segunda-feira, 3 de julho de 2017

Fátima "17" - A singularidade


A constância das incursões permite que eu possa alinhar as minha peregrinações de bicicleta a Fátima com os anos do século. Assim a 2017 correspondeu a consequente 17ª ida ao santuário.

Apesar disso nunca se poderá falar em rotina já que as coisas se operaram sempre de modo distinto. Assim a conjugação do traçado (e de pequenas variantes), condições climatéricas, companhia, ponto de partida ou duração sempre se associaram para que, cada uma destas peregrinações, fosse diferente.

As fórmulas foram diversas. Maioritariamente tratou-se sempre "da porta de casa ao santuário" e num único dia embora, em alguns casos, em função de um estado de forma menos apurado tenha sido de "Azambuja ao santuário", abreviando desse modo 60 kms. ou desdobrando em dois dias com a pernoita em Santarém. De resto houve de tudo, chuva, calor intenso, vento favorável, vento desfavorável e  acompanhantes que lograram chegar ao fim e outros que ficaram pelo caminho.

A originalidade da versão de 2017 foi a de ter sido "a solo". Nunca antes o havia tentado e ontem, o simples facto de não ter companhia, não me inibiu de tentar e cumprir mais uma peregrinação. A rotina foi idêntica: sair cedo para aproveitar a luz solar, pedalar muito, dobrar quilómetros e terras. Outra singularidade (cada vez menos) é a da quantidade de peregrinos pedestres a caminho de Fátima e de Santiago de Compostela, contei vinte. Está a ficar "de moda" e ainda bem.

Voltei a usar o troço do Trancão uma vez que tinha escutado que já por aí se circulava em condições. De facto assim é. O troço foi reparado e alargado e apenas se lamenta o facto de não ter sido consolidado com uma camada de "tout venant" que permitiria que se mantivesse capaz por mais tempo. Ainda assim com o piso seco circula-se muito bem e rápido por ali.

A solo o importante é manter-se um ritmo adequado com o rendimento e estribado na zona sustentável do esforço, isto é, nem  a mais, nem a menos. A meteorologia, no entanto e tal como se previa, condicionou a incursão: tal como em anos anteriores muito calor, sobretudo após Santarém em zona montanhosa. A juntar a tudo isto um vento constante de NE a soprar com intensidade e a exigir um maior esforço para menor rendimento na zona do Tejo. Ainda assim a primeira paragem efetuou-se apenas na Valada, 75 kms. após a saída, embora com duas barras energéticas a serem ingeridas em movimento. para tentar manter as energias nos níveis adequados.

Antes disso uma nova opção de caminho (seguindo uma proposta alternativa) que foi a de ligar a zona da central do Carregado a Azambuja utilizando o caminho a nascente da ferrovia. Trata-se de um estradão rápido junto aos arrozais. O problema, para além de alguns portões que se transpõem facilmente, é a zona de passagem pelos rios paralelos (Ota e Alenquer) e que inviabilizam esta opção. Não há ponte exceto a do caminho de ferro e que conta com a vedação derrubada mas com um grau de perigo potencial extremo já que os comboios circulam aí a velocidades muito elevadas. A solução adequada será a de tomar esse caminho mais adiante na estação de Vila Nova da Rainha e daí até Azambuja evitando a inóspita berma da N3.

A vantagem da 17.ª vez é a de já se conhecerem todas as subidas do percurso, a sua localização e a sua duração. Ainda assim o calor após Santarém, mais do que o vento que apenas condicionou até esta cidade, não deu tréguas. O primeiro teste é o da ascensão a Vale Figueira a temperatura e o brilho extremos foram uma dura prova que ainda fiz com relativa tranquilidade. A segunda é o do cabeço dos moinhos após as Milhariças que em função da inclinação e do mau piso era resolvida habitualmente apeada na sua zona mais crítica. Ontem com um piso renovado continuou a ser feita de modo apeado pois o cansaço já se fazia sentir e havia que poupar energias. Terceiro teste a forte subida após os Olhos de Água resolvida com uma breve paragem a meio para retomar o pulso e, após Monsanto, a ascensão até à Serra de Santo António efetuada com elevada penosidade e a muito custo.

Foi tempo de descansar e de descer fortemente até Minde. Aí a pressão da última subida levou-me a uma breve sesta de 15 minutos que foi providencial para ajudar a vencer o derradeiro declive e descer os quilómetros finais até Fátima com a já habitual contagem de 152 kms.

