quinta-feira, 25 de junho de 2015

O MAIS CLÁSSICO DOS MOTORES


(Publicado na Revista "Motor Clássico" de Agosto 2014)

Poderá parecer estranho ou, pelo menos inusitado, uma rúbrica de ciclismo numa revista automóvel. Creio ser nosso mister desfazer, ab initio, este aparente paradoxo.

Assim sendo, se a publicação se intitula Motor Clássico, convém relembrar que por uma questão biomecânica o corpo humano com os seus ossos, tendões, músculos e articulações é na realidade um motor. Estamos assim perante a premissa maior.

O corpo é mesmo o mais clássico desses motores, bem antes do aproveitamento de outras forças motrizes como sejam o vento, as correntes dos rios, a gravidade, a força animal ou, mais recentemente, o motor de combustão interna. Esta é a nossa premissa menor.

Assim se compreende que a adesão da bicicleta ao título desta publicação resulta virtuosamente na conclusão incontornável desta argumentação lógica, ou seja, a bicicleta é o produto tecnológico que, com elevada fidelidade, traduz o conceito de Motor Clássico - a de um veículo movido exclusivamente pelo esforço físico do seu usuário.

Desfeito o aparente insólito inicial importa avançar no assunto procurando que não haja um desfasamento entre aquilo que aqui se escreve e a temática que cruza esta revista. Sendo a bicicleta um veículo sobre rodas, de maior antiguidade até que o próprio automóvel e fruto de uma evolução que, tal como este, tem vindo a aperfeiçoar o seu design e desempenho (sem trair o que lhe está na base - a força humana - tal como o motor de combustão interna no caso daquele) fácil se torna de entender que há suficiente matéria a ser divulgada neste espaço, ao nível das origens e evolução histórica, das diferentes disciplinas velocipédicas, do design ou da análise de modelos clássicos entre outros aspetos.

Constituindo, aparentemente, mundos distintos há todavia muito mais em comum entre bicicletas e automóveis do que se poderia supor à priori. Uns e outros servem o mesmo propósito por isso ambos são considerados veículos tendo como escopo de base facilitar as deslocações terrestres. Rodas, quadros, pneus, travões, entre outros artefactos, são componentes partilhados mas o verdadeiro antepassado comum é a circunstância de algumas das marcas de automóveis ou de motociclos ainda existentes no mercado começarem por serem fabricantes de bicicletas. Veja-se, por exemplo, a Peugeot que começou por fabricar bicicletas em 1830 e em 1882 se transformou também num fabricante de automóveis atividades que, de resto, continua a manter na sua produção industrial. Também a Opel fabricou as vistosas penny-farthing evoluindo depois para as safety-bikes que estão na base do atual conceito das bicicletas que todos conhecemos.

Porém, se existe um antepassado comum, a tendência atual que reabilita a bicicleta como o veículo de emissões zero a que o universo automóvel aspira chegar, leva a que qualquer fabricante automóvel que se preze inclua no seu portfolio pelo menos um modelo de bicicleta que pode variar desde um puro conceito de estilo a uma máquina competitiva no asfalto ou no trilho de montanha, umas produzidas pelos seus engenheiros, outras em colaboração sinergética com os das marcas de topo de bicicletas, procurando, em alguns casos, e de modo pragmático, avançar no promissor mundo da mobilidade elétrica. Estão nesta circunstância a Ferrari, Ford, BMW, Mercedes, VW, Mini, Maserati, Land Rover, Porsche, McLaren, Lamborghini, Aston-Martin, Toyota / Lexus, Honda, Audi ou a Lotus.

E assim se entende como a velocipedia alcança um lugar na Motor Clássico.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Fátima Quinze



Sábado foi dia do meu XV Fátima em BTT. Embora com início em Azambuja o calor tornou a jornada difícil nos seus mais de 100 kms.

À custa de tanto percorrer já se conhecem quase todas as curvas. Ainda assim uma inovação: a passagem direta em Azóia de Cima sem a clássica passagem pelos Olhos d'Água do Alviela. Num dia de calor intenso o local deveria de estar pior que cidadela após ser tomada pelos bárbaros pelo que se optou, em boa hora, pelo bypass.

