terça-feira, 26 de maio de 2009

A HARD BUT SUCCESSFUL LONELY TASK


24MAY09

Gare de Santa Apolónia, Lisboa - Bombarral

Distância: +- 140 kms.

Velocidade Média: +- 15 kms./h.

2.600 metros altitude acumulada positiva

Concelhos percorridos: Lisboa, Loures, Mafra, Torres Vedras, Lourinhã e Bombarral

Distritos percorridos: Lisboa e Leiria

Há algum tempo que não pedalava de modo tão duro. A ideia era ligar Lisboa às Caldas da Rainha e, para isso, era necessário tomar o comboio em Sete Rios pelas 06:11 da manhã (sim, leram bem). A compilação do track GPS que efectuei dava-me perto de 150 kms. (até, ou desde a zona da ponte Vasco da Gama) excluindo a ligação a Santa Apolónia.

Para isso estava preparado e consciente, simplesmente a insónia invadiu-me a mente até tarde e resolvi que, enfrentar semelhante desafio com um número exíguo de horas de sono, não era viável. Assim sendo resolvi inverter o sentido da incursão e sair de Lisboa a pedalar ganhando duas horas extra nos braços de Morfeu, essenciais para rentabilizar a estamina aos comandos do velocípede. A companhia pedalante, desta vez, ficou nos mínimos, ou seja alinhámos “três” ciclistas à partida: me, myself, and I.

De facto, a clientela habitual deste tipo de desafios cedo procurou alternativas mais tranquilas, até porque esta incursão era apontada com a classificação máxima, isto é, “só para homens de barba rija”. Assim as escusas sucederam-se ao longo da semana: defeso por causa do joelho, num caso; rentabilização de investimento em hardware (private joke) , noutro ou ainda elaboração de trabalho final de semestre. O que é certo é que já não há betetistas como antigamente (*).

Saí de casa perto das 08:00 e tomei o metropolitano até Santa Apolónia: Curiosamente iniciei o percurso a chover embora por pouco tempo, seria a única aparição pluvial do dia, de resto. Os quilómetros iniciais até ao Parque das Nações foram efectuados pela estrada do Porto de Lisboa que, ao fim de semana, se converte, por milagre numa autêntica ciclovia. Apesar do vento frontal o ritmo era vivo até porque, o cálculo de tempo disponível para levar de vencida o desafio, não deixava grande margem para comportamentos excursionistas. Assim, até Sacavém, a média estava em cerca de 22 kms./h. muito embora o pior ainda estivesse para chegar.

A passagem pelo troço do Trancão é sempre um momento agradável mas, a partir de dada altura, em virtude do dilúvio da véspera, o terreno revela toda a sua perversidade sob a forma de lama e barro. Não só a velocidade começa a ficar comprometida mas também a integridade da afinação, paulatinamente, se degrada. Foi um choque que haveria de aumentar, ainda mais, as dificuldades já expectáveis em termos de quilometragem e altimetria. A partir de dada altura virei para NW e iniciei um interessante e bucólico périplo pela chamada Várzea de Loures até Santo Antão do Tojal, povoação onde, confesso, nunca tinha estado. Trata-se de um local muito interessante do ponto de vista histórico-monumental muito em função do seu Palácio da Mitra, antiga residência de Verão dos patriarcas de Lisboa com um baroquíssimo fontanário verdadeiramente monumental.

A partir do Tojal acabaram-se as facilidades, digo, o terreno plano já que, em virtude do barro, a progressão estava já anteriormente complicada. Foi tempo de subir até Fanhões. Curiosamente muitos betetistas pela zona que fui passando um por um sem, todavia, entrar em exageros anaeróbicos já que “a procissão ainda estava no adro”. De Fanhões a dura subida mais se empertigou ainda até ao Forte das Ribas de Cima. Sem exagero foi uma ascensão vertical de cerca de duzentos metros, lenta, penosa e a exigir muito empenho. Foi tempo de circular no topo da arriba sobranceira ao vale. Já conhecia bem a zona das famosas e duras incursões de reconhecimento da segunda linha defensiva de Torres Vedras. Após um sobe e desce divertido lá cheguei ao sopé do imponente cabeço de Montachique. Como ainda tinha muita quilometragem por diante nem ousei subi-lo, aliás tal não era rigorosamente necessário, bastava apenas contorná-lo para descer até à A8.