Abordar uma incursão destas a solo tem vantagens e desvantagens. Permite-nos uma melhor gestão do esforço mas, paradoxalmente, torna-a mais entediante e contribui para o impulso de desistência por acrescentar maior dificuldade mental. Esta 17ª, tendo em consideração o estado de forma, deveria ter sido uma daquelas onde o comboio até Azambuja teria sido a opção racional. Todavia, apesar de uma penosidade muito elevada (das mais elevadas de todas) nunca a desistência foi levada em linha de conta. Uma parte importante do esforço físico tem uma componente psicológica e essa dimensão é determinante para a vida.



quarta-feira, 3 de maio de 2017

Pela Via Verde de la Subbetica (del Aceite)

Castelo de Zuheros

A Via Verde de la Subbética é agora parte da grande Via Verde del Aceite que percorre 128 kms. entre as províncias de Jaén e Córdova por um traçado bem mediterrânico onde a maior mancha de olival do mundo não cessa de nos acompanhar seguindo o traçado do antigo Tren del Aceite e naquela que se tornou na maior Via Verde da Andaluzia.

Foi este o desafio proposto a mim próprio percorrendo um troço da mesma designadamente entre os kms. 100 e 65 e retorno (Lucena - Luque - Lucena) pelas serras Subbeticas e o seu Parque Natural.

Do percurso efetuado merecem um destaque os povoados de Luque, Zuheros, Doña Mencía, Cabra e Lucena todos com os seus castelos e os magníficos e impressivos viadutos metálicos que se constituem como pontos obrigatórios de paragem e contemplação.

Nota para o excelente aproveitamento turístico das antigas estações ferroviárias onde se podem encontrar desde postos de descanso a restaurantes e até um museu temático do Tren del Aceite  na estação de Cabra.

Tal era a afluência de pessoas que se encontravam cheios. Como Deus escreve sempre por linhas tortas tal facto obrigou-me a vencer a insana ascensão a Zuheros e entrar num paraíso perdido naquele que é um dos "57 pueblos mas bonitos de España". A beleza e o ambiente no local a fazerem esquecer, como que por milagre, a dolorosa ascensão.


Entre Mirandela e Valpaços

A igreja gótica de Lilela.

O planeado (e executado) era uma ligação entre Mirandela e Valpaços (incluindo o respetivo regresso) em BTT. Quando disso informei um conhecido transmontano imediatamente me disse que isso seria "rolar no planalto". Confesso que desconfiei. O tracklog que dispunha, baseado num obtido em website de referência na Internet, apontava para uma altimetria vigorosa. De tal modo que tive que escolher criteriosamente a rota de ida e a de regresso que eram comuns mas divergiam no seu miolo.

No terreno, embora não me tivesse deparado com serranias assinaláveis, a sucessão de vales e montes foi impelindo a contagem ascensional, de tal modo que, no final, para uma distância de 55 kms. de extensão se registassem uns impressivos 1.400 m. de A+.

O percurso foi muito interessante para mais num dia talhado para pedalar: temperatura amena, sol encoberto por nuvens altas e permitindo manter a luminosidade sem o castigo dos raios solares e ausência de vento. A juntar a tudo isto o lilás da alfazema e o amarelo da floração dos giestais, alternando com os campos de cultivo de vinha ou amêndoa, completaram a matiz sensorial perfeita

Em Valpaços a merenda ao jeito de almoço ciclístico pelas 12.00: uma sopa de antologia e uma bifana imaculada a reporem energias sem fazerem pesar o regresso. De resto uma sucessão de aldeias bucólicas e de igrejas de antanho mas bem conservadas. A tranquilidade dava pelos nomes de Eivados, Lilela, Póvoa de Lila ou Rio Torto.

Intensa satisfação no final sem um desgaste intenso. Fortemente aconselhável.


segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

The Eagle has Landed





Já está no mercado há algum tempo.

Aparentemente é o ovo de Colombo que resolve o problema do sistema 1X tradicional não ser suficientemente versátil para permitir facilitar a subida e descer mais rápido comparativamente com os 2X e 3X.

O senão é o sistema ser todo integrado e ter um preço proibitivo para o comum dos mortais.

Quando a "coisa" se democratizar, isto é, quando invadir gamas mais baixas e reduzir o preço então aí poderemos decretar a morte do desviador dianteiro. Até lá mantenham-se satisfeitos com o material que possuem.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Alpajares e o Penedo Durão - O Douro no seu Esplendor

Foto by Carlos Gonçalves (**)
Prometia à partida ser uma daquelas incursões épicas.  Cumpriu, sem dúvida.