Ainda assim o troço após Monsanto em que se sobe penosamente a Costa de Minde se contempla o miradouro para S e para N, se desce vertiginosamente até Minde e se sobe ao Planalto de São Mamede via Covão do Coelho e, muito principalmente, as imagem que têm dificuldade em sair da nossa mente constituem um daqueles momentos de magia em que o BTT é pródigo.

Uma saudação especial para os compagnons de route Jorge e Gonçalo Neves.

domingo, 7 de junho de 2015

Faça você mesmo - história de um reboque

Há muito tempo que andava para construir um reboque, para não só quando preciso de transportar coisas verdadeiramente grandes ou muita tralha que não caiba na minha (já se si grande) bicicleta, mas principalmente para levar as bicicletas dos miúdos quando o percurso até um local seguro tem demasiado tráfego e não oferece condições para eles irem a pedalar ao meu lado.

Assim, lancei mãos à obra e construí um reboque. Inspirado neste projecto, creio que o resultado final foi uma franca melhoria. Para o engate na bicicleta, segui este projecto genial.

Aqui ficam as fotos do produto final:

As rodas (16"), e o eixo (varão roscado M12)



O engate à bicicleta (conector pneumático modificado), com uma corrente de segurança caso algo corra mal 
 
 



 

A estrutura final concluída:

 

 

Aqui com uma base de carga para levar objectos variados:

  

Depois quero arranjar umas caixas para aparafusar, por forma a poder transportar muitas coisas de dimensões mais reduzidas. Serei voluntário do projecto ReFood, e com caixas será mais fácil poder ajudar. 2 caixas destas com 60x40cm, por exemplo:



Por fim, fica a configuração que agora tem... As barras são daquelas manhosas, compradas por tuta-e-meia no OLX, de colocar em cima do carro (não recomendo a ninguém que use isto para transportar bicicletas no carro). Como podem verificar é um verdadeiro veículo loooooongo:

 

Para quem ache a bicicleta estranha, nada mais é que uma GT Tequesta, bem modificada para um uso citadino e com um kit Freeradical da Xtracycle. Os miúdos vão lá atrás:




Neste grupo do facebook, fiz o relato do processo de criação, com vários testes de estruturas diferentes que foram evoluindo, também com o input de outras pessoas que foram acompanhando o mesmo. A vantagem de trabalhar com os perfis aparafusados, é que permitem muita experimentação.

quarta-feira, 25 de março de 2015

LISBOA - MADRID, cap. IV, DE DON BENITO A GUADALUPE

Claustro Mudejar do Real Mosteiro de Santa Maria de Guadalupe, Foto by Wikipedia

No quarto dia teremos a etapa mais curta das percorridas (96 kms.) mas, curiosamente, a de maior altimetria (1400 m. de A+). Ora se atendermos a que mais de metade da mesma é completamente plana então o final adivinha-se como trabalhoso e complicado.

Iniciaremos a atividade em Don Benito seguindo para Vilanueva de la Serena onde começa a Via Verde de las Vegas del Guadiana que se seguirá durante cerca de 56 kms. até Logrosan onde termina o condicionamento da antiga via férrea. Atendendo ao facto desta Via Verde  ter alguns problemas de manutenção na zona de Madrigalejo optaremos por acompanhar o asfalto do canal de irrigação junto à albufeira da barragem de Sierra Brava. Trata-se de uma alternativa um pouco mais longa mas que permitirá rolar em melhores condições e mais rapidamente.

Após alcançarmos Logrosan e o final da Via Verde muito embora a via férrea prosseguisse teremos de seguir pelo Camiño Natural de las Villuercas que ligará ao final/início da Via Verde de la Jara que será percorrida na quinta etapa.