Devo confessar que, neste ponto, em função do ritmo imprimido e com a visão das montanhas para o lado da Malveira, a tentação apoderou-se de mim e pensei voltar para trás. O sector bom e justo da consciência, todavia, aguentou firme e demoveu o lado negro de recuar. Logo retomei o caminho com o vigor renovado.

A descida do cabeço até à A8 é muito técnica e absolutamente deliciosa, pelo meio de um azinhal fabuloso, com uma pendente muito forte o que, curiosamente, me teria impedido de ascender montado, no sentido contrário. Transposta inferiormente a A8 foi altura de nos internarmos no reino das montanhas que só largaria muitos quilómetros volvidos, já perto da Encarnação.

Não deixa de ser curioso que o Duque de Wellington comparou a cintura montanhosa, que cerca a norte Lisboa, aos Pirinéus. Não se trata propriamente de um exagero. Se bem que não disponham de uma altimetria semelhante a esta cordilheira (circula-se entre os 250 e os 450 metros) têm, todavia, um perfil ascendente e descendente parecidos com a de alta montanha e isolam defensivamente a capital portuguesa tal como ficou provado há duzentos anos atrás na terceira invasão francesa da Guerra Penínsular. Dos seus altos as vistas em redor são impressionantes, quer pelos vales que se avistam, quer pelos perfis montanhosos em volta.

Até chegar à Encarnação, percorrendo uma pequena parte do concelho de Loures, mas boa parte do de Mafra, a deslocação pode resumir-se a subir e a descer vales profundos vezes incontáveis. Esta primeira parte, até à Malveira, que desconhecia, apesar de muito dura é bem interessante do ponto de vista paisagístico, chegando a dar ares de parque natural. Chegado àquela povoação, após contornar a Venda do Pinheiro, deparo com uma roulote que diligentemente vendia pão saloio e a famosa merenda com chouriço a que foi impossível resistir. Comprei um espécime e ingeri metade daquele saboroso repasto guardando, para outra ocasião, o restante.

Sigo em direcção ao Jerumelo (a subir, naturalmente) e daí para a fabulosa descida para o Vale da Guarda não sem antes ter sido protagonista de um incidente que poderia levar-me a um contacto mais íntimo com o solo. De facto, em plena descida a roda dianteira passa por uma zona enlameada (até aqui nada de estranho, tal foi uma constante desta travessia). Acontece que se tratava de uma área movediça e exerceu um fenómeno físico correspondente a uma travagem forte da roda liderante. Pânico, por breves instantes, adrenalina no sangue, logo de seguida e, instintivamente, os estabilizadores automáticos de reequilíbrio foram accionados. Sem intervenção consciente, agarro bem o guiador, dou um golpe de rins e, por milagre, evito o pior, mantendo todo o conjunto na vertical e saindo da encrenca, todavia, com o pulso mais acelerado que na mais íngreme das rampas. Valeu que a velocidade não era excessiva.

Reposta a normalidade (sabemos que isso acontece quando gradualmente se recomeçam a escutar os pássaros a cantar) lá segui em direcção ao fantástico Gradil, naturalmente que não sem antes tornar a subir. Há, num betetista, uma tendência filosófica para a “harmonia altimétrica” expressa através de um desejo, cada vez mais profundo em função do decorrer da quilometragem e do cansaço, que os desníveis se esbatam. Assim, à semelhança de uma subida, a descida infindável até ao Gradil foi, por mim, mal recebida já que aos míseros 70 metros de altitude no fundo do vale haveriam de corresponder a uma contraditória e miserável ascensão, Serra do Chipre acima, por um piso abominável. Chegado, “lá acima” continua o “sobe e desce” pelos sucessivos vales abruptos. Após Vale da Abelheira de novo lá para cima até se rolar, finalmente, por uns quilómetros mais ou menos a direito. A velocidade média que, no Tojal ainda superava os 21 kms./h,, estava agora reduzida a uns míseros 13,5 kms./h. !