Mais de 80 kms. (e quase 2.000 m. de desnível +) pela zona do Douro (onde passa de nacional a internacional) com o início em Figueira de Castelo Rodrigo, descida a Barca d'Alva (com passagem por Escalhão),  a transposição do Douro e a subida da mítica Calçada de Alpajares, (tantas vezes falada, escutada e lida mas nunca por mim antes  percorrida).

Depois o acesso a Poiares e daí até ao ponto maior da incursão: o incrível Penedo Durão miradouro onde a visão do Douro internacional e dos inúmeros grifos e abutres que sobrevoam abaixo.

O meu amigo Carlos Penha Gonçalves tinha prometido diversão e dureza e, de facto, não faltou nem uma coisa nem outra. A grande dúvida seria a de saber se o mau tempo que se anunciava não se anteciparia tornando impossível a incursão. Mas não. Até a meteorologia esteve de feição.

Partimos sete pelas 09:00 e chegámos cinco ainda antes das 17:00 mas já ao lusco fusco. A primeira parte foi praticamente sempre descendente, principalmente após Escalhão e com dois aspetos a reter:
  • o primeiro, algo funesto, já que mesmo à minha frente em plena e rápida descida o Carlos prendeu a sua roda dianteira num rego do traçado e sofreu um aparatoso OTB (over the bar). Apesar da velocidade e do capacete rachado (!) felizmente nada de grave a assinalar e pode prosseguir.
  • o segundo de caráter diferente foi uma primeira visão do alto para o fundo do vale do Águeda, no ponto em que se prepara para subsidiar o Douro a montante de Barca d'Alva no Miradouro da Sapinha.
Chegados a Barca d'Alva um primeiro momento de pausa técnica. A parte mais fácil da incursão estava completada. Cruzado o Douro a visão dos barcos de cruzeiro que aqui terminam a sua viagem subindo o rio. São enormes tendo em conta que são fluviais. Também se observa aqui o início da famosa linha ferroviária internacional desativada que prosseguia até Fregeneda e daí a Salamanca.

Foi tempo de prosseguir agora pela N221 para nascente junto à margem direita do Douro tendo Castilla y Leon à vista na outra margem. Na ribeira do Mosteiro foi tempo de virar a norte subindo o seu curso e penetrando na mítica calçada de Alpajares (também conhecida pela calçada do Diabo) outrora parte da via romana. Impossível de subir montado devido à irregularidade do piso. Este foi o pretexto adequado para apreciar a raridade e imponência geológica do local. O xisto no seu esplendor, algo de único e esmagador que se haveria de repetir na descida mais tarde pela Calçada de Santana (*).

A chegada a Poiares a ser recebida com algum alívio após a subida e daí seguimos sem demora para o Penedo Durão e aí permanecermos durante algum tempo perante a visão esmagadora. Logo seguimos para um outro ponto de observação a poente. Daí regressamos a Poiares e descemos a Calçada de Santana que é uma réplica de Alpajares. Aqui o tempo foi de concentração pois a descida era fortemente técnica.

De novo em Barca d'Alva faltavam os 22 kms. de subida final que, devido ao adiantado da hora, foi efetuada pela N221.

Em toda a incursão algo de comum: as paisagens arrebatadoras e únicas onde o xisto impera e a proeminência topográfica impressiona e cobra caro na hora de subir ou descer. Os desníveis são imensos e exigem uma boa forma. Mas no final a satisfação é plena. O BTT faz-nos sentir privilegiados.

(*) - Sobre esta calçada (também conhecida pela calçada dos mosteiros) veja-se este arrebatador clip do Vítor Gamito na Transportugal de 2012

(**) - Mais Fotos aqui

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

RELAXANDO NAS CICLOVIAS DE MIRA


Este é o tipo de passeio tranquilo e relaxante que o BTT também pode proporcionar.

As ciclovias foram construídas pela Câmara Municipal de Mira e está implantada numa zona de lagoas, ribeiros e floresta que cruzam a zona das dunas e pinhais de Mira e contam com um característico conjunto de pontes de madeira e de observatórios de aves que lhe reforçam o seu caráter bucólico.

No ano de 2000, o município de Mira inaugurou os primeiros 10 kms. que rapidamente se transformaram nos quase 25 completamente pavimentados com que conta atualmente. Tem um formato de uma estrela com três pontas.