Para já será efetuado o troço do Camino Natural, via Cañameroque dista até à histórica Guadalupe, terra da padroeira da Extremadura e local de peregrinações seculares. Por aquilo que ficou dito acima este será um troço duro de roer em função da altimetria.

sábado, 21 de março de 2015

LISBOA - MADRID, cap. III, DE BADAJOZ A DON BENITO


Ponte romana de Mérida com a Ponte Lusitania (arq. Calatrava) ao fundo, Foto by Wikipedia

No terceiro dia iniciaremos a atividade em pleno reino de Espanha. Será útil e justo de referir que os dois primeiros dias, ou seja, a ligação entre Lisboa (Montijo) e Badajoz se baseou numa "versão expresso" do traçado da "Ecovia" reconhecida brilhantemente pelo Paulo Guerra Santos e por nós já percorrida em tempos. Todavia, em lugar de 334 ficaremos por uns resumidos 240 kms. e encurtando a distância até Badajoz.

Esta terceira etapa unirá a cidade mais populosa da Extremadura a Don Benito numa extensão de 114 kms. para uma altimetria positiva de 900 m. Decorrerá integralmente pela região de Extremadura e pela província de Badajoz seguindo fundamentalmente pelo vale do Guadiana com passagem (e paragem, por supuesto) obrigatória pela antiga capital da Lusitânia e atual capital da Comunidad Extremadura - Mérida.

A saída faz-se com caminhos secundaríssmos por forma a mitigar o intenso trânsito suburbano utilizando, a dada altura, caminhos de terra batida (camino viejo) até Talavera la Real (não confundir com a cidade de Talavera de la Reina, Castilla la Mancha, que franquearemos no final da quinta etapa). Aqui será tempo de acompanhar o magnífico e deserto asfalto que ladeia o canal até Lobon e daí será a primeira visão da água antes de alcançarmos de novo o Guadiana em Mérida.

O cruzamento da enorme ponte romana será, por certo, o prelúdio de uma visita gloriosa a Mérida continuada com a passagem pelo Alcazar, a Plaza de España, o Templo de Diana, o Pórtico do Forum, o magnífico Museu Romano, e zona monumental com os incríveis Teatro e Anfiteatro. Certamente inesquecível ou não fosse Mérida mais um elemento da lista do World Heritage da UNESCO.

Mas apesar do encanto não poderemos deixar de levar em linha de conta que pouco passámos de metade da incursão e que é necessário seguir, em bom ritmo, para lá de Mérida, pelo caminho que se nomeia bizarramente de Salesianos Bodegones e durante alguns quilómetros até Valverde de Mérida e daí sempre ao longo da Quebrada de San Julian e do Guadiana até Medellin e Don Benito.

quinta-feira, 19 de março de 2015

LISBOA - MADRID - cap. II - DE MORA A BADAJOZ


O segundo dia unirá Mora a Badajoz numa quilometragem, curiosamente, idêntica à anterior, ou seja 120 kms. e numa altimetria positiva de 1078 m. O início é em pleno Alentejo e passaremos do distrito de Évora ao de Portalegre e depois à Extremadura espanhola. 

A saída de Mora é feita pela ecopista do antigo ramal ferroviário que ligava esta povoação a Évora e que será abandonada poucos quilómetros volvidos para se descer ao Parque Ecológico do Gameiro e ao famoso fluviário onde rapidamente se subirá até Cabeção sem que, porém, se entre na localidade, passando ao distrito de Portalegre e seguindo em direção à Barragem do Maranhão e daí a Casa Branca, Cano e Sousel onde certamente uma pausa será já merecida.

Tempo de seguir para nascente pela deserta N372 em direção à antiquíssima Veiros, no limite norte do concelho de Estremoz, fundada sobre um antigo castro e de que, o atual castelo, constitui ainda vestígio. A N372 e a direção nascente, de resto, continuará a guiar-nos passando, de novo ao distrito de Portalegre e ao concelho de Monforte onde aportaremos a Santo Aleixo e ao concelho de Elvas por Vila Fernando e iniciando uma fase descendente até Elvas.

Nesta cidade teremos, provavelmente, a "pièce de résistance" do dia - o périplo pelas Muralhas de Elvas que são "apenas" as maiores fortificações abaluartadas do mundo circunstância que lhes conferiu, muito justamente, a distinção de "World Heritage" por parte da UNESCO em 2012.

