atraso da praxe, foi dada a partida, Odemira abaixo. O frio
apertava, mas não era boa ideia levar roupa quente, o sol prometia vencer as
nuvens rapidamente.

Ao contrário do ano passado, não passámos o rio Mira em Odemira, seguindo-se
junto a ele por alguns quilómetros, pela margem norte. Tal como no dia
anterior segui atrás da caravana, acompanhado pelo Triguinho e pela Sandra
Correia, outra participante feminina, que foi sempre junto de membros da
organização, pois os companheiros de equipa estavam a treinar para o
Transportugal. A Marta resolveu não fazer estes primeiros quilómetros, pois
já os conhecia do reconhecimento, pelo que seguiu na pick-up jipe até São
Marcos da Serra.

Logo após as primeiras subidas encontrei os Chaparros em dificuldades. Uma
corrente, que apesar de nova, teimava em não colaborar. Fiquei com eles,
continuando o Triguinho e a Sandra a pedalar. Corrente ligada, lá seguimos,
às curvinhas pela margem do rio.

Infelizmente o nevoeiro não deixava ver toda a paisagem, mas o que se via
era muito belo. Não me vou esquecer tão cedo de uma seara ainda verde, mas
com as espigas totalmente brancas, por absorverem as gotas do nevoeiro.
Felizmente foram tiradas algumas fotos neste local!

Mas os problemas mecânicos não tinham terminado. Um pouco mais à frente
estavam as Raposas do Mato, com o primeiro de muitos furos do dia, pelo que
até ao final foram a minha companhia. A passagem do Mira estava próxima.
Apesar da grande extensão de água que era preciso atravessar, podia-se fazer
tudo a pedalar e aproveitar para lavar os cubos das rodas.

A Portela da Fonte Santa já estava próxima, local onde íamos fazer um pouco
de asfalto, numa estrada nova e praticamente deserta, acompanhando de perto
o Mira até Sabóia e dai até ao Viradouro. É uma estrada com uma paisagem tão
bela que quase se esquecem as subidas que tem pelo meio. Do lado direito
mais selvagem, do lado esquerdo grandes searas ou terras de cultivo com
pequenas plantas e flores das mais variadas cores.

No Viradouro atravessamos a EN 266, passando a acompanhar a renovada linha
de caminho de ferro do Sul.

Pela linha abaixo, olha lá vai o Pendular
Logo ao sair da EN 266 atravessamos um pontão sobre a Ribeira de Telhares,
que iremos atravessar inúmeras vezes até chegar a Pereiras. No início
seguimos por um estradão novo que parece ter servido de apoio à renovação da
linha, mas depois de um pequeno desvio à direita entramos num caminho mais
antigo e fechado. Começa aí a saga dos atravessamentos da ribeira, que tem
uma água cristalina e fresca. Com o Raide mais para o verão dava banhoca na
certa!

Foi dentro de uma destas ribeiras que voltei a encontrar os Chaparros, não a
tomar banho, mas outra vez com a mesma corrente partida. Aproveitando o
facto de o jipe vir mesmo atrás, resolveu-se o problema de vez, com uma
corrente nova.

Sobe, desce, desvia do calhau e das rãs.
Em Pereiras atravessamos a linha do caminho-de-ferro por uma passagem
superior, entrando no troço mais selvagem de todo o Raide (onde até uma
lebre vimos durante os reconhecimentos).

É uma zona dura, com descidas e subidas bem inclinadas e com alguma pedra à
mistura. A paisagem à volta é completamente selvagem, onde só muito
raramente se vê intervenção humana. Nas zonas mais baixas formam-se grandes
poças de água, que nesta altura do ano estão cheias de pequenas rãs (que
durante o reconhecimento eram apenas girinos).

No topo de uma das subidas mais difíceis estavam outra vez as Raposas do
Deserto, a descansar, pensava eu. Também deviam estar a descansar, mas
tinham tido outro furo. Novamente o jipe foi útil, para reforçarem o stock
de câmaras-de-ar, pois já se estavam a esgotar.