De facto, a partir de um ponto comum de interseção junto ao desvio para a praia de Mira temos uma primeira ciclovia (Gandaresa) que segue para norte através de um túnel que cruza a estrada e segue para norte até ao caís do Areão no limite do concelho. Para poente temos a que contorna a barrinha da Praia de Mira (lagoas) e, finalmente, para nascente temos a que segue em direção a Mira (moinhos).

Tudo percorrido temos um percurso de cerca de 48 kms. de elevadíssima agradabilidade a justificar a deslocação. O pormenor curioso é a altimetria pouco ultrapassa os 50 metros positivos o que o tornam o percurso ideal para uma recuperação ativa ou um tranquilo passeio familiar.

Foi essa precisamente a minha aposta no fim de semana que passou. 

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Festival Bike de Santarém


É a grande feira da bicicleta em Portugal. Todos os anos lá me desloco com agrado mas tendo em conta aquele o saudável princípio de evitar as multidões. Por isso procuro lá ir, sempre que possível, na sexta-feira.

Mas a tradição também dita que o carro permaneça em Santarém e que eu regresse de comboio. O motivo é claro: criar o pretexto para, no dia seguinte, ter de o resgatar, no dia seguinte, indo de bicicleta de Lisboa até Santarém. 

Normalmente o "caminho do Tejo" é o escolhido. Tratam-se dos habituais 100 kms. de BTT palmilhados tantas e tantas vezes. Desta vez, porém, optei por algo diferente. A partir de Vila Nova da Rainha fletir para o interior circulando junto à BA da Ota, seguindo daí, pelos eucaliptais até Alcoentre, Manique do Intendente (na foto), Arrifana, Assentiz, Marmeleira e Santarém.

No final mais 17 kms. aos 100 habituais e, isso sim, muito significativo, uma altimetria de 1250 metros num traçado que, até V.N. Rainha (ou seja 50% do traçado) é plano. Outro factor importante foi a questão dos terrenos estarem muito difíceis em virtude do que choveu tornando a deslocação em algo muito exigente.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

O ESPLENDOR DO MONTADO ALENTEJANO


Aproveitando o zénite estival foi tempo de rumar ao Alto Alentejo onde se percorreu um circuito já clássico e onde o montado é rei.

110 kms. ligando Montemor o Novo, Arraiolos, Évora e de novo a Montemor com um clima ameno e agradável e onde a quietude é o mote. A companhia do Jorge Neves e do Cláudio Nogueira acrescentaram ainda mais valor a uma jornada onde confirmámos que o BTT e qualidade de vida andam de mãos dadas.

Um destaque negativo para o corte do caminho de ligação entre Évora e Valverde que passava junto à Anta Grande do Zambujeiro a obrigar a alguma improvisação para chegar a Guadalupe e ao magnífico Cromeleque dos Almendres. O Grand Finale a ser efetuado pela magnífica Ecopista do Montado ate Montemor.

domingo, 18 de setembro de 2016

Peña de Francia conquistada


Photos by Carlos Gonçalves & Rui Sousa

Assim vale a pena o ciclismo de estrada.

É verdade que eu sou daqueles que acha o BTT superior à "estrada". Não pelo ato de pedalar onde a roda fina é imbatível mas na versatilidade do todo-terreno e o facto de permitir chegar a locais únicos conferem-lhe aquela sensação de exclusividade que me encanta.

Acresce a isto o facto de muitas estradas quer pelo seu desenho, quer pela sua densidade automóvel, serem locais potencialmente perigosos para um frágil ciclista. Na zona de Lisboa esta é a regra e eu raramente me atrevo.

Porém fazer um circuito pela Sierra de Francia (CyL), com estradas desertas e um cenário natural único para mais com um dia luminoso e talhado para o ciclismo é uma atividade muito gratificante mesmo perante os duríssimos 2700 metros de altimetria para 100 km de extensão. Uma palavra para os raríssimos condutores espanhóis que nos ultrapassaram: verdadeiramente impecáveis na distância lateral de segurança.

Melhor mesmo só a companhia que foi fantástica. Raras vezes tudo se conjuga desta forma para concorrer para uma elevada (literalmente) satisfação. O Rui Sousa lançou o mote e mais sete criaturas responderam. Tudo se poderá resumir numa palavra: inesquecível.