Será tempo de rumar ao final da etapa cruzando a raia pela ponte do rio Caia e se entrar na Extremadura e na cidade de Badajoz cujo "casco antiguo" -mormente as Plazas Alta e de España, serão palmilhados detalhadamente antes do merecido descanso.

quarta-feira, 18 de março de 2015

NA ECOPISTA DO SABOR


Decorre em parte da antiga linha do Sabor (encerrada em 1988) designadamente entre Torre de Moncorvo e Carviçais ao longo de 24,5 kms. e com 330 metros de acumulado (sentido ascendente).

Como é típico dos antigos traçados de via estreita num sentido é ascendente e no outro descendente mas, igualmente, ao percorre-lo para um lado e para o outro, parece que estamos perante duas ecopistas distintas.

Não sendo pavimentada vê, a ecopista do Sabor, em alguns dos seus troços mais antigos e/ou menos percorridos, o mato ocupar a via e, com isso, retirar alguma da agradabilidade no ato de pedalar numa pista exclusiva. Cada vez mais entendemos que vale bem o acréscimo inicial no investimento já que se poupa e muito em manutenção permitindo manter as condições físicas e, deste modo, a agradabilidade de quem busca este tipo de infraestrutura.

Porém, a "fase descendente" é redentora: a maior velocidade faz esquecer as dificuldades de progressão pouco habituais em ecopistas e a visão do vale do Douro revela-se magnífica tal como a do Convento do Carmelo e a de Torre de Moncorvo. Nem o dia cinzento com a ameaça constante de chuva de meados de fevereiro alterou esta perceção.

Em suma este traçado do Sabor, não deslumbrando como o Dão ou o Tâmega, consegue ainda assim conferir elevada satisfação a quem nela pedala. Espera-se, por um lado, a extensão a partir do km. 0 no Pocinho e, por outro, o prolongamento a Miranda do Douro que a converteria na maior ecopista do país.


LISBOA - MADRID, INÍCIO DO PLANEAMENTO - CAP. I, DO MONTIJO A MORA


O planeamento é fundamental. Por isso convém que deixar pouco ao acaso para que se possa desfrutar plenamente do ato de pedalar. Assim, a primeira etapa será extensa ainda que relativamente plana: 120 kms. e 1352 m. de A+, que unirão a estação fluvial do Seixalinho, Montijo a Mora.

A primeira parte é planíssima e consta das ciclovias da cidade do Montijo que conduzem até à saída da cidade na superfície comercial "Forum Montijo" e daí até ao Pinhal Novo onde seguiremos a linha de caminho de ferro por uma interminável reta até praticamente ao Poceirão.

A partir daqui começa o pinhal e o montado a fazer a sua aparição e atravessaremos estradões imensos que, aqui e ali, cruzam as vias prinicpais: N4 junto a Faias, A13 e N10 junto a Taipadas onde chegaremos a Canha e onde, definitivamente, o montado se impõe. Assim será até Mora via Cortiçadas do Lavre, única povoação intermédia.

quinta-feira, 5 de março de 2015

UNIR AS CAPITAIS IBÉRICAS EM BTT


Este será o grande projeto para uma travessia BTT nas férias - ligar as duas capitais ibéricas.

A ideia não é complicar cruzando as montanhas da cordilheira central que dividem esta nossa península entre N e S mas que implicam uma altimetria descomunal e, necessariamente, mais etapas e dureza mas antes aproveitar as ligações naturais, os caminhos habituais que sempre uniram os dois países. Falo dos vales do Tejo e do Guadiana e das planícies alentejanas.

O projeto implicará pouco mais de 700 kms. e, em função da logística, tanto poderá acontecer entre Lisboa e Madrid como entre Madrid e Lisboa e conta-se em poucas palavras: uma ligação fluvial até ao Montijo, uma circulação ultra-rápida até Pegões pelas retas vinícolas do Castelão e a entrada no reino mágico do Montado até Mora e por em diante até Avis, Sousel, Veiros, Elvas e a cidade de Badajoz cruzando o Guadiana seguindo pelo seu vale por Mérida e até à Via Verde de las Vegas del Guadiana nos conduzirá a Guadalupe e às alturas da serra de Altamira. A partir daí pelo Camno Natural de Villuercas, a Via Verde de la Jara e o Camino Real de Guadalupe segue-se o Vale do Tejo até praticamente Madrid e ao mítico "km. 0" da Puerta del Sol.