Depois de uma viragem à direita o percurso ficou menos agreste, seguindo
paralelo ao curso de uma pequena ribeira, incluindo um pouco mais à frente
uma longa descida bem divertida…excepto para as Raposas, que tiveram o 3
furo do dia quando ainda só tínhamos feito cerca de 40 km.

Comecei a ficar preocupado, pois as horas estavam a passar, ainda havia
muitas dificuldades pela frente, o autocarro de regresso estava marcado para
as 20 horas. Tive que os disciplinar, pelo que os proibi de ter mais furos!
A partir daí portaram-se bem, os problemas mecânicos acabaram!

Não demorou muito mais para chegarmos a S. Marcos da Serra, onde a Marta nos
esperava numa fonte à entrada da povoação. Ao chegar dei duas apitadelas,
que a acordaram (já sabia que ia adormecer enquanto esperava por nós!).

Aproveitamos para repor as reservas de água, o calor tinha vindo em força,
eu já estava seco. Seguimos para dentro da vila, onde procuramos um café
para comer alguma coisa rápida, para não nos atrasarmos mais.

A Perna Seca ainda tem água
Como em S. Marcos da Serra não quis sair do track (podia alguma equipa ter
saído para ir a outro café e depois não os via passar), acabamos por parar
num tasco muito fraco. Mas deu para comer um chocolate, batatas fritas e
seguir viagem sem perder muito tempo.

Passámos por cima do IP1 e algumas curvas à frente encontrámos a ribeira da
Perna Seca, que com as chuvas de Abril ainda tinha bastante água! Mais
diversão, pois com o calor que estava sabia bem passar a ribeira vezes sem
conta “à abrir” e molhar os pés!

Abandonamos a Perna Seca num cruzamento à direita, para entrar num estradão
que mais à frente ganha uma camada de alcatrão. É ligeiramente a descer, o
que com o calor que estava soube muito bem, tanto que as Raposas do Deserto
ganharam velocidade e não olharam para o GPS, seguindo em frente na viragem
à esquerda novamente para terra.

A ribeira do Arade e a serra Algarvia a fazer mossa
Depois de entrarmos em terra seguimos direitos à Ribeira do Arade, que
atravessamos justamente na povoação com o nome da ribeira. Entramos aqui
numa dos locais com mais dificuldade do raide, pois pela frente temos, num
buraco, a ribeira do Gavião, caminhos cortados pela vegetação e cães do
tamanho de vitelos muitos zelosos do seu território…

Entramos assim numa montanha russa, que acaba numa descida vertiginosa quase
a tocar novamente a Ribeira do Arade…e uma subida ainda pior, até passarmos
dentro de um túnel, para atravessar a A2. Ufa. Mas já encontrámos
alternativas nas cartas militares, se para o ano os participantes oferecerem
um queijo da serra aos organizadores, prometemos encontrar um caminho mais
fácil!

Aproveitámos a sombra do túnel para comer e arrefecer, pelas minhas contas
estávamos a andar bem, ainda ia dar para jantar e tomar banho antes do
autocarro sair!

Após a passagem da A2 chegamos a Vale Figueira, onde entramos numa estrada
que nos permitiu fazer mais alguns quilómetros rapidamente, até à povoação
de Corchicas. Aí vamos seguir por um estradão em muito bom estado, mas não
sei antes fazer uma paragem junto de umas laranjeiras carregadinhas de fruta
com aspecto biológico!


Alte, Alte, Alto
Apesar dos quilómetros acumulados as Raposas do Deserto continuam a pedalar
a bom ritmo, assim como a Marta, que acumulou forças durante a sestinha em
S. Marcos da Serra.

Em Vale das Poças estava “empanado” um KedasBike, o David Santos, à espera
que a pick-up o viesse buscar. Já que estava ali o jipe, e felizmente ainda
vazio, liguei a avisar que já não era preciso.

E que bom local para desistir! Logo a seguir iniciávamos a subidas para o
alto, quer dizer, para Alte. Passamos primeiro por Santa Margarida e depois
por um trilho panorâmico até ao centro de Alte, que cruzamos bem pelo
centro, por ruelas estreitas, num pequeno down-town.