Cruzando a Serra Algarvia pela N2



"A Estrada Nacional nº 2 atravessa Portugal de Norte a Sul e é a estrada de maior extensão do país, tendo o seu início em Chaves (Km 0) e terminando ao Km 738,5 em Faro (originalmente teria um total de 739,260 Km, terminando na baixa da cidade), passando por onze distritos (Vila Real, Viseu, Coimbra, Leiria, Castelo Branco, Santarém, Portalegre, Évora, Setúbal, Beja e Faro), sete províncias (Trás-os-Montes e Alto Douro, Beira Alta, Beira Litoral, Beira Baixa, Ribatejo, Alentejo e Algarve), 4 serras, 11 rios e 29 concelhos." (in W.)

Não consegui efetuar a totalidade do traçado tal como os meus colegas Carlos Silva e Abel Batista (entre muitos outros que se lhe juntaram). Tive pena até porque fui também um dos mentores do projeto

Ainda assim fiz simbolicamente a última etapa (145 kms. entre Ferreira do Alentejo e Faro). De resto e para mim o lado mítico da N2 é mesmo a travessia da serra do Caldeirão que sempre sonhei cruzar de bicicleta e esse foi realizado mesmo que o mercúrio entre Almodôvar e o Ameixial tenha alcançado uns sufocantes 46º C.

No final 144 kms. e 1980 m. de altimetria feitos com desenvoltura. De referir que a N2 não é a estrada mais agradável de pedalar em virtude do seu desenho: uma faixa, duas vias (uma em cada sentido) e sem berma.

terça-feira, 26 de julho de 2016

FÁTIMA "16" - DE NOVO EM VERSÃO TROPICAL


Agora que os anos estão alinhados com as viagens tive ontem a décima sexta. 160 kms. entre a porta de casa e o santuário.

À semelhança de 2011 debaixo de um calor tórrido. O Zé Azurara acusou esse facto e ainda a circunstância de ser a primeira vez que fazia a travessia e ficou-se em Arneiro das Milhariças sendo resgatado umas horas mais tarde de carro.

Alguns destaques:

. O traçado está otimizado na medida do possível. A introdução da passagem no passeio ribeirinho da Póvoa de Santa Iria e do de Alhandra, a passagem de Vila Franca à central térmica do Carregado a poente da linha férrea, a transposição das Ómnias à saída de Santarém (evitando subir ao centro) e a passagem por Amiais de Baixo (evitando os Olhos d´Água) ou a subida quase direta para a Serra de Santo António após Monsanto são forma de tornar o percurso mais fluído facilitando uma travessia que é muito exigente.

. O calor foi sufocante. A subida a Vale Flores, que anuncia a primeira grande dificuldade, é bem a prova disso e o grande teste à nossa forma física. Superei-a positivamente mas o esforço é brutal e só possível de vencer com enorme empenho.

. Ainda assim, à medida que os quilómetros avançam as dificuldades avolumam-se: a subida de Monsanto até Serra Sto. António ou a derradeira de Minde às eólicas do Covão do Coelho exigem tudo em termos de força. por isso os quilómetros derradeiros antes de Fátima fazem-se com a satisfação do dever cumprido.

Para o ano, se Deus quiser, haverá mais.
 

segunda-feira, 16 de maio de 2016

A LINHA DO CORGO EM BTT (parte 1 - de peso da Régua a Vila Pouca de Aguiar)


Ainda que apenas parcialmente condicionada como Ecopista a antiga linha do Corgo, ferrovia de bitola métrica que unia Régua a Chaves, tem condições para se tornar numa das mais interessantes de todo o país.  O troço entre Vila Real e Chaves foi encerrado em 1990, enquanto que a ligação entre a Régua e Vila Real foi desativada para obras em 25 de Março de 2009, sendo totalmente encerrada pela Rede Ferroviária Nacional em Julho de 2010.

É de referir o trabalho levado a cabo pelo município de Vila Pouca de Aguiar que é o único que se pode gabar de ter o traçado pavimentado e em condições de perfeita circulação a pé e de bicicleta.

Ainda assim é perfeitamente possível percorrer, de modo quase integral, os quase 100 kms. entre as localidades acima referidas.

Devo referir que, embora não preparado para ser percorrido suavemente, o troço entre a Régua e Vila Real é, provavelmente, o mais interessante ou não estivéssemos a percorrer o Douro vinhateiro. Todavia nos primeiros 3 kms. há que buscar uma alternativa rodoviária uma vez que a transposição do rio Corgo, a partir da Régua, se efetua por uma ponte ferroviária ainda em uso pela linha do Douro. No apeadeiro de Tanha a segunda dificuldade todavia facilmente superável para quem não sofra de vertigens. Trata-se da estrutura da ponte sem o respetivo tabuleiro o que implica uma travessia a pé, com a bicicleta ao ombro e com um ribeiro a correr bem rápido uns 30 metros abaixo. O passadiço dispõe, no entanto, de uma largura suficiente e nunca temos a sensação de correr perigo.