Coisa para uma semana com o intuito não apenas de pedalar mas, também, de desfrutar do bucolismo dos entornos naturais de de autenticidade desta nossa jangada de pedra.




domingo, 16 de novembro de 2014

Elementar, meu caro betêtista

Hoje encontrei esta colecção de 5 videos, com umas dicas muito úteis que valem bem a pena assistir:



sexta-feira, 17 de outubro de 2014

A Linha do Vale das Voltas


Entre Viseu e Sernadas do Vouga a antiga Linha Ferroviária do Vouga, encerrada em 1990, acompanha o curso descendente deste rio. Apesar de apenas recuperada como ecopista em pouco mais de uma dezena de quilómetros correspondentes à sua passagem pelo concelho de Sever de Vouga (entre Cedrim e a Foz do Rio Mau) ela pode, no entanto, ser percorrida com relativa facilidade desde a Bodiosa até Sernadas.

A paisagem é fantástica e é digno de destaque o elevado número de túneis existente. São nada mais nada menos que vinte ao longo do percurso cruzando maciços de xisto e de granito e que, em conjunto com as pontes, possibilitam uma deslocação relativamente plana compatível com as composições ferroviárias ou os desempenhos físicos menos condicionados.

Uma após outra as povoações vão sucedendo-se: S. Pedro do Sul, Vouzela, Oliveira de Frades, Pinheiro de Lafões e os traços ferroviários de antanho ainda visíveis (muitos recuperados) dão o toque de nostalgia que acrescenta ainda mais interesse a uma paisagem de sonho. Destaque para a passagem, já recuperada, entre a estação de Paradela e a foz do Rio Mau que é digna de ser vista e desfrutada. A ser integralmente recuperado seria, porventura, a melhor ecopista do país.

De Viseu ao final são cerca de 84 kms. agradáveis de percorrer que, apesar de fisicamente tranquilos, representam um bom treino ao corpo e à alma.

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

VIA VERDE DE LA SIERRA - NO TE PIERDAS


O cicloturismo BTT alcança, em minha opinião, o seu máximo esplendor nas chamadas Vias Verdes (ecopistas em Portugal).

A Via Verde de la Sierra, que atravessa parte da Sierra Gaditana (Cádiz) é paradigmática nesse aspeto e percorre-la é um ato de puro prazer.

Eleita em 2005 como a melhor Via Verde da Europa, liga Olvera (Cádiz) a Puerto Serrano (Sevilla) em 36 kms. que fluem por entre montes e vales aproveitando um traçado ferroviário que nunca chegou a concretizar-se mas onde a engenharia e a natureza se conjugam de modo quase perfeito.

São 30 os túneis de comprimento variável (o mais longo, Castillo, tem um quilómetro de extensão) que se conjugam com diversos viadutos e vistas serranas impressionantes que nos estimulam os sentidos por entre bosques mediterrânicos, o fantástico vale do rio Guadalete, paisagens agrícolas e explorações pecuárias.

Se do ponto de vista de engenharia são os túneis que fazem as delícias e facilitam a marcha nivelando um traçado que, de outro modo seria impossível de percorrer pela ferrovia, do ponto de vista natural é a Penha de Zaframagón onde se situa o observatório das aves e reduto do Abutre Leonardo que sobrevoa erraticamente a zona.

No final, num e noutro sentido, são 72 quilómetros de puro deleite e uma experiência única - a travessia de 60 túneis.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

SINGING IN THE RAIN


Evoco o clássico de Hollywood a propósito da pluviosidade que faz adivinhar mais um Outono e Inverno onde o BTT parece estar comprometido.

A ver se, pelo menos, o ciclismo de estrada salva a "época"...

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Reconhecimento do traçado dos Mundiais de Ponferrada



Depois da Vuelta Ciclista a España o ciclismo profissional volta àquele país já a partir do próximo fim de semana para o UCI World Championships na cidade espanhola de Ponferrada.