Bem vindos ao Reino da Laranja
À saída de Alte seguimos a meia encosta, no meio dos laranjais, com a
paisagem a lembrar as vinhas do Douro, mas muito mais perfumada. Quase que
se consegue imaginar os campos cheios de trabalhadores, a subir e a descer
os socalcos com pesados cestos cheios de laranja. Mas felizmente para os
trabalhadores, aqui o terreno não é tão inclinado!

Foi aqui que comecei a desconfiar que estava a fazer mal as contas aos
quilómetros que faltavam. Pensava que faltavam uns 30 km, mas estando em
Alte, Querença é já ali! Ainda bem, pois as Raposas começavam a mostrar
sinais de cansaço.

O terreno plano acabou subitamente numa curva apertada à direita, onde
entrámos numa rampa em cimento, que nos levou à povoação de Espargal. Era a
ultima dificuldade do Raide, não contanto com a chegada a Querença.

Ribeira “expresso” Algibre
Como durante o reconhecimento só encontrámos caminhos lavrados, barrentos e
húmidos (por estar a chover, uma mistura explosiva), a descida para a
Ribeira de Algibre é feita a alta velocidade por asfalto. Atravessamos a
ribeira e viramos à esquerda, pois vamos seguir pela sua margem quase até
Querença.

Entretanto disse às Raposas que só já faltavam uns 12 km e não 30, eles
ligaram um turbo e durante algum tempo desapareceram-me de vista, pois o
caminho sinuoso a serpentear a ribeira não permitia ver muito longe.

Voltei a apanhá-los junto ao cruzamento com as EN525 e EN524, sendo que
iríamos nesta última até Querença, pois o caminho junto à ribeira, durante o
reconhecimento, estava cortado por causa de um desmoronamento de terras.

Finalmente, Querença
Não demorou muito a aparecer a placa mais ansiada, Freguesia de Querença! E
claro, a já mítica subida, por uma calçada estreita e muito, muito inclinada
até ao Largo da Igreja, que infelizmente estava em obras. No meio da subida
vimos uma placa a dizer “Calçada Medieval”, ou seja, podia ter sido bem
pior!

Como fui dos últimos a chegar, já só tive direito a banho de água fria. A
freguesia de Querença é pequena, infelizmente os balneários não estão
dimensionados para tanta gente. Se aos primeiros sabe bem ficar uns minutos
debaixo do chuveiro, depois os últimos têm de tomar banho de água fria.

Mas o melhor estava mesmo no fim. Um divinal porco no espeto, que apesar das
horas tardias a que cheguei ainda estava quente, salada de arroz, pão,
fruta, vinho, sumos. Um muito obrigado a todo o pessoal da J. F. de Querença
por ter abdicado do descanso de domingo para nos receber tão bem.

Soube também muito bem voltar para Setúbal de autocarro, em vez de vir
apertado de carro. Pensava que o pessoal ia dormir a viagem toda, mas afinal
já tinha recuperado as energias gastas e aproveitou para meter a conversa em
dia e contar as aventuras do Raide.

Mas alívio foi só mesmo em Setúbal, quando alguns minutos depois do
autocarro, chegou o camião com as bicicletas e a bagagem. Felizmente tudo
tinha corrido bem, nada de muito importante falhou na organização. Ufa! Pior
foi ir trabalhar no dia a seguir…

Agradecimentos
Para terminar, umas palavras de agradecimento às pessoas/entidades que nos
apoiaram na organização: A transportadora FTS, com o camião para transportar
as bagagens e as bicicletas, a Rotas e Sistemas, com a sempre reconfortante
viatura TT, novamente à Junta de Freguesia de Querença e à Câmara Municipal
de Odemira (pelo pavilhão gimnodesportivo). Por fim, ao António Malvar, da
Ciclonatur, pelo apoio que deu ao nível de peças sobresselentes, mas
principalmente, por ter contribuído por vulgarizar o uso do GPS nas
bicicletas, o que nos permitiu organizar um evento deste tipo.

Obrigado também a todos os participantes e espero que até para o ano!


Rui Sousa

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