Depois é o delírio dos sentidos com o vale do Corgo e as vinhas até se chegar à estação de Vila Real 22 kms. volvidos não sem antes transpor inferiormente a imponente ponte da A4.

Seguem-se três quilómetros onde a infraestrutura é inexistente até Abambres, no limite de Vila Real onde a mesma recomeça. Este será o troço que nos conduz ás alturas da serra seguindo o curso do Corgo, cruzando a ponte do rio pequeno e transpondo o IP4 segue-se para N. e depois fletindo a E. passamos a A24 para a direita e novamente para a esquerda seguindo a poente com ela paralela agora pela serra e entrando, após o apeadeiro de Samardã, no concelho de Vila Pouca de Aguiar onde encontramos a via pavimentada.

É tempo de seguir pelo vale e de cruzar diversas povoações com os respetivos apeadeiros: Tourencinho, Gralheira, Zimão e Parada de Corgo. O landmark aqui é sem dúvida o duplo e imponente viaduto duplo da A24 que transpomos inferiormente e que cruza o profundo vale.

terça-feira, 3 de maio de 2016

Via Verde de la Senda del Oso (Asturias)


No antepenúltimo dia de 2015 com um estranho calor primaveril foi tempo de percorrer de bicicleta a Via Verde de la Senda del Oso que transpõe os chamados Vales del Oso por uma antiga ferrovia de transporte do minério. É uma viagem de intensa beleza por locais singulares e mágicos e por uma natureza esmagadora que as Astúrias são pródigas em exibir.

Sendo uma Via Verde poderemos dizer que se juntou o útil ao agradável, isto é, o melhor da natureza asturiana por um caminho muito acessível nos cerca de 24 kms. que separam Trubia e Entrago pelos vales dos rios Trubia e Taverga.

A memória dos ursos asturianos está sempre presente encontrando até um cercado em Proaza onde vivem alguns exemplares.

De resto a agradabilidade é equivalente à beleza o que faz com que, esta via verde recomende uma visita. Existe a possibilidade de percorrer diretamente a partir de Oviedo unindo a Via Verde del Fuso embora acrescentando quase o dobro dos quilómetros.




La Ruta del Cares (Picos Europa)



Esta é uma rota que está interdita a bicicletas e é muito fácil compreender porquê pela visualização da fotografia. Digamos que, em termos de risco potencial, faz as levadas madeirenses parecerem tranquilos passeios no parque.

Foi nos últimos dias de Dezembro de 2015 que a percorremos, num sentido e no outro. Efeitos das alterações climáticas ou não, o que é certo é que parecia que estávamos em plena Primavera com uma temperatura ambiente muito agradável.

La Ruta del Cares está situada no Parque Nacional dos Picos de Europa e liga as localidades de Caín e Poncebos (11 kms. de distância). É apenas recomendável a quem não sofre de vertigens pois a espetacularidade advém, precisamente, de estarmos a caminhar num corredor escavado na rocha com cerca de dois metros de largura, sem proteção lateral e a umas centenas de metros do fundo do desfiladeiro onde corre um pristino rio Caires e onde as cabras montesas pastam imperturbáveis em locais impensáveis.

Tudo isto transforma la Ruta del Cares provavelmente no mais espetacular caminho pedestre europeu.

Imperdível.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

PORQUE GOSTAMOS TANTO DO "TOUR DE FRANCE"


Publicado na revista "Motor Clássico" de outubro de 2015

O verão é a época das grandes voltas. O seu expoente máximo, para além do Giro italiano e da Vuelta espanhola e, já agora, da “nossa” Volta, é sem qualquer margem para dúvida o Tour francês que, no corrente ano, decorreu nas estradas gaulesas – com incursões na Holanda e Bélgica - entre os dias 4 e 26 de julho.

Podemos questionar porque é que o Tour tem esta capacidade irresistível de mover multidões e de nos prender a atenção durante o seu decurso, ano após ano. Mesmo que não sejamos ciclistas ou que não saibamos sequer equilibrar-nos em cima de uma bicicleta podemos ser contaminados pela mística e o encanto da Volta à França.