No entanto a prova mais aguardada será o Fondo Elite Masculino onde Rui Costa irá defender o seu título alcançado na edição de 2013 em Florença. Será no domingo 28 de setembro a partir das 10:00.

Fiquemos com o video do reconhecimento do circuito (em italiano)...

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

DE BRAGANÇA A SANTIAGO DE COMPOSTELA

Azulejo do Camiño Real que sobe o vale do Minho a partir de Ourense
O desafio era de relevo (literalmente) - ligar Bragança a Santiago de Compostela em BTT tomando o Camiño Sanabrense a partir de Verin / Laza (tido por alguns como o final da Via de la Plata).

Já em tempos tinha percorrido este caminho na epopeia de 13 etapas de Tavira a SdC nos idos de 2010. Fiquei impressionado com a dureza em terras da Galiza em parte pelo desnível, em parte pelos pisos de muitas imemoriais calçadas de antanho por onde o Camiño serpenteia. Daí que a abordagem entre Ourense e SdC tenha sido mais conservadora agora ao desdobrar-se em dois dias (um dia apenas em 2010).

1. Bragança - Verin (86,5 Km., 2770 m. A+)

A "mãe de todas as etapas" todavia foi esta primeira entre Bragança e Verin, via Vinhais. Todo o acumulado positivo foi efetuado em 70 dos 85 kms. já que o final foi descendente até à veiga do Tâmega onde se situa aquela cidade Galega.

A saída de Bragança faz-se a descer até ao rio Fervença que se cruza para se entrar em Castro de Avelãs que guarda uma preciosidade anterior à própria fundação de Portugal. Trata-se de um mosteiro beneditino, monumento nacional e exemplar único do estilo arquitetónico românico-moçárabe em Portugal, em que sobressai a traça com tijolo maciço herdada da vizinha região espanhola de Castela e Leão.

Como tínhamos muito quilómetros por diante a pausa foi breve e em pouco tempo começaram as ascensões em pleno Parque Natural de Montesinho que, num percurso paralelo à N103, nos haveria de conduzir até Vinhais pelo meio as passagens por aldeias impolutas como Lagomar, Portela ou Vila Verde entre outras mas também o cruzamento do primeiro de inúmeros vales. Tratava-se do rio Tuela que, apesar de não ser fácil, se revelou como um dos mais simples da jornada
.
Chegados a Vinhais, que visitei pela primeira vez, tempo de restaurar algumas energias e de marcar a impressão de uma terra encaixada entre montanhas.

Seguimos caminho em direção a NW para o grande desafio do dia: o cruzamento pela ponte medieval do vale do rio Rabaçal que marca a fronteira entre os concelhos de Vinhais e Chaves, o mesmo será dizer entre os distritos de Bragança e Vila Real. O traçado entre as aldeias do Candedo e do Edral a revelar-se um dos troços de BTT mais difíceis que percorri: trata-se de uma descida insana (e uma subida condizente) que serpenteia pelo xisto e que em pouco mais de 3 kms. nos fazem perder e reganhar umas centenas de metros de altitude e parte da subida tem mesmo de ser efetuada empurrando a bicicleta pelo que, a pausa no Edral para beber uma bebida refrescante a parecer uma espécie de recompensa divina.

Ainda assim haveria agora de transpor a fronteira com a Galiza pelas rotas do contrabando via Segirei cruzando o bonito vale do rio Mente no limite do PNM. A passagem da fronteira exigiu também um empenho forte já que, até Soutochao a subida foi permanente.

Atingimos a maior altitude do dia em Vilardevós para se iniciar a descida contínua e muito rápida até Verin via Trasigrexa e Devesa num traçado que utilizava em parte a OU-310 e percursos paralelos e troços desclassificados da antiga estrada.

Assim terminou o primeiro dia.

2. Verin - Ourense, (69 Km., 1386 m. A+)

Esta jornada afigurava-se como bem mais simples e, de facto, a contagem altimétrica revela-nos cerca de metade do valor do primeiro dia para uma quilometragem idêntica (relembro que os quinze kms. finais foram descendentes).