Estava a chegar ao fim a montanha e, lá embaixo, avistava-se Encarnação e as (supostas) planuras. Desço rapidamente em direcção ao vale do Safarujo que cruzo e começo a contornar a Encarnação e o planura, por milagre, ou talvez não, começa a transformar-se em ondulado ainda que, tendo em consideração o que já deixara para trás, tal constituísse uma altimetria de luxo para rolar.

Infelizmente terminou a montanha mas recomeçou o barro, porca miseria! A transmissão agora começava a dar os seus primeiros problemas técnicos. Primeiro um chainsuck inibidor e irritante que, após oleada a corrente, se mitigava; depois os problemas no desviador dianteiro motivados pelo cabo que começou a romper – a impotência funcional começou pela cremalheira 44, seguindo-se a 22. Felizmente que fortuna juvat audax e restou-me a polivalente 32 a qual, com maior ou menor dificuldade, me permitiu levar de vencida a incursão.

As povoações foram sendo dobradas,uma após outra: Azenhas dos Tanoeiros, São Pedro da Cadeira e Casal da Pedra. Esta entrada no vale do Sizandro foi um autêntico desastre com os caminhos de aluvião virados do avesso com o barro. Parecia estar num combate de mud wrestling e isto durante mais de dois quilómetros. Vencida a provação e cruzada a EN9 lá escapei ao barro e fui cruzando diversas povoações até à Bombardeira e daí para o magnífico Vimeiro onde, apesar da hora avançar rapidamente, fiz questão de visitar o obelisco que evoca a memoria da batalha que pôs termo à primeira invasão francesa da Guerra Peninsular em 1808 mesmo que, para isso, tenha enfrentado uma apurada ascensão dentro da povoação já que o memorial fica bem lá no alto.

Tornei a descer e, de novo, enfrentei uma nova subida de antologia até à Ventosa como forma de evitar seguir pela EN. Já em planalto e após esta povoação cheguei à Pregancia e após uma descida violenta cruzei a EN 8-2 cheguei à Marteleira que subi até às bandas de Nadrupe e daí para Miragaia. Aqui chegado, pelas 18:30 e, estando prevista a saída do comboio das Caldas da Rainha pelas 19:00, foi a altura de divergir, primeiro por um estradão e depois pela EN em direcção ao Bombarral onde cheguei cerca de 20 minutos depois ainda a tempo de passar pela auto-lavagem que devolveu a justiça estética à bicicleta agora contrastante com o aspecto rústico (para ser moderado na apreciação) do ciclista proprietário.

Jornal comprado para viajar, rumei a Lisboa a bordo da confortável automotora azul não sem antes transbordar no Cacém para o rubro suburbano.

No fim tudo está bem quando acaba bem até porque, bem vistas as coisas, a Divindade escreve direito por linhas tortas. Assim, o plano inicial Caldas – Lisboa teria uma quilometragem ainda maior e apresentado a montanha já perto do final logo, uma dureza superior com a agravante do nocturno descanso ser dolorosamente amputado pelo precoce horário da composição ferroviária.

Em suma: a conjugação da quilometragem, da altimetria, do ritmo elevado e da lama fizeram desta a mais difícil incursão dos últimos tempos. Acredito que, com boa forma, piso seco e saída mais temporã de Lisboa, as Caldas estejam ao alcance de quem quiser tentar a sua chance.

Provavelmente voltarei ao assunto em breve, assim haja alguém de barba rija para me acompanhar :-)

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(*) farpa com o patrocínio da “Pasta Medicinal Couto” a do artista português :-)


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