Avancemos com algumas sugestões de resposta. Sendo certo que não existe uma fórmula que sirva a todos e a tese proposta tenha mais em linha de conta a experiência subjetiva do que um mínimo divisor comum relativamente ao assunto. O Tour encanta-nos por ser tão violento e inacessível como que desenhado para semi-deuses que, no entanto, partilham a mesma massa do comum dos mortais. Somos assim levados contraditoriamente a pensar que é algo de impossível mas que não deixa de estar ao nosso alcance. Tal como nas nossas próprias aventuras velocipedicas o estoicismo atrai-nos como a forma suprema de alcançar o epicurismo, ou seja, a dureza física e psicológica extrema usada instrumentalmente para lograr a felicidade. Nisso reside a superação.

O Tour encanta-nos ainda pelo modo como se constitui numa espécie de símile vital, no qual o quotidiano se revela inesperado, exigindo a cada um uma capacidade de improvisação e de adaptação com vista à sobrevivência, primeiro, e ao sucesso, por último. Efetivamente, a leitura da estrada e dificuldades do relevo, da temperatura, do vento, da postura dos adversários (que mais não são que “compagnons de route”), da escolha da mudança adequada e de mil e uma condicionantes.

O modo como a nossa dinâmica se adapta a estas são, na sua essência, a repetição da própria vida e do dia a dia de cada um de nós.

O ciclismo constitui-se na metáfora da nossa existência e, quiçá, seja essa a razão da sua popularidade e sucesso.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

O que move um ciclista?


Publicado na revista "Motor Clássico" de novembro de 2015

Esta pergunta de base tem uma resposta óbvia – a bicicleta. Porém, num mundo em que as facilidades motrizes são múltiplas, o ato de pedalar adquire um significado bem mais profundo. De facto, o que leva alguém a trocar o conforto de uma deslocação em automóvel pelo estoicismo de pedalar? A explicação profunda radicará provavelmente no campo da psicologia, porém existem alguns motivos simples para que um número crescente de pessoas de todas as idades pedalem cada vez mais. Analisemos as suas motivações.

A vontade de evasão entendida aqui como o desejo de escapar da “prisão” do stress e do quotidiano. Quem pedala conhece bem a sensação de escapar desta forma pondo para trás das costas os problemas, fazendo uma pausa para retomar revigorado a sua “cidadania corrente”.

A vontade de aventura, sobretudo em todo-o-terreno, em que amiúde impera a imprevisibilidade do rumo a seguir e na sucessão dos acontecimentos mas também na paixão pelo risco controlado. É nesta improvisação das soluções que a bicicleta atua como uma verdadeira escola de utilidade para a vida do dia a dia.

A vontade ambiental, circulando fora dos ambientes urbanos poluídos (ainda que neles também se pedale com um intuito ambiental), longe dos gases de escape, cruzando parques naturais, alcançando os topos das montanhas, entrando em comunhão com a Natureza e respirando ar puro. Sentir-mo-nos como parte do Universo e reforçando a nossa consciência ecológica é a mais-valia ambiental de pedalar.

A vontade de superação, exercendo uma atividade que é muito exigente do ponto físico e mental e em que o processo de “ir mais além” é contínuo e constante. Apenas com um enorme espírito de sacrifício é possível superar a dificuldade que constitui a subida de uma montanha por uma vereda técnica, chegar ao seu topo e, de imediato, esquecer todo o padecimento. Sentir-mo-nos bem fisicamente, tal como para o Homem do Renascimento, é sentir-mo-nos bem mentalmente.

Assim se compreende que, para além da bicicleta, muito mais faz mover um ciclista.

domingo, 20 de dezembro de 2015

RUMO AO SUL


Publicado na revista Motor Clássico de janeiro de 2015

O cicloturismo é um conceito intimamente ligado às bicicletas. Trata-se de aliar a atividade de pedalar ao turismo, isto é, percorrer o território em atividade de lazer em bicicleta. Muitos são os destinos possíveis, quer optemos por essa prática em Portugal ou no estrangeiro. Porém, entre nós, independentemente do meio através do qual nos desloquemos, o destino turístico, por excelência, é o Algarve.

Este apelo do Sul que se torna proporcionalmente mais irresistível à medida que as estações do ano anunciam o calor e um maior número de horas de sol vivo é fortemente sentido pelos que fazem do cicloturismo uma ação permanente nas suas vidas. A possibilidade de ligar Lisboa ao Algarve representa, para muitos, um desafio e uma espécie de peregrinação laica e muitas são as formas de tentar concretizar tamanho feito, seja pela estrada ou seja fora dela, em BTT, por exemplo, se o estado dos terrenos assim o permitir.