A primeira parte da etapa até se atingir Laza é muito agradável acompanhando a veiga do rio Tâmega e apresentando algumas variantes encantadoras à OU-110 pelo meio de bosques e aldeias típicas. Em Laza, terra do Carnaval, a pausa para uma bebida refrescante enquanto nos preparava-mos para "o que aí vinha", o mesmo seria dizer a transposição do vale do Tâmega para o vale do Lima. durante cerca de seis kms. e até Tamicelas houve tréguas para depois desta aldeia se subir de forma violenta o monte Requeixada que se deixa vencer ao cabo de 4 difíceis kms. Ainda assim, se descontarmos um troço de cerca de duzentos metros onde a conjugação da pendente e do piso o tornam impossível de pedalar todo o resto é vencido a golpe de pedal se bem com enorme empenho.

Entramos então em Albergueria onde se alcança o famoso "Rincón del Peregrino" de Luís Sande. Este é um dos momentos altos da peregrinação já que o ambiente aqui vivido, num recanto coberto de milhares de vieiras que confere uma ambiência única e mágica.

A partir daqui desce-se para o vale do Lima não sem antes cruzar um outro local emblemático: a cruz de madeira do Talariño e inicia-se a descida até Vale de Barrio, Boveda, Vilar de Gomareite e Bobadela seguindo durante muitos quilómetros por planos estradões que cruzam os extensos milharais.

É tempo de nova ascensão por caminhos seculares em bosques de carvalho e em pouco tempo entramos em Xunqueira de Ambia com o seu fantástico mosteiro de Santa Maria a Real. Daqui até aos arredores de Ourense onde se pernoitou foi relativamente rápido em percurso descendente.

3. Ourense - Silledas, 84 Km., 2089 m. A+

A primeira tarefa foi a de retomar o caminho original uma vez que nos havíamos desviado para pernoitar na zona de Sao Cribrao. No fundo efetuamos uma triangulação por forma a minimizar a quilometragem do desvio.

Após uma passagem pelo casco antigo de Seixalbo para depois descermos para Ourense aproveitando para alterar o caminho normal tomando o parque linear do rio Barbaña até quase este se entregar ao magno Miño. A dada altura fletimos para o centro da cidade para, em plena Praza Maior, se efetuar uma pausa para café e se seguir para a imponente ponte romana que cruza o Miño e daí para os três duros quilómetros da subida do Camiño Real que, colina acima, nos permite abandonar o vale.

Uma nota especial para a ponte medieval sobre o rio Barbantiño, no fundo de mais um dos inúmeros bosques de carvalho em que este caminho é rico. A pausa foi obrigatória para se desfrutar da beleza do local.

A partir daqui chegamos rapidamente a Cea onde abordamos a Praza Mayor com a sua torre de relógio e as bicas com abundante água corrente bem fresca e cristalina. Esta é a terra do bom pão feito em tradicionais fornos de lenha.

Após Cea havia que escolher entra duas alternativas: o caminho por Pinor, mais tranquilo em termos de piso e altimetria ou o do mosteiro de Oseira, mais acidentado mas quase obrigatório pela passagem indelével pelo histórico monumento de Santa María la Real de Oseira.

A beleza do local é diretamente proporcional à dificuldade de saída do mesmo. Assim, pelo meio de um belíssimo carvalhal, para além de uma enorme pendente, o piso de lageado a impossibilitar o pedalar e a revelar-se duríssimo vencer esta dificuldade.

Passamos pois à província de Pontevedra onde passamos, uma após outra as povoações de Castro Dozón, Laxe, Prado e Taboada. Todavia, a chegada a Silleda revelou-se muito difícil em função da passagem por uma calçada romana e da transposição de um rio por uma ponte do mesmo período.

4. Silleda-Santiago, 41 Km., 1000 m. A+

Este último dia seria mais simples em função da quilometragem relativamente reduzida a que se juntaram os bons pisos.

De Silleda a Bandeira o caminho prossegue por vales agrícolas que lhe características e matizes diferentes do que até aqui.