Uma ligação famosa que já se tornou um clássico é o “Troia-Sagres” em estrada. Percurso que, anualmente, desde 1990, num dos últimos sábados do ano, liga aquele istmo setubalense ao promontório português mais conhecido numa distância que supera ligeiramente os 200 kms. 

A primeira edição, em 1990, foi um solo de um amante do ciclismo, António Malvar (os que conhecem o milieu do ciclismo amador reconhecem-no como o grande guru da modalidade), que impelido por essa paixão estabeleceu um desafio suficientemente duro para inaugurar e rejuvenescer os seus quarenta anos. De então para cá o “pai” desta iniciativa tem tido cada vez mais companhia, sendo que, nos últimos anos, a migração velocipédica tem contado com centenas de ciclistas que espontaneamente rumam a sul em dezembro.

É de notar que esta peregrinação não surge de qualquer organização formal, mas apenas de um convite que António Malvar faz aos amigos de há anos a esta parte e ao qual se associam muitos outros ciclistas que, independentemente de se conhecerem, ou não, se entendem como uma irmandade.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Um upgrade ótico da maior relevância

in Pedais

Uns óculos em que o ciclista se sente como um piloto de aviões dentro do cockpit deverão ser uma das grandes novidades no mundo do ciclismo durante o próximo ano.
A inovação é da empresa israelita Everysight, especialista no desenvolvimento de tecnologia para capacetes de pilotos de combate, que aplicou agora o resultado da sua investigação na produção de uns óculos destinados a quem anda de bicicleta.
Os Raptor, como foram batizados, funcionam como um ecrã na parte de dentro das lentes, onde o ciclista pode ver em permanência a velocidade a que circula, frequência cardíaca, potência e localização por GPS, entre outras, para além de ainda poder tirar fotos e gravar vídeos. Quase como se estivesse a pilotar um avião.
Os óculos para ciclistas, claro está, funcionarão ligados a smartphones e a outras aplicações, o que possibilitará, por exemplo, que ciclistas a pedalar longe uns dos outros possam competir entre si.
Desconhecem-se, para já, outros pormenores, nomeadamente o preço. Para aguçar o apetite pela inovação, o fabricante divulgou um vídeo que ajuda a perceber o que aí vem.






quarta-feira, 28 de outubro de 2015

A Bicicleta e o Cinema

(Publicado na Revista "Motor Clássico", outubro de 2014)

Comparativamente ao automóvel a bicicleta tem uma participação relativamente apagada no grande écran mas não deixa de nele surgir com um papel de destaque em algumas películas mais ou menos conhecidas.

Sem dúvida que o grande filme que lhe é dedicado é “Ladri di Biciclette” (Italia, 1948) de Vittorio de Sica e vencedor do Óscar da Academia na categoria de melhor filme estrangeiro (1949). É justamente considerada uma das obras primas do neorealismo italiano. Nessa mesma tradição, a maioria dos seus atores são amadores e apresenta-nos uma narrativa deliciosa ao mesmo tempo empolgante e comovedora a que não falta, naturalmente, o fundo moral.

A trama resume-se da seguinte forma: na Roma do pós-guerra, Antonio Ricci, desempregado, encontra finalmente uma ocupação como colador de cartazes e a bicicleta é um instrumento essencial para trabalhar. Todavia ela desaparece enquanto cola um cartaz no topo de uma escada tendo a perseguição ao ladrão sido inútil. A polícia não o pode ajudar e Antonio resolve de per se tentar recuperar a sua bicicleta, porém sempre em vão. No desespero acaba ele próprio por furtar uma bicicleta colocando-se no papel do ladrão porém sem a sorte do anterior e vendo-se confrontado com o vexame do flagrante delito.

Ladri di Biciclette” é uma obra naturalmente datada mas não deixa de ser curioso o paralelo que se estabelece com a atualidade onde as bicicletas são alvos fáceis da cobiça alheia e, independentemente do seu valor ou da quantidade e qualidade dos cadeados, são furtadas perante a frustração e o desencanto dos seus proprietários, onde a polícia mais não faz do que registar a ocorrência e em que as tentativas informais de recuperação se revelam inúteis.

Tal como um automobilista relativamente ao seu automóvel, qualquer ciclista adora a sua bicicleta e o seu desaparecimento constitui um drama que supera largamente o seu valor pecuniário. É que ela foi companheira de aventuras e de bons momentos e nada supera a dor da sua desaparição.