Segue-se a enorme descida pelo vale do rio Ulla até se transpor o mesmo em Ponte Ulla, entrando na província de A Coruña e começar a interminável subida que se revelaria como a penúltima.

Descido mais um vale, já com Santiago à vista, a passagem pela zona da tragédia do comboio Alvia a merecer uma pausa demorada. A derradeira subida é efetuada já dentro da cidade e a chegada à Praza do Obradoiro com o sabor especial por ser o culminar de quatro dias muito duros a pedal num total de 280 kms. e 7245 m. de altitude positiva acumulada.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Bicicletas, Seguros e mau jornalismo

Depois dos tristes artigos de desinformação ontem publicados sobre seguros e bicicletas, com citações incompletas ou fora de contexto, e um título cuja intenção me pareceu ser a apenas o exaltar dos ânimos e criar má vontade em relação a quem circula de bicicleta, recomenda-se a leitura deste esclarecimento da FPCUB.

http://www.fpcub.pt/2014/07/nota-de-imprensa

O mau jornalismo da notícia da Lusa, foi repetido pelos jornais todos, e as caixas de comentários estão todas ao rubro... lamentável!

terça-feira, 24 de junho de 2014

MUD WRESTLING


Foi desta maneira, absolutamente inglória, que terminou a 14ª peregrinação a Fátima.

A chuva, extemporânea para a jornada de solstício estival, empapou a primeira camada de terreno na zona de Arneiro das Milhariças e o hardware ficou no estado que as imagens documentam impossibilitando qualquer progressão. Foi a primeira vez que não consegui terminar a peregrinação.

A segunda tentativa segue dentro de momentos.

AS MARGENS DO INESQUECIMENTO


"Em vão os comandantes davam ordem para avançar. Em vão o chefe supremo, Décio Júnio Bruto, lhe ameaçou a desobediência com a prisão e a morte. Ninguém se movia dali, paralisado pela emoção e pelo medo. Mas Décio Júnio Bruto teve uma decisão feliz. Apeando-se do seu ginete, atravessou, lento, as águas feiticeiras, com o escudo a proteger-lhe a cabeça, a curta espada desembainhada na firmeza da mão. E, mal atingiu o areal da margem direita, vencendo o rumorejar do arvoredo, o gorjeio mavioso dos rouxinóis, começou a bradar pelos seus homens, hirtos, perfilados à sua frente, como estátuas estáticas, preferindo, de cada um deles, o nome exacto sem revelar esforço de memória. Só desta forma convenceu os seus soldados que, afinal, o rio que lhes corria aos pés não era o Lethes do esquecimento, apesar da sua beleza, apesar do seu fascínio." in Rio Lethes

Pedalando ao longo das margens do Lima, nas ecovias que em boa hora ali foram balizadas, tomamos o lugar desses legionários receosos do esquecimento. É que, perante um pedaço do paraíso diante dos nossos olhos, o maior temor é mesmo o de esquecer algo tão belo.

Este é um percurso obrigatório para qualquer ciclista que se preze. As várias ecovias ligam Ponte da Barca a Ponte de Lima e esta povoação a Refóios, na outra margem e daí a Lanheses e de novo a Ponte de Lima por uma ou outra margem. O intenso arvoredo converte-o na jornada ideal para um dia de calor a que pode, sem dificuldade, acrescentar-se uma ablução retemperadora.

Porém, que ninguém receie - perante a infinitude estética e bucólica, a jornada torna-se inolvidável.

Mais informações aqui.

A LUSA HOLANDA


Foto daqui

A ligação de bicicleta entre Coimbra e Figueira da Foz revela-nos uma realidade orográfica digna dos Países Baixos.

A única condicionante, ao longo dos seus 50 kms. de traçado (dobrando no regresso, bem entendido), é a circunstância de Boreas se poder fazer sentir na sua plenitude atrasando ou acelerando o passo consoante nos aproximemos ou afastemos do litoral.

Trata-se de um excelente treino aeróbico a que devem juntar-se, no capítulo do lazer, a passagem no Choupal, a visão do Mondego em diversos leitos e obras hidráulicas, o Castelo de Montemor bem como arrozais imensos de um intenso verde que penetra na